Noites de Vigília

Cadê os fiscais do Sarney para fiscalizarem o Sarney? (hein? hein? - dedos em velocidade máxima)

Publicado em 22 de junho de 2009 às 00:53 por preto

100 anos do Rei do Swing


Benny Goodman

Foi preciso um clarinetista branco de origem judaica para mostrar ao mundo que o jazz era mais do que mera música de entretenimento. Benny Goodman, o Rei do Swing, levou o jazz ao Carnegie Hall e até hoje influencia instrumentistas de todo o mundo com seu clarinete limpo e melódico. Considerado um dos gênios do jazz, Benny Goodman nasceu há 100 anos, em 30 de maio de 1909.

Para entender como Goodman se tornou um dos nomes mais populares da música, é preciso retornar à década de 20, quando vários mestres deixavam New Orleans para tocar em Chicago. Esse movimento migratório permitiu que Benny Goodman tivesse contato com a música de Jelly Roll Morton, King Oliver e Louis Armstrong.

Filho de imigrantes judeus, Goodman começou a tocar clarinete na sinagoga, mas logo passou para grupos populares. Era um talento precoce. Com 12 anos, já era profissional. Aos 14, trocou a escola pela música.

Uma transformação já se anunciava no trompete de Armstrong, capaz de deslocar a batida forte dos compassos em um ritmo todo próprio, imprimindo um sopro vigoroso a uma melodia maleável. Goodman aprendeu tudo isso. E levou para a orquestra.
Nos anos 30, a rádio NBC apresentava o programa Let’s Dance com três orquestras: uma leve, outra latina e a terceira “hot” – a “quente” era justamente a de Benny Goodman. Assim, o jovem clarinetista era ouvido de costa a costa nos Estados Unidos.

Além de um ótimo instrumentista, Goodman era um bandleader de visão empresarial – dizem que era pão-duro na hora de pagar –, capaz de aglutinar talentos. Tanto que atraiu o baterista Gene Krupa e convenceu um rival a escrever arranjos exclusivos: Fletcher Henderson. Se o negócio era fazer dançar, a orquestra de Goodman o fazia com arranjos fervorosos e inesperados, abrindo caminho para os grandes solistas. Com arranjos complicados, os músicos eram obrigados a ler partituras e obedecer dinâmicas que pertenciam à música erudita. Surgia a Era do Swing e, com ela, o jazz deu um salto técnico. E tornou-se extremamente popular.

Tão popular que alimentava preconceitos. Frequentemente era considerado música descartável de pretexto dançante. É claro que as orquestras baixaram a guarda para manter o sucesso, mas muita coisa boa também foi produzida. Tanto que bandleaders como Duke Ellington e Artie Shaw entraram no terreno erudito – o próprio Goodman andou solando em filarmônicas.

O clarinetista fez tanto sucesso que foi apelidado – por Gene Krupa – como Rei do Swing. Mas a Segunda Guerra explodiu, muitos músicos se alistaram, veio o racionamento e as big bands foram se desmembrando em grupos menores. Avessos à popularidade do swing e buscando um espaço maior – e mais abstrato – para a expressão do solista, um grupo de músicos começou a inovar. Surgia o bebop. Quando a guerra acabou, swing e bebop eram rivais. Ninguém imaginava que, nessa briga, ganharia espaço um estilo básico e rebelde, tocado em apenas três acordes: o rock’n’roll.

Benny Goodman seguiu tocando até sua morte, em 1986, de ataque cardíaco. Nos anos 60 e 70, reuniu seu quarteto magistral, com Teddy Wilson (piano), Gene Krupa (bateria) e Lionel Hampton. Sua música marcou época sem deixar de ser imortal.


Carnegie Hall, a aclamação
Benny Goodman conseguiu algo impensável em 1938: levar sua orquestra composta por negros e brancos – junto a convidados – para um megaconcerto no Carnegie Hall, o templo da música erudita. O concerto foi histórico e ajudou a romper com alguns preconceitos que ainda estigmatizavam o jazz, conferindo uma credibilidade – além de novo público – inédita ao gênero. Goodman provou que, mesmo dançante, sua música ia muito além do modismo. Basta ouvi-lo hoje para comprovar que, aos 100 anos, Benny Goodman está bem conservado.

Ranulfo Pedreiro
*Publicado originalmente no Jornal de Londrina

Publicado em 28 de maio de 2009 às 13:31 por preto

Zé Rodrix, com serpentina


Liguei para Zé Rodrix por conta da morte de Tico Terpins, em 1998, a pretexto de fazer uma entrevista. Zé estava triste, perdera um amigo e sócio, não disfarçava a melancolia. Agora, 11 anos depois, é o próprio Rodrix que se foi, aos 61 anos, sem o devido reconhecimento.

Multi-instrumentista, cantor, compositor, regente, arranjador, escritor, jornalista, publicitário, ator, produtor, trekker, maçom, carioca/paulistano, advogado com especialização em Literatura, História e Filosofia. Zé Rodrix era daqueles caras que fazem tudo ao mesmo tempo.

Criticava quem confundia fama com sucesso profissional. Satirizava o jogo de vaidades do meio artístico, tirava sarro do mundinho de celebridades dando entrevista em roupão de banho. O alvo de Zé Rodrix era a hipocrisia.

Fez rock brasileiro com influências da música caipira, o tal “rock rural”, mais mineiro que carioca. Antes, porém, cantou com Edu Lobo a famosa Ponteio e venceu o festival de Juiz de fora com Casa no campo (com Tavito). No trio Sá, Rodrix e Guarabyra deixou dois discos memoráveis: Passado, presente e futuro (1972) e Terra (1973). Da carreira solo, gosto de Soy latino-americano (1976), com levada caribenha.

Zé Rodrix tinha um humor anárquico capaz de lançar Chacrinha para a presidência com a marcha Seu Abelardo (1981). Com Paulo Coelho, satirizou o feminismo em Abaixo a cueca (1979). Em 1983 entrou para o Joelho de Porco e foi responsável pelo antológico álbum duplo Saqueando a cidade, de ironia cáustica.

Como escritor, dedicou-se a livros sobre Maçonaria e romances históricos. Por Diário de um construtor do templo (1999), ganhou o Prêmio Lima Barreto. Fez trilha para teatro, filmes, novelas e musicais. “O meu negócio é viver”, dizia.

Zé Rodrix achava que o poder público não devia patrocinar a cultura. Quando soube que o espetáculo Rei Lagarto, do qual participaria em 2007, tinha recursos da Lei Rouanet, abandonou o projeto: “Não acredito que o dinheiro de todos deva servir para patrocinar a aventura pessoal de alguns”, disse a O Globo. Polêmica à parte, manteve seus princípios.

Luís Nassif, em seu blog (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/05/22/homenagem-ao-ze-rodrix/), publicou um necrológio escrito pelo próprio Rodrix: “Sendo um velório moderno, recomendo músicas de Carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogados sobre o caixão, fechado, naturalmente”.

Zé Rodrix era pau para toda obra. Sabia que a riqueza da vida está nos achados do cotidiano e, com eles, fez sua fortuna – indexada pela coerência.

Publicado em 25 de maio de 2009 às 15:13 por preto

Um instrumento chamado voz

Monica Salmaso/div

Ranulfo Pedreiro

Há pessoas que cultivam a arte como cuidam de uma árvore. Ficam ali, no trabalho diário, acompanhando o surgimento de cada folha, sem atropelar o tempo. A cantora Mônica Salmaso é assim. Sua carreira, já frondosa, foi cultivada com tanto cuidado que a árvore cresceu para cima, rumo aos céus, na mesma proporção que cresceu para baixo, firmando as raízes. Raízes que se estabeleceram em fundamentos sólidos da música brasileira. Mônica Salmaso é uma das cantoras mais importantes do país – e sua carreira continua em ascensão.

Ela se apresenta pela primeira vez em Londrina na sexta-feira, às 20h30, no Teatro Ouro Verde. E vem acompanhada por dois instrumentistas de talento proporcional ao da cantora: Nelson Ayres (piano) e Teco Cardoso (sopros).

Dono de um timbre único, verdadeira impressão digital, Mônica Salmaso não costuma se colocar acima da canção. Nem acima do instrumental, sempre apuradíssimo. Isso se dá porque a cantora interage com os instrumentos que a cercam, ouvindo-os atentamente. Em resumo, a voz de Mônica Salmaso age como um instrumento. Um instrumento dotado de palavras.

Sua estreia em CD ocorreu no disco Canções de ninar, projeto que deu origem ao Palavra Cantada, de Paulo Tatit e Sandra Peres. Depois, regravou os afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes ao lado do violonista Paulo Bellinati. O primeiro disco solo foi Trampolim (1998), seguido de Voadeira (1999) – premiado com o Visa de MPB. A partir de Voadeira, os prêmios e elogios se acumularam, levando-a a turnês pelo exterior. O quarto disco só veio em 2004: Iaiá. Noites de gala, samba na rua (2007) foi dedicado a canções de Chico Buarque.

A apresentação em Londrina marca a passagem para novos projetos, um novo galho a reforçar uma voz imune a tempestades.

Serviço - MÔNICA SALMASO – Com Nelson Ayres (piano) e Teco Cardoso (sopros). Sexta-feira (dia 15/05/2009), às 20h30, no Teatro Ouro Verde. Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Antecipados: R$ 15 e 1kg de alimento não perecível. Vendas: Teatro Ouro Verde (9h-17h), Pátio San Miguel (14h-19h) e Brasiliano (18h-24h). Patrocínio: Vectra. Informações: 3341-4000.


O Brasil tem hoje muitas cantoras de qualidade, mas poucas com uma identidade tão marcante. Sua voz é inconfundível. É mais técnica ou emoção?
MS - Acredito que um pouco das duas coisas, mas a minha preocupação é a de mostrar para as pessoas as músicas que eu escolho (e que para mim são especiais), não a de ME mostrar através das músicas.

Você vive cercada de ótimos músicos, é reconhecida pela crítica e faz uma carreira independente. O reconhecimento do público vem na mesma medida?
MS - Eu faço a minha carreira de forma mais autoral do que independente. Sempre estive em gravadoras pequenas ou médias e faço um caminho gradual. Acho que a formação de público sempre foi (e continua sendo) feita nesta velocidade, mas com uma identidade mais profunda do que acontece com carreiras meteóricas e de grandes exposições.

O mercado fonográfico está cada vez mais apressado. Já os seus discos parecem feitos em um tempo diferente, como se você não se deixasse levar pelas paranóias de estúdio. Como é seu processo de gravação?
MS - Depende do disco, cada um teve uma história. Em geral, eu sinto necessidade de gravar um disco novo quando percebo que o trabalho anterior já contou sua história. Como eu nunca tinha feito turnês pelo Brasil como a que fiz o ano passado, eu levava por volta de 3 anos para conseguir viajar com os trabalhos e, com isso, demorava para fazer novos lançamentos. Este ano eu me sinto pronta para começar a pensar em um próximo trabalho porque sinto que o Noites de gala, samba na rua conseguiu contar a sua história. Vamos lançar ainda este ano um CD ao vivo do show gravado no finalzinho da turnê. Com isso, sinto que a história deste trabalho se fecha de uma forma completa.

Como é conviver com um mercado fonográfico que, salvo exceções, enxerga a música como um produto efêmero?
MS - Da forma como eu vivo a música ela não é um produto efêmero. Meus trabalhos continuam vendendo, quando as pessoas conseguem encontrar os discos - essa ainda é a nossa maior dificuldade.

Você tem uma carreira bastante consolidada. A mídia já parou de lhe tratar como “revelação”?
MS - Em geral, o que acontece é que como eu não sou uma celebridade que vende notícias, os jornalistas e os meios que falam do meu trabalho conhecem e compreendem (ou até se identificam) com uma carreira como a minha. Então, isso já diminuiu bastante, mais ainda acontece.

Seu canto dialoga bastante com os instrumentos do conjunto – sua voz parece um instrumento dotado de palavras. Como é esse entrosamento?
MS - Depois da escolha de repertório, o entrosamento destes encontros é o que me dá mais prazer em cantar. Eu tive muita sorte de conhecer músicos maravilhosos desde o início da minha carreira e de desenvolvê-la influenciada por eles. Então, eu realmente escuto o que é tocado e isso interfere no meu canto. Essa é a graça! Assim é divertido.

Você gravou os Afro-Sambas com Paulo Bellinati. Em Trampolim, aparecem músicas de domínio público, de Waldemar Henrique, Dorival Caymmi. Em Voadeira reaparece Caymmi e há uma versão emocionante de Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins. Mesmo quando você grava compositores contemporâneos, parece não se esquecer dos fundamentais...Conhecer o passado ajuda a manter o rumo?
MS - Acredito muito que sim e acho sintomático que tantos novos talentos estejam procurando fontes e influências no samba tradicional e no choro. Não só é importante procurar no passado, como no caso da música Brasileira, isto é uma fonte inesgotável de material maravilhoso. Mas uma vez feita a escolha do repertório, eu não faço distinção entre uma canção inédita e uma canção dos anos 30. Eu escuto tudo e me deixo apaixonar pelas canções que me tocam. Aí, tenho vontade de mostrá-las para todo mundo.

É seu primeiro show em Londrina. Como será?
MS - Estou muito feliz em, finalmente, conseguir cantar em Londrina. Vamos fazer uma estreia aí, eu, o Nelson Ayres e o Teco Cardoso. Nós tinhamos pensado, inicialmente, que feríamos uma releitura do Noites de gala, samba na rua, que trabalhamos tanto. Mas ao começarem os ensaios, fomos trazendo idéias de repertório apaixonantes e, do CD gravado ficaram somente Beatriz, Construção e Ciranda da Bailarina. Aí entraram coisas lindas como Melodia Sentimental, do Villa-Lobos, Derradeira Primavera (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Samba Erudito (Paulo Vanzolini).
Então, estaremos nervosos com a estréia e muito animados. Espero que as pessoas possam nos ver!


Repertório do show:
-Samba erudito (Paulo Vanzolini)
-Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim / -Vinicius de Moraes)
-Camisa amarela (Ary Barroso)
-Ciranda da bailarina (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Construção (Chico Buarque)
-Beatriz (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Lábios que beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo)
-Uma noite (Nelson Ayres)
-Minha palhoça (J. Cascata)
-Coração vagabundo (Caetano Veloso)
-Melodia sentimental (Heitor Villa-Lobos / Dora Vasconcelos)
-A história de Lily Braun (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Véspera de Natal (Adoniran Barbosa)

Publicado em 13 de maio de 2009 às 11:35 por preto

Talentos de uma música sem fim

André Mehmari

André Mehmari e Gabriele Mirabassi lançam o CD Miramari amanhã em Londrina com show no Ouro Verde

Ranulfo Pedreiro

Foi o compositor e violonista Guinga quem percebeu que a união do pianista André Mehmari e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi daria samba. Guinga e Mirabassi gravaram o disco Graffiando Vento, lançado na Europa. Durante um show no Brasil, Guinga apresentou Mirabassi a Mehmari.
A empatia foi imediata e passa pela ausência de fronteiras entre erudito e popular. Não há, no duo, uma separação clara: a sonoridade limpa lembra a música de câmara, mas o colorido e a espontaneidade são populares. Não demorou para André Mehmari e Gabriele Mirabassi perceberem que deveriam gravar um disco.
Miramari, o CD, saiu pelo Estúdio Monteverdi e tem distribuição da Tratore. André Mehmari e Gabriele Mirabassi fazem o show de lançamento amanhã no Teatro Ouro Verde, antes mesmo de tocarem em São Paulo no fim de semana. Quem comparecer, vai assistir a dois virtuoses que se fundem com linguagem própria e dinâmica.
Compositor, arranjador, pesquisador e instrumentista, André Mehmari é um grande talento. A juventude, no entanto, esconde uma carreira já longa. André foi uma criança prodígio que se destacou pela incrível facilidade de improviso. Mas não caiu na fogueira das vaidades do mercado de entretenimento, capaz de exibir talentos precoces como curiosas aberrações.
Em vez de abraçar a fama, André mergulhou nos estudos. Foi a fundo na música barroca e destrinchou a música russa da virada do século 20. Passou por períodos de introspecção em que buscou o domínio do vocabulário musical para construir a própria linguagem.
Pois o rapaz conseguiu. André Mehmari compõe fartamente, seja para grupos de câmara, orquestras ou conjuntos de MPB. O pianista de fraseado ágil, capaz de rechear improvisos com citações diversas, obedece aos meandros da composição. “Quem manda no pianista é o compositor e arranjador”, diz o músico, em entrevista por telefone, reafirmando que a composição fala mais alto em sua carreira.
Gabriele Mirabassi, por sua vez, é um virtuose com evidente paixão pela música brasileira. Antes, porém, estudou com John Cage e enveredou pelo jazz. Como Mehmari, Mirabassi é capaz de encampar diferentes projetos ao mesmo tempo, e cumpri-los com reconhecida qualidade. Quem for ao Ouro Verde amanhã não vai ouvir música erudita ou popular. Vai ouvir boa música.

ANDRÉ MEHMARI E GABRIELE MIRABASSI – Show de lançamento do CD Miramari. Dia 13, às 20h30, no Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85). Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Informações: 3322-6381.


Você e o Gabriele Mirabassi se conheceram por intermédio do Guinga, não é?
ANDRÉ MEHMARI - A primeira vez que ouvi o Gabriele foi na casa do Guinga. Eles gravam o disco Graffiando Vento, lançado na Europa. Fiquei impressionado com a linguagem e o conhecimento que o Gabriele tem de música brasileira. Durante um show do Gabriele e do Guinga fomos apresentados, e aí nasceu a vontade de fazer alguma coisa juntos. Isso foi por volta de 2004. Nosso primeiro show juntos foi em 2007, em São Paulo.

Ouvi o disco e parece que vocês tocam juntos há muito tempo.
Foi muito rápida a construção de uma linguagem do nosso duo. Ganhou uma cara muito pessoal. Foi dessa forma que percebemos que deveríamos fazer um CD. A gente já tinha a ideia de fazer o disco, mas recebi uma encomenda para fazer um concerto para a Banda Sinfônica de São Paulo. Era para eu e o Gabriele solarmos com a Banda Sinfônica. Quando ele veio para cá, aproveitamos as horas vagas e gravamos.

O show em Londrina é o primeiro show de lançamento do CD?
É o primeiro show de lançamento, depois vamos para São Paulo e Belo Horizonte.

Por que vocês se entrosaram tão bem musicalmente?
Tanto eu quanto o Gabriele não nos encaixamos no mundo da música erudita ou popular. Transitamos pelos dois mundos, pois para nós só existe um mundo, que é a música. E ele conhece profundamente música brasileira, conhece mais do que muitos músicos brasileiros. Soa como uma parceria mais antiga e, no entanto, o CD foi gravado em meio a uma semana de ensaios para outro concerto.

Nelson Freire costuma dizer que o piano brasileiro é chopiniano. Existe um jeito brasileiro de tocar piano?
O piano brasileiro tem, sem dúvida, um pé no romantismo chopiniano, ao mesmo tempo em que carrega o ritmo de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, é um elemento que teve uma evolução. Egberto Gismonti tem esses dois mundos, o amaxixado e o chopiniano. O piano brasileiro existe como linguagem e é extremamente colorido. No meu piano, percebemos ainda a música barroca e a música russa, que eu estudei intensamente. O gestual dos compositores que estudei passou para a minha linguagem.

Você apareceu muito cedo no meio musical. Como você lidou com essa exposição?
Eu fui bastante precoce, comecei profissionalmente com 10 anos, tocando em bailes. Sempre tive muita facilidade, eu era meio um “garoto prodígio”, mas felizmente não fui explorado como tal, porque isso muitas vezes leva muitos músicos ao fim da sua carreira, a se afogar nessa ansiedade do show business. Não tive esse problema. Pude desenvolver minha linguagem com serenidade, pude ser estudioso e amadurecer a linguagem. Sobretudo longe do show business. O estudo da música não tem fim, quanto mais se estuda, menos se sabe.

Mozart, por exemplo, foi criança prodígio e sofreu muito com isso.
Durante a infância eu fui bastante normal. Durante a adolescência eu fui por um caminho de introspecção e estudo. Eu tinha uma vida bastante diferente dos meus colegas. Eu tinha uma prática diária de composição. A música foi uma estrela guia e me ajudou a enxergar melhor o mundo.

Você compõe e arranja muito. Como é esse processo?
Componho desde a pré-adolescência, essa vontade de criar música surgiu muito cedo, vem muito do fato de ser um improvisador. A improvisação é a preliminar da composição. Até me enxergo principalmente como compositor que toca. Quem manda no Mehmari pianista é o compositor e o arranjador.

É a primeira vez em Londrina?
É a segunda, já estive em 2002 com o meu trio no mesmo teatro, foi muito legal. Lembramos com bastante carinho dessa apresentação, ficamos muito contentes.

Publicado originalmente no Jornal de Londrina (12/05/2008)

Publicado em 12 de maio de 2009 às 13:53 por preto

No tempo de Noel Rosa

autocaricatura de Noel Rosa

No dia 6 de abril de 1951 o cantor, compositor e radialista Almirante estreou na Rádio Tupi do Rio de Janeiro uma série que marcaria o rádio brasileiro: No tempo de Noel Rosa. O poeta da Vila Isabel, morto em 1937 aos 26 anos, estava em evidência pela voz de Aracy de Almeida.

Almirante, que iniciou na carreira musical ao lado de Noel, aproveitou o momento para passar a limpo vários fatos envolvendo a vida do compositor. Para isso criou a série No tempo de Noel, que seria também autobiográfica. Almirante relembrava o passado e aproveitava para exorcizar velhos fantasmas.

O programa de estreia retratava o ambiente musical que cercava Noel Rosa antes do Bando de Tangarás. Almirante falava sobre a Vila Isabel da década de 20, onde conviveu com Noel. “Eu fui amigo de Noel Rosa, Noel Rosa começou sua vida musical comigo. Um samba meu deu origem à grande batalha musical que Noel empreendeu em favor de seu bairro, a Vila Isabel”, destacava, com inquestionável autoridade.
Conheço esses fatos com precisão porque ganhei toda a série No tempo de Noel Rosa, presente generoso de José Luís da Silveira Baldy, pesquisador incansável da música brasileira. A coleção integra o acervo da Collector’s Studios (www.collectors.com.br), está restaurada e é uma preciosidade.

Os programas impressionam pela atualidade e pela produção. Almirante não poupa momentos emocionantes: “O atestado de óbito de Noel Rosa está comigo”.
E conta histórias saborosas. Em 1923, Almirante ganhou um filme sobre bicho-da-seda, mas não tinha como exibi-lo. Eis que um rapazote quase sem queixo apareceu vendendo um projetor. Era Noel Rosa, que pediu uma pequena fortuna pelo aparelho. O negócio não se concretizou, mas o encontro marca o início da amizade entre Almirante e Noel.

Triste mesmo foi a morte do pai de Almirante, em 1º de março de 1924: “Tive meu primeiro choque emotivo, desses que nos vêm dos contrastes imprevistos. É que papai morreu no sábado de Carnaval”.

Na madrugada, a música de um violão invadiu o velório: “Ó cúmulo da irreverência, eram uns vizinhos nossos, numa casa a poucos metros da nossa. Lá estava quem, ouvintes? Catulo da Paixão Cearense, cantando e tocando”.

A indignação de Almirante é clara: “Tinham conhecimento de que o corpo estava sobre a mesa enteiriçado, tendo em redor a família vergada ao peso da desgraça, soluçando. Mas era como se nada soubessem. Vararam pela noite afora entoando um samba dolente, cuja melodia triste chegava aos nossos ouvidos... como uma afronta sonora à nossa dor”. Só esta passagem, aos dez minutos do primeiro programa, já valeu a série toda.

Publicado em 11 de maio de 2009 às 16:41 por preto

O velho novo Bob Dylan

O velho Dylan continua bom

Bob Dylan assistiu a Edith Piaf – Um hino ao amor e gostou muito. O diretor do filme, Olivier Dahan, que não é bobo, resolveu convida-lo para fazer a canção tema do road-movie My own love song. Dylan estava com uma banda afiada e, além da encomenda – chamada Life is hard – surgiram várias outras canções. Quase por acaso, Bob Dylan fez mais um bom disco.

Como a banda vinha aquecida, Together through life soa espontâneo, sem penduricalhos. Os arranjos, porém, se voltam às raízes da música norte-americana pré-rock, uma fixação de Dylan que, vez ou outra, vem à tona. As músicas são tão básicas que têm a familiaridade dos fundamentos, carregam arquétipos do rock and roll.

A temática, porém, é atemporal: o amor não é apenas romântico. Bob Dylan trata da perda, da separação, do repúdio, do remorso, da saudade, do arrependimento. Do amor sepultado a sete chaves, mas que assusta como um velho fantasma. Essa mistura de sentimentos contraditórios atrai violência. Together through life é romântico, mas tem armas e sangue.

Cada vez que reverencia o passado – e isso é constante -, Bob Dylan mostra domínio sobre as próprias referências. Daí a tranqüilidade com que coloca o acordeom em primeiro plano. O elogio a um instrumento estrangeiro ao pop/rock, mas comum ao folk, situa as canções nas raízes da memória, como se convivêssemos há décadas com elas. De certa forma, convivemos.

Em entrevista a Bill Flanagan publicada no site oficial, Dylan destaca: “Eu queria fazer canções como Woody Guthrie e Robert Johnson. Infinitas e eternas”. Essa busca da perenidade vai além do clima retrô. Bob Dylan faz reverência à música que sempre cultivou. Foi imitando Guthrie que o jovem Dylan encontrou o próprio caminho.

Para um sujeito com 68 anos e que influenciou os Beatles, Bob Dylan está em boa forma. Together through life não é coeso como Modern Times (2006), mas continua bem acima do que o pop/rock vem apresentando.

Mesmo feito às pressas, o CD lançado pela Columbia tem muito o que ensinar. Em tempos de excesso de informação e falta de referências, valorizar as raízes pode ser uma boa bússola para escapar dos labirintos fúteis que movem o meio fonográfico.

P.S.: My wife’s home town é uma citação óbvia de I just wanna make love to you, de William Dixon. Essa história de plágio é bobagem. Um plágio seria mais discreto.

Publicado em 04 de maio de 2009 às 14:21 por preto

A ira de Hércules

Hercules, o fortão

Em tempos de informação rápida, é bom descobrir obras que envelhecem bem. É o caso de O livro de ouro da mitologia, que o escritor norte-americano Thomas Bulfinch lançou em 1855. Bulfinch foi um dos maiores especialistas em mitologia do século 19, e o texto integral de sua principal obra pode ser encontrado em O livro da mitologia, lançado pela Série Ouro da Martin Claret com preço sugerido de R$ 18,90. É barato pela propriedade com que o autor narra mitos fundamentais da cultura ocidental.

Bulfinch lembra que a música era associada ao poder da cura. Por isso Apolo, geralmente identificado com o Sol, tinha o dom da medicina e da música. Como quem era músico também era poeta, Apolo ainda se destacava nas letras.

Outro virtuose da Antiguidade era Aríon, que viajou de Corinto para a Sicília e ganhou uma fortuna em um concurso musical. Na volta, o tesouro despertou a cobiça dos marujos, que jogaram Aríon no mar. Mas o músico usou a lira para encantar um golfinho e alcançar a terra firme. Quando o barco chegou a Corinto, Aríon apareceu coberto de ouro, aterrorizando os malfeitores.

Minerva inventou a flauta. Mas não aturou as gozações de Cupido, que achava engraçado o biquinho que a deusa fazia para ganhar embocadura. Com raiva, Minerva jogou a flauta na Terra. O instrumento foi encontrado por Mársias que, de tanto insistir, passou a dominá-lo. Metido a besta, Mársias desafiou Apolo para um duelo musical. Perdeu, claro. E, de quebra, por causa da arrogância, foi esfolado vivo.

Mexer com a vaidade dos deuses era uma grande roubada. Lino, por exemplo, teve o azar de ser professor de música de Hércules. Quanto mais Lino ensinava, mais o grandão se demonstrava incapaz. Por fim, o professor perdeu a cabeça e deu uma bronca no semideus. Irritado, Hércules bateu-lhe com a lira – e Lino morreu na hora.

Filho de Apolo, Orfeu herdou o talento do pai. Quando tocava a lira, Orfeu acalmava as feras e amolecia as rochas. Assim, conquistou Eurídice que, fugindo do assédio de Aristeu, pisou numa cobra e morreu.

Pois Orfeu desceu até o Tártaro - o mundo dos mortos - e tocou para Plutão, que chegou a lacrimejar, vejam só, com a beleza da melodia. Eurídice voltou a viver sob a condição de que Orfeu não olhasse para ela ao sair do Tártaro. Ávido para ver a amada, o músico não resistiu, e Eurídice morreu outra vez. O casal só se reencontrou quando Orfeu também bateu as botas – um caso de amor consumado no além-túmulo.

Publicado em 28 de abril de 2009 às 14:56 por preto

Quem tem raça é cachorro

João Ubaldo Ribeiro
O Estado de S.Paulo (29/03//2009)

No domingo passado, citei aqui a frase de meu amigo e conterrâneo Zecamunista que hoje uso como título. Ele de fato diz isso, como eu também digo, nas conversas intermináveis havidas com amigos desde a juventude, quando nos ocorre a felicidade de revê-los. Coroas meio ou bastante chatos, compreendemos quando os mais novos nos cumprimentam com a possível afabilidade, depois mantendo prudente distância. Portanto, a maior parte de nossas conversas não passa mesmo do papo de dois velhotes irresignados e rezinguentos, que não sai, e geralmente não deve ou não precisa sair dali, pois costuma ser algo sem o qual ou com o qual tudo permanece tal e qual, como sentenciava minha avó Pequena Osório, a respeito de meus livros.

Mas, no caso, quando estamos ameaçados de ver consagrada nas leis do País a divisão do povo brasileiro entre raças, acho que devemos fazer o nosso papo transcender os limites do Largo da Quitanda, a ágora da Denodada Vila de Itaparica, onde hoje vultos menores, como Zeca e eu, ocupam com bem pouco brilho o lugar de tribunos da plebe legendários, como Piroca (Piroca é um apelido para Pedro, no Recôncavo Baiano; não tem nada demais, é um fenômeno que atinge o nome “Pedro” de forma curiosa; quer ver, pergunte a um amigo americano o que quer dizer “peter”, com P minúsculo) e Zé de Honorina, este negro pouco misturado com branco, aquele mulato. Zé, aliás, um dos homens mais inteligentes, argutos e eloquentes que já conheci – e cito o que se segue como um dado interessante – não tinha muita noção de que era negro e uma vez me pediu explicações sobre “negritude” e “irmandade” entre negros, conceitos que lhe eram pelo menos parcialmente estranhos.

Mas vou deixar de nariz de cera e de vaselina, porque creio que o assunto merece ser tratado na grossura mesmo, como vem sendo por muita gente, em todas as faixas de opinião. Quem tem raça é cachorro (em inglês, breed, não race), gente não tem raça. Não vou repetir, porque qualquer um com acesso ao Google pode se encher de dados sobre isto, os argumentos científicos que desmoralizam a raça como um conceito antropologicamente irrelevante e equivocado, sem apoio algum entre os que estudam a genética humana. Entretanto, o atraso da espécie (ou raça) humana leva a que continuemos a lhe emprestar importância desmedida e irracional, odiando por causa dele, matando por causa dele e até ameaçando o planeta por causa dele. De qualquer forma, incorporando o conceito de raça a seu sistema jurídico, o Brasil estará dando um ridículo (mas de consequências possivelmente temíveis, ou no mínimo indesejadas) passo atrás, mais ou menos como se o Ministério da Saúde consagrasse a geração espontânea de micro-organismos como fonte de infecções.

Mais ridículo e até grotesco é que os defensores do reconhecimento das “raças” que compõem o povo brasileiro façam isso depender de uma declaração ou opção da pessoa racialmente classificada, até mesmo em circunstâncias nas quais essa opção pode não ser honesta, mas apenas de conveniência, como nos casos, já acontecidos, de gente que se considerava branca declarar-se negra para obter a vaga destinada a um “negro”. Ao se verem num mato sem cachorro para definir a raça de alguém, exceto copiando manuais nazistas e tornando Gobineau e Gumplovicz autores básicos para a formação de nossos cientistas sociais, médicos, dentistas, músicos, atletas e profissionais de outras áreas onde as diferenças de aptidão ou fisiologia são “visíveis”, assim como era visível a superioridade dos atletas de Hitler que o negro Jesse Owen botou num chinelo, os defensores de cotas raciais se valeram desse recurso atrasado, burro, grotesco e patético em sua hipocrisia básica. Não há como defender critério tão estapafúrdio e destituído de qualquer fundamento.

Outra coisa chata, enquanto vemos o Brasil querer botar na letra da lei, o que outros países onde houve e há até mesmo apartheid, como nos Estados Unidos, não só de ontem como ainda de hoje, apesar do presidente Obama, fazem força para retirar, é a persistência do que eu poderia chamar de síndrome de Mama África, contra a qual quem eu mais vejo protestar são escritores amigos meus de países africanos, que não aguentam mais ser embolados num mesmo pacote como “africanos”, transformando em folclore disneyano a enorme complexidade cultural de um continente como a África. Burrice falar em “cultura africana”, “comida africana” e similares, em vez de pluralizar essas entidades, porque são plurais. Além disso, nada mais racista e simplório do que achar que os negros são “irmãos”. Os negros são tão irmãos entre si quanto os europeus entre si, ou seja, irmãos em Cristo, tudo bem. Mas o racismo contra si mesmos de muitos que se acham negros insiste em que há essa irmandade. Documentos escravagistas do Segundo Império, no Brasil, recomendavam que se mantivessem escravos de nacionalidades diversas na mesma senzala, porque muitos se odiavam ou desprezavam entre si mais do que ao opressor. Quem já viu um alemão racista olhar um polonês (eslavo, que curiosamente tem a mesma origem que “escravo”) sabe o que estou dizendo. Desumaniza-se o negro, tornando-o imune à baixeza de seus companheiros de humanidade (mas não de raça). Isto, claro, é outra asnice desmentida pelos fatos ontem e hoje. Ontem, quando mercadores negros de escravos vendiam outros negros por eles mesmos escravizados; hoje, quando negros continuam a escravizar negros e a guerrear entre si, exatamente como os homens de outras raças, o que lá seja isso, desgraça de atraso de vida na cabeça das pessoas, triste exemplo de um país misturado pela graça de Deus querer jogar no lixo esse dom inestimável e irreproduzível, “modernizando-se” pela condenação por vontade própria ao que a História não o condenou.

Publicado em 10 de abril de 2009 às 00:32 por preto

Os demônios de Marvin Gaye

Marvin Gaye


A explosão do rock nos anos 50 fez com que o mercado da música pop ganhasse um crescimento extraordinário e, com a comercialização, o rythm & blues ganhou uma linguagem urbana mais explícita, a soul music, gênero que levaria para os estúdios as onomatopeias de apelo sexual.

O jovem Marvin Gaye acompanhou profissionalmente toda essa transformação, imprimindo tamanha carga de sexualidade em seus hits que acrescentou um “e” no sobrenome, a fim de evitar conotações homossexuais.

Gaye era um rapaz talentoso e problemático. Seu pai, um pastor extremista, aplicava “corretivos” diários ao filho para impor uma conduta comportamental totalmente avessa à rebeldia que eclodiria nos anos 60.

Durante toda a vida Marvin Gaye sofreu pressões: dos casamentos em crise, da religiosidade do pai, do preconceito, dos movimentos sociais, da visão extremamente comercial da Motown, das drogas. Enfrentou todas. Passou por dois divórcios conturbados, brigou com o pai, lutou contra o preconceito e conseguiu produzir, por conta própria, um álbum que tirava a soul music da cama, levando-a a refletir sobre as transformações da época. Pagou caro, com várias crises de depressão e um apego doentio à cocaína.

Marvin Gaye foi baterista, pianista, arranjador, produtor e cantor – sua voz marcante ia da suavidade de travesseiro à aspereza da separação. Mesmo quando cedia às canções insípidas que faziam a alegria financeira da Motown, acrescentava a elas uma interpretação enriquecedora.

Gaye também emplacava duetos, fosse com Mary Wells ou Diana Ross. Com Tamy Terrell viveu um drama: a cantora desmaiou em seus braços durante um show, conseqüência de um tumor cerebral que a levaria à morte em 1970.

Dois álbuns, particularmente, marcaram a carreira de Gaye. What’s going on (1971) trouxe a autonomia de produção e os improváveis temas sociais – incluindo corrupção, drogas, guerra e ecologia – sem perder sensualidade. Let’s get it on (1973) fez o contrário para expor as amargas experiências conjugais.

Gaye brigou com a Motown em 1981e foi para a Columbia, onde lançou Midnight Love (1982). Após uma passagem pela Europa, voltou aos Estados Unidos combalido pelo vício. E aí cometeu um equívoco, refugiando-se na casa do pai, que aproveitou para exorcizar os demônios da família.

Fragilizado, o cantor tentou suicídio. Durante uma discussão, o pastor atirou contra o filho. Soube-se depois, quando o religioso estava preso, que parte de seu comportamento histriônico devia-se a um tumor cerebral. Marvin Gaye morreu em 1º de abril de 1984, um dia antes de completar 45 anos. Nasceu há 70, em 2 de abril de 1939.

Publicado em 06 de abril de 2009 às 11:54 por preto

Ranulfo Pedreiro é jornalista, gosta de música e arrisca umas crônicas.

















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