Assisti novamente – é a enésima – a Era uma vez no oeste. Sou fã de faroeste, mas o filme do Sérgio Leone não é só um bangue-bangue, é uma espécie de predecessor de produções como Pulp Fiction, com uma ironia latente e um humor constante.
E tem traços de contracultura: a gangue de Cheyenne se reconhece pela roupa, Harmônica é um outsider vingativo e Frank mata por dinheiro. A viúva (Cláudia Cardinale) não presta e o progresso é um câncer preso à via férrea.
Mas o que me chama a atenção é a associação de Era uma vez... à idéia de “ópera da violência”. Ennio Morricone estava atento às transformações da música contemporânea e usou vários elementos capazes de aproximá-lo, quem diria, de Stockhausen, Pierre Henry ou Schaeffer.
O principal, mais elementar, é fundir sonoplastia à composição. Na abertura do filme, a música é feita de ruídos: o moinho de vento, a mosca, as gotas d’água, todos os sons têm função musical, respeitando claro o silêncio que origina o suspense. Enfim, parte importante da trilha sonora vem de fontes que não são instrumentos musicais.
Frank é sempre precedido por cantos de grilos, que se interrompem anunciando a morte de alguém. Os temas de cada um são minimalistas, mas variam de acordo com o humor da cena. O de Harmônica é introspectivo e misterioso; o de Cheyenne é bonachão, mas pode tornar-se perigoso; Frank é letal, silencioso e rasteiro; a viúva é fútil, às vezes tola. Nenhum caráter, porém, é chapado. Ninguém é cara ou coroa, a construção é mais complexa e a trilha acompanha essa complexidade.
Tudo isso é legal para descaracterizar um pouco a música contemporânea como algo de iniciados ou intelectuais. É nada, seus elementos estão se popularizando – a eletrônica pop foi incorporada pela indústria fonográfica, os computadores estão em pleno vapor, a distorção está até na música sertaneja. Mas ainda falta muito, porque usar elementos contemporâneos não quer dizer que a gramática musical – ainda ferrenha – foi rompida.
Pelo contrário, ainda não digerimos a música sem melodia, harmonia e ritmo. Mas tudo bem, romper com esses dogmas foi a grande vitória do século 20. E romper não quer dizer exterminar, continuo gostando de música tradicional, com melodia, harmonia e ritmo. Mas também aprendi a gostar de quem tenta libertar-se dessas concepções.
Enfim, Ennio Morricone prova que a música contemporânea pode ser apreciada com prazer, sem precisar de ler antes um tratado sobre estética.
Publicado em 26 de fevereiro de 2005 às 13:39 por Preto
Em indisfarçável preconceito, a Academia vetou Jorge Drexler de interpretar a própria canção durante a cerimônia de premiação do Oscar, no domingo. O compositor uruguaio concorre a melhor canção por “Diários de Motocicleta”.
A alegação foi uma só: Drexler não é um superstar (leia-se figura que rende milhões para a indústria do entretenimento)
Em seu lugar, foi negociado Caetano Veloso, mas a Academia preferiu – até hoje, pelo menos – colocar o Banderas cantando ao lado de Santana.
Drexler é um cancionista talentoso, respeitado em seu país.
Suas músicas nos embalaram quando resolvemos mergulhar pelo Uruguai, rodando pelo litoral, capital e o útero colonial, na fronteira com a Argentina. O povo foi extremamente receptivo, não tivemos um problema, um senão, um porém.
Enfim, uma cultura que não merece ser menosprezada por uma indústria que faz o que faz.
Uma das misérias da humanidade consiste em minimizar a cultura alheia, medindo-a com olhos superiores, exibindo as diferenças como vitória do modo de vida de um povo.
O Oscar demonstra valorizar esta ação. Se antes, era apenas um prêmio movido a dinheiro, conseguiu descer alguns andares.
Enquanto isso, os norte-americanos se perguntam porque a cerimônia vem perdendo audiência.
Publicado em 25 de fevereiro de 2005 às 21:01 por Preto
-Cueca por cima da calça
-Matar formiga no grito
-Medir calçada com palito de fósforo
-bundograma
-Futebol na lama
-Chopp no Grill
-Pedágio
-“Bicho” escrito com batom na testa
-Coçar mão de veterano com a careca
-Cabelo cortado com aparelho de barbear
-Tênis seqüestrado
-Boné seqüestrado
-Aula-trote
-Escravos de Jó
-Caipirinha reciclada
-Andar em pé no coletivo sem poder se segurar
Publicado em 24 de fevereiro de 2005 às 16:26 por Preto
Subida
Estou longe do relógio mas sei que as horas passam como vísceras expostas. Em eterno fingir de vozes cálidas e distantes, enevoadas pelas noites perdidas dos seres. Ainda assim passam, fingindo-se suportáveis. Passam em vendavais de cóleras disfarçáveis. Passam tic-tac, tempo elástico que se encolhe na dor. Passam em demora, porque é de sua índole o arrastar dos répteis, o rebolado assassino das pítons. Passam em ironia, quando os músculos da face se contraem em sorriso profissional e oco. As horas estão inimigas, vingança de agressões idas e avinagradas. Passam em embarcações que sucumbem ao lastro, arrastadas aos esconderijos abissais de oceanos inomináveis, escuridão e claustro. E mesmo lá, no opaco do esquecimento, passam.
Descida
Minutos, segundos, milésimos preguiçosos se assanham em cicatriz, lacrando os segredos da carne, sulcos expostos retomam a pele em sina de cura. As horas caçam o conforto morno do cotidiano e logo desembestam feito naus de velas enfurnadas, espirrando o sal na face curtida de viagem. As horas ganham velocidade de precipício, jorram em queda livre, desenfreadas entre dia e noite, cabelo ganhando branco.
Publicado em 24 de fevereiro de 2005 às 16:24 por Preto
Itaquari, soou. O trem parou e o andar vacilante venceu os degraus e ganhou o chão com a força do reencontro. Afastou-se dos trilhos para lugar nenhum, anestesiado pelo impacto das mudanças, decifrando pedaços de passado em trecos simples: o velho sino, o lance irregular da escada, o cheiro de óleo, ferro e pedra. No mais, era um colorido impensável de anúncios, preferia o cinza da despedida, o céu negro ameaçando em estrondos.
Alcançou a estação entre sentimentos contraditórios, oscilando ao conferir o que o tempo preservara e destruíra. Fez os chinelos se arrastarem pelo chão de pedra colonial, praguejando contra o barulhento vaivém do trânsito. Mordia a própria gengiva, tinha consciência do tique e não se importava. Há muito abandonara as mentiras da juventude, alimentava-se agora da verdade. Mostrava-se nu, com todas as rugas. Viciara em consertar o passado, vinha regurgitando as mentiras idas e esperava, enfim, a luz do sol.
Caminhou dois quarteirões, virou à esquerda e uniu as mãos para enxergar a vitrine sem reflexo. Ainda era esbelta e mantinha o pescoço longo das aulas de dança. Comportava sulcos no rosto e a pele crescia em bolsas abaixo dos olhos e queixo; uma tentação. Existem mulheres de movimentos belos, que ignoram o calendário. Joana era assim.
Afastou-se da vitrine, um vento polar transcorreu-lhe a espinha e os passos indecisos transformaram-se em largos, velozes, o chinelo toc-toc ganhando metros. Alcançou o trem a tempo, danou-se vagão acima. Todo aquele papo sobre verdade? Em vão. Abriu a janela, fungou o nariz, fingiu gripe, inventou uma coceira nos olhos. Tentava pensar em futebol quando a composição entrou em movimento, os dedos nodulosos apertando ansiosamente o braço da poltrona.
Publicado em 15 de fevereiro de 2005 às 15:13 por Preto
A quebrada parece uma ladeira sem fim. Quando a estrada de terra ameaça uma curva para a esquerda, entre as casas apinhadas de tijolo bruto, explícito, aparece um degrau e, ao fundo, uma porta de madeira presa com corrente e cadeado. Ali mora um sujeito que sempre se equilibrou na gangorra da sobrevivência.
Durante uma época, pendeu para lá. Pudera, acordou e estavam, estatelados em frente ao barraco, dois cadáveres. De criança saltou pro crime, meteu-se a roubar toca-fita, abraçou o crack. Fez que fez. Parou na cadeia, claro. Apanhou, levou cana de adulto.
Aí endireitou. Virou escritor, cantou as experiências e largou a bandidagem. Agora trabalha para que essa transformação aconteça nos outros.
Mas quebrada é quebrada e treta antiga não tem data: termina em sangue. Um garoto lembrou-se de uma briga de infância. Resolveu cobrar a parada numa festa, de cara cheia, quase uma década depois. Dois tiros pipocaram. Mesmo baleado, escapuliu pelo mato. Agora é que são elas: ou mata o agressor, ou sai da quebrada, abandonando amigos e o barraco que conquistou na base do trabalho.
Às vezes a vida é nadar contra um tsunami.
Publicado em 12 de fevereiro de 2005 às 11:28 por Preto
Bati o olho na Folhapress e estava lá: Jimmy Smith morreu. O jazz ficou um acorde mais triste. Era paixão antiga, do tempo em que eu ainda era fanático por rock e estava com um amigo em um sebo de Curitiba, fuçando alguns discos. De repente ele tirou, lá do fundo da prateleira, um Jimmy Smith com uma capa bem brega, cheia de estrelas. Perguntou se eu conhecia, neguei, acrescentando: “Pela capa, não sei não”. Acabou levando.
Ouvimos alucinadamente, até gravei uma fita K7 (era assim, na época) que rodou muito. Virei fã, e nem gostava de jazz. Os anos se passaram com a cotidiana dificuldade em encontrar alguns títulos no Brasil.
Recentemente, consegui um disco de Jimmy Smith e voltei a escutá-lo. É perigoso, tem coisas que você ouve na adolescência e que se tornam decepcionantes depois. Mas não ocorreu com Smith.
Natural da Pensilvânia, teve berço no piano, mas se apaixonou pelo órgão Hammond. E com ele foi para o jazz, coisa rara na década de 50. Fez escola, porque trazia muito groove, misturando rythm & blues e até rock´n´roll. Tinha um fraseado incrível, prolongando algumas notas para ressaltar o timbre característico que tirava do instrumento. A sessão rítmica, com a mão esquerda, era incrivelmente sincopada, provocando um suingue diferente em um cenário de jazz que estava intelectualizado demais para temas dançantes. Ainda assim influenciou o pessoal do hard-bop.
Hoje vou chegar em casa e ligar novamente seu som sentimental, carregado de blue-notes e que andou escorregando no fim de carreira, gravando temas esquecíveis em performances desleixadas. Mas a essência de sua obra é empolgante, pega na veia.
Não estarei na QSL, mas proponho um brinde a Jimmy Smith. Em casa, farei o meu. Afinal, em tempos de canhestros comerciais, contundência e personalidade fazem falta.
Publicado em 10 de fevereiro de 2005 às 16:21 por Preto
O filme “Nem que a Vaca Tussa” é dessas animações que, se não ganham o Festival de Berlim, encaixam-se quando você procura um título apenas divertido.
Há uma cena em que um rebanho é roubado – o ladrão hipnotiza as vacas cantando yodel. A técnica consiste em um movimento da garganta capaz de passar rapidamente da voz normal para o falsete. (Reconheceu? Há quem chame de “canto tirolês”)
O resultado é peculiar – e muitas vezes bem humorado.
Praticado por montanheses da Áustria, Suíça e Alemanha, o yodel é aplicado principalmente à polca, o mesmo gênero que nos rendeu, no Brasil, o choro.
Como os irlandeses incutiram o banjo na música country norte-americana, o yodel também chegou à seara dos cowboys. Nos EUA, o mais conhecido talvez seja Jimmy Rodgers, que não exagerava muito no efeito. Mas existem outros: Delmore Brothers, David Cannon, Wanda Jackson...
No rock, foi aproveitado pelos Vogues em uma balada até conhecida – claro que não lembro o nome. Sem falar no Focus, que fez altos números de yodel em concertos ao vivo. O oitentista Oingo Boingo também costumava brincar com o recurso.
Mas o yodel mais famoso está no cinema, no grito do Tarzan. Desde criança tentei imitá-lo, mas fracassos constantes levaram a atritos com vizinhos e amigos.
Considerando o que já rolou na QSL – de marcha de Carnaval a hino em portunhol –, até que não seria estranho uma disputa de yodel por lá.
Publicado em 09 de fevereiro de 2005 às 16:28 por Preto
-Paraná não era estado, mas uma vila de Paranaguá onde as ruas eram calçadas com hexágonos.
-Sobrancelha era sombrancelha; iogurte, iorgute. E eu era fã do Mauro Celso, que cantava o mega-hit “Bilu-Tetéia”
-Sempre quis um Manual do Escoteiro Mirim, que vinha com uma bússola de pulso. Como não consegui, resolvi fazer o próprio, colando pedaços de jornais, trechos do Almanaque Capivarol ou simplesmente copiando verbetes da Barsa em letra de forma, para parecer impresso.
-Apaixonei-me por uma boneca Susi.
-O mundo iria acabar em 1983.
-O Skylab cairia em Londrina.
-Boitatá, saci, lobisomem e vampiros existiam. Rolândia tinha muito saci. União da Vitória tinha boitatá pra caramba. Lobisomens moravam em Cambará e os vampiros estavam em todos os lugares. Até hoje não me convenceram do contrário.
-Se você segurasse uma borboleta pelas asas, não podia passar a mão no olho, sob pena de ficar cego. Se você simulasse estrabismo e o galo cantasse, os olhos nunca mais voltavam ao normal. Deixar o chinelo com a sola para cima, então, era sinônimo de coisas medonhas.
-O homem tinha um grande desafio na vida: o serviço militar obrigatório. A mulher também: o parto. Ambos eram proporcionais. O exército era um sofrimento semelhante ao parto. Passei a elaborar os planos mais mirabolantes para burlar o alistamento.
Publicado em 08 de fevereiro de 2005 às 15:23 por Preto
Sempre achei difícil começar, sou melhor do meio para a frente. E com este blog não foi diferente.
Surgiram desafios – o Moraes que o diga – quando o velho fantasma da tecnologia botou a mão no meu ombro e disse:
-Eu de novo.
É isso. Para mim a tecnologia nunca foi algo racional, matemático, científico. Tem mandinga no meio.
Meu computador caseiro é pré-histórico, mas até funciona legal.
Já o do trabalho, mais avançado e arrogante... Não foi com a minha cara. Estampou-me logo um ERRO FATAL e, daí para a frente, vivemos uma série de injúrias, discórdias e difamações. A máquina sempre dá a palavra final, travando o Word no meio do fechamento.
Quando o Paulo Briguet disse que eu tinha um blog no tipos, o velho fantasma retornou, agora gargalhando. Por isso este post tem um quê de exorcismo.
Ganhar um blog é como escancarar uma gaveta cheia de rabiscos incertos, anotações de bar, bilhetes sem sentido, frases descartáveis, pseudo-poemas e crônicas esquecíveis. De repente, essa produção ganha um holofote diário e domina o palco, para constrangimento do autor. Espero que, no meio disso tudo, algo escape. E se salve.
Discussões serão bem vindas. Ofensas serão miraculosamente transformadas em adjetivos como “supimpa”, “garboso”, “pão” ou “genial”.
O nome é provisório e a configuração também.
Queria agradecer as boas vindas, tem gente que não vejo há muito tempo, gente para se enturmar e gente que me agüenta não é de hoje.
Sunga, só pago em espécie e no balcão. Karla, manda ver. Ester, o seu primeiro post ficou ótimo.
E chega de lero-lero, que agora vai.
Publicado em 04 de fevereiro de 2005 às 23:58 por Preto