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Aléssio soube da própria morte quando se deparou, em fila, com todos os erros que cometera. Assim, duma hora para outra, encontrou-os em ordem militar e cronológica. Estava lascado, sem dúvida. E por isso os deslizes, angústias, mágoas, dissabores, traições – um batalhão –, pareciam menos importantes, menos sofríveis, menos errados.
Olhou um ressentimentozinho mirrado, coitado, quiproquó de infância e que, pela idade, nem merecia estar na fila. Falou para São Pedro:
-Não dá para liberar esse aqui? Foi só uma briga por um soldadinho de plástico, eu nem tinha três anos...
-Não. Representa o egoísmo que você alimentou desde criança.
-Cara chátôu!, exclamou Aléssio.
Achava um absurdo empilharem todos aqueles sentimentos maltrapilhos só porque um homem estava morto.
Passou a vista pela fila. E encontrou-se às avessas, como um espelho capaz de mostrar apenas aspectos ruins. Em vida, eram verdadeiros monstros. Mas agora não importavam, os pecados de Aléssio pareciam ginasiais, com exceção de um ou outro mais reforçado.
Entre os marombados, estava a traição para cima de Alicinha. Foi logo na adolescência, Aléssio e Alicinha eram um casal quase perfeito. Freqüentavam barzinhos, lanchonetes, aquela coisa meio insossa... Numa dessas, Alicinha não foi. Aléssio deu de cara com Alzira, morena tinhosa. Rolaram. Uma vizinha contou a Alicinha. O resultado foi a mágoa consistente, acompanhada de ressentimento, ódio e desilusão.
Aléssio reclamou de novo:
-Pô, e você queria que eu ficasse com a sem-graça da Alicinha?
-Trocou uma relação sincera pelos desígnios da carne, setenciou São Pedro.
-Mas você é muito mala! Maala!
Seja como for, Aléssio reencontrou os próprios fantasmas e, com sinceridade, não se arrependeu de nenhum. Não tinha vontade de voltar atrás, não admitia consertos na própria vida.
-Errou sabendo dos erros, setenciou São Pedro, já disposto a despachar Aléssio lá para baixo.
-Peraí, se este é o juízo final, não falta colocar minhas virtudes na balança?
-Putzgrila, e eu sou o chátôu! Tu só quis saber de festar, beber, namorar. Acha mesmo que alguma virtude tua daria as caras por aqui?
-Ahã!, respondeu uma garotinha nariguda, feinha que só vendo, um pitoco.
-Quem é você?
-As virtudes do Aléssio.
Foi um fuzuê. Ninguém acreditava que um negocinho daqueles iria encarar uma fila de pecados capengas, mas numerosos. A garotinha abriu uma pasta, colocou óculos e começou a argumentar feito advogada.
Era fruto de míseras virtudes escondidas entre a montanha de asneiras cometidas – e assumidas orgulhosamente – por Aléssio. Do chifre em Alicinha, por exemplo, salvou a honestidade de admitir o fraco pela carne ao invés de louvar um romance etéreo. Da briga pelo soldadinho de plástico, ressaltou a perseverança diante das dificuldades.
Composta destes cacos, a garotinha era uma fera. Foi nocauteando a fila de pecados, um a um. Encerrou a batalha maltrapilha, olho roxo, dentes faltando... Mas ganhou.
São Pedro abriu o portão boquiaberto, e Aléssio entrou no céu com ar de desdém. O santo reviu as contas, ponderou prós e contras, consultou as leis divinas... não tinha jeito. Em todos esses milênios, nunca presenciou uma vitória tão apertada.
Quando a Antarctica comprou a cervejaria de Ponta Grossa, manteve uma produção limitada, visando principalmente a exportação, da cerveja Original. Na época, diziam, era preciso uma decantação demorada para chegar ao resultado.
Na cidade (Ponta Grossa), era raro encontrar um bar que vendia Original. Achamos um, consegui tomar duas ou três garrafas da Original original, saborosíssima. Cerveja de verdade. Num tempo em que eu idolatrava cerveja.
(O rótulo vinha rasgado para que as outras mesas não percebessem. A Original era algo sagrada)
Mas as coisas mudaram. As cervejas foram se fundindo, a qualidade caiu assustadoramente, foram incluídos os tais cereais não-malteados, a química aumentou e a cerveja brasileira foi pros quiabos. Literalmente, o sabor evaporou com a qualidade.
Ao mesmo tempo, o mercado de vinhos cresceu. As uvas nacionais renderam algumas safras boas – dizem que a de 2005 será fenomenal por causa da seca.
Sem contar a entrada de vinhos argentinos e chilenos, de qualidade, no mercado a preço acessível. Tomar vinho não é mais luxo, o hábito está se popularizando e este descendente de italianos com portugueses e índios não ficou de fora.
Gosto de vinho, é a minha bebida principal, hoje. Mas não esperem o ar blasé, nem termos em francês. Entendo alguma coisa, pouco, não tenho condições – nem paciência – para posar de conhecedor. Na verdade, não gosto daquele papo emplumado, que cada vez mais pertence ao passado, quando o vinho ainda trazia uma conotação elitista.
A cerveja rodou porque piorou muito, a ponto de ofender o consumidor. Claro, não a abandonei. Ainda tomo umas ou outras e gosto de marcas específicas. Tem dia que só se quer tomar cerveja. Mas já não é aquela paixão, os dias seguintes estão cada vez piores.
Já o vinho tem reservado surpresas. Além da variação minuciosa de sabor, a qualidade evita ressacas, o ritmo da ingestão é mais lento. O prazer é diferente, está no gosto, não na quantidade. Sou daqueles que têm dificuldade em tomar cerveja sozinho. Com o vinho, isso não ocorre.
Para chegar até aí, foram algumas fases.
1) Adolescente: comprávamos aqueles garrafões de vinho adocicado para beber na zona rural ou em praças. A quantidade era o mais importante. E também era importante ser açucarado. Vinho bom era vinho doce.
2) Faculdade: mudou alguma coisa. Vieram as formaturas, o consumo do Liebfraumilch da garrafa azul aumentou assustadoramente. Vez ou outra ainda rolava um Sangue de Boi ou Campo Largo. Mas o Liebfraumilch era a glória. Achávamos excelente.
3) Adulto: começaram a aparecer mais importados. Nesta fase, o Concha y Toro, Casal Garcia, Valpolicela Bolla e Santa Helena eram os tops. Para nós, claro.
4) Hoje (véio): tem nacionais bacanas, mas os importados ainda são o xodó. Quase não bebo italianos e franceses. Os alemães desapareceram. Em compensação, tem os uruguaios, chilenos, argentinos, portugueses, espanhóis, sul-africanos, australianos e norte-americanos, alguns a preço acessível (R$ 25 para baixo). O Brasil vem melhorando bem. A safra 2005 promete baratear o produto e, ao mesmo tempo, trazer maior qualidade. Ôbas.
Olhou atirando facas, a raiva emergindo das vísceras, o pulso acelerando em pensamentos mortais. Olhou durante uma vida, irradiando da alma, estatelando aquele caleidoscópio azul, já desfocado, porque não interessava mais o que olhava, mas o que sentia, a adrenalina liderando reações químicas que ardiam o estômago, arrepiavam os pêlos e contraíam os dedos feito um estrangulamento. Isso, estrangulamento. Logo os fluxos foram controlados porque o ódio subia ao cérebro, tornando-se racional e provocando ímpetos assassinos, também acalmados porque a vingança viria a cavalo e grande feito um mamute. Engoliu seco, respirou fundo, subiu no salto, empinou os peitos. Os músculos formaram no rosto de Beatriz um sorriso grande e convidativo e foi assim que ela cruzou com o ex, flagrado no shopping de mãos dadas à nova namorada.
Top 15 de Desenhos (até década de 80)
-Pantera Cor-de-Rosa
-Flintstones (1a fase)
-Pernalonga
-Ligeirinho
-Papaléguas
-Don Pixote
-Pepe Legal – especialmente El Cabóng
-Manda Chuva
-Olho Vivo e Faro Fino
-Tom e Jerry
-Zé Buscapé
-Speed Racer
-Scooby Doo
-Hong Kong Fu
-Johnny Quest
Top 15 dos piores desenhos (até década de 80)
-Jambo e Ruivão
-He-Man
-She-Ra
-Riquinho
-Batfino e Karatê
-Os Mussarelas
-Hulk, Homem de Ferro, Thor, Namor dos primórdios (desenhos quase sem movimento)
-Bozo e Menino Juca
-Homem Pássaro
-Os Brasinhas do Espaço
-Coelho Ricochete
-Quáckula
-Gasparzinho
-Gato Félix
-Mightor
A madeira é removida, revelando embaixo uma aranha de botar medo. É grande, patas perfiladas, dorso marrom com um desenho em laranja. Está sobre um casulo de teia, e dali não arreda. Protege seus futuros filhotes com o que lhe resta, a vida.
Fosse em outro lugar, tudo bem. Mas não há como deixar que uma aranha deste naipe se reproduza às dezenas ao lado da casa. À aproximação da enxada, levanta as duas patas dianteiras. Ganha volume, arma o bote. Dali não sai.
Mantém as dianteiras apontadas para o céu. Lembra o soldado que cai sobre uma mina que não explode – não existe possibilidade de sair, e ficar significa morte.
Aguarda, com as dianteiras em clamor.
O destino não tarda. A enxada vem feroz, jogando a aranha já ferida à terra. As dianteiras encolhem-se em agonia, o mosaico alaranjado é contorcido, uma das patas ainda esboça movimento. O segundo golpe é definitivo. Massacrada, assume posição de aranha morta. Não chegou a ver a enxada esfarelando o casulo.
No meio dos entulhos surge outra, colorida, um pouco menor, mas ainda assim grande. É ágil, a fujona. Não tinha por quem oferecer a própria vida.
Conheço e colaboro com a Universidade FM de Londrina desde o seu surgimento, lá no início dos anos 90.
Acompanhei o trabalho de vários diretores, e reconheço a importância de cada um para que a emissora trilhasse o caminho de uma rádio educativa pública universitária.
Também acompanhei o trabalho de Janete el Haouli, a sua preocupação obsessiva com a qualidade, sua convicção no jornalismo responsável e independente, sua interpretação da rádio como um órgão de importância social, um órgão transformador, com objetivo de oferecer elementos para a melhoria de vida da comunidade em geral.
São frases que podem soar utópicas, mas que nortearam os rumos da rádio enquanto Janete esteve à frente da emissora.
A demissão de Janete el Haouli, ontem, entristeceu-me. Acho sinceramente que esta demissão atrapalha o desenvolvimento da Universidade FM como rádio educativa pública universitária.
Entre erros e acertos, Janete empreendeu uma rádio plural, atendendo a necessidades diversas, dando voz a todas as vertentes musicais, desenvolvendo programas diversificados com apoio de pesquisadores e colecionadores da comunidade londrinense.
Desenvolveu programas ecológicos, comunitários, entrevistas, debates, informações. Agregou cronistas, escritores, jornalistas, dramaturgos, mobilizou uma colaboração variada.
Uma postura guerrilheira, já que a estrutura da rádio é pequena – não para menos, a Universidade FM contou com o auxílio fundamental da Camtar – Comunidade de Amigos, Trabalhadores e Apoiadores da Rádio Universidade FM.
Espero, sinceramente, que a emissora não perca este legado.
-O mar, de noite, invade a barraca em ondas ameaçadoras.
-O vinho que não abre, o casal que espera, o garçom que se frustra.
-Bicicleta empinada, a roda voando, o tombo.
-Discurso etílico que não fiz (ou fiz?) no coreto.
-Correia que escapou da guitarra, em Marília.
-Pinga com mel, bom para gripe, também em Marília.
-Ônibus dirigido por Keith Richards, em Ilha Comprida, rumo ao sambaqui perdido.
-Guia que chora, indignado com o que fizeram de seu povo.
-Silêncio do elevador de serviço no cemitério vertical de Santos.
-Folhas rabiscando faces, mãos e pescoços na colheita de milho.
-Crianças que se alimentavam de bicho da seda, em Rolândia.
-Catedral construída sobre ruínas de uma civilização dizimada.
-Deserto – horizonte em todas as direções.
-Rio de piranhas, morno e pacífico.
-Bar surreal, palavras fora de rotação.
-Serenatas em Ponta Grossa, uma fuga fantástica pela janela.
-SOS Marcelo Rocha, salvamento e resgate de bêbados renitentes.
-OVNIs, trânsito de trator, vodka barata, eclipses no Morrinho.
-Cadeira que virou lenha no Araucana.
-Todas as vezes em que pilotei uma moto.
-Viagem sem teto nem cama – se fosse hoje, minhas costas dariam trabalho.
A história da música é engraçada. Até quase início do século 17, a música erudita era principalmente cantada, com destaque para a música sacra e o madrigal, ou seja, canto sem acompanhamento de instrumento. Canto em várias vozes, porque não se admitia – com exceção de canções populares profanas – o canto individual.
No Renascimento, os gregos foram retomados. Mas não existem registros fiéis de como era a música grega. Chegou-se à conclusão de que a palavra se unia ao canto para expressar sentimentos no teatro. Mas se o canto era exclusivamente coral, como interpretar cada personagem?
Foi um italiano, Orazio Vecchi (1550-1605), que botou tudo abaixo. Ele montou uma peça, “Anfiparnasso”, em que os personagens faziam os gestos, mas as vozes vinham de coros ao fundo. Especula-se que o resultado foi incrivelmente cômico.
Ainda se discute se Orazio Vecchi tinha consciência do vexame, ou seja, foi explicitamente irônico ou apenas tentou uma forma que se acreditava ser a grega. De qualquer modo, o avanço musical com o fracasso foi gigantesco.
(Enfim, graças a Orazio Vecchi podemos soltar a voz no banheiro sossegadamente. A QSL, porém, ainda mantém o canto coral, principalmente nos hinos)
Três anos depois, em 1597, surgiam as primeiras óperas florentinas. E a humanidade passou a vibrar em números solos, individualmente. Parece bobagem, mas foi uma verdadeira revolução. Com a voz solo, os instrumentos foram multiplicados e aperfeiçoados, abrindo caminho para as formações orquestrais e as posteriores sinfonias.
A fonte é a imperdível História da Música (ou Pequena História da Música, depende da edição), de Otto Maria Carpeaux, livro para ser decorado.
Domingo às 6h30 da manhã é curioso. As ruas estão cheias de garrafas quebradas, copos de plástico abandonados, bitucas.
Saí para pedalar, o sol hesitando no horizonte, perdido nas nuvens. Ao invés do Limoeiro, Karlinha, desta vez me mandei para o Espírito Santo (o patrimônio, claro).
Alguns carros ainda titubeavam, zonzos, na rua.
Um casal brigava no meio de uma rua transversal. Ele gritava: “Por favor!”. Ela: “Pááára!”, e se jogava no chão. Briga daquelas etílicas, sem fim. Vai ver, nem lembravam o motivo.
Mais para frente, um casal voltava de uma boate tomando cerveja.
Quantas vezes não repeti a cena! Agora, do outro lado, parece bizarro. Lembro do sono sem fim, dos domingos perdidos... Da ressaca às sete da noite. Domingo às 6h30 da manhã era um espelho invertido.
Uma rapaziada estava deitada à beira do meio-fio.
6h30 da manhã, e a noite ainda não terminara.
Quanto mais distante do centro urbano, melhor. O asfalto silencioso é a recompensa. O combustível é você mesmo.
De bicicleta vemos coisas que não vemos de carro. Muitas. Coruja, anu, quero-quero, tziu... Pena que não conheço muitos pássaros, senão dava para engordar a lista.
Entro em uma estrada vicinal. Asfalto, ainda, só que menos movimentado. O Chevete 75 passa devagar, desvia com folga e ainda manda um cumprimento bem-humorado.
O asfalto vira terra. Passa uma granja, música caipira alta. Rádio. Cheiro de pão. Um rapaz conserta a moto. Soja. Mato. Rio. Dor no joelho. Meia-volta.
Percorrer um roteiro pela primeira vez é legal porque você não sabe até onde pode ir, qual a distância que o corpo vai agüentar, qual a paisagem que virá.
Bicicleta. Na descida somos ágeis e impetuosos. Na subida, lentos e frágeis.
Subida é um problema danado. Principalmente se tem bicho morto e o vento está a favor (do morto). Mas o pior é quando aparecem cachorros. Daqueles que latem para roda. Subida com cachorro é visão do inferno, Briguet!
Voltando ao asfalto, no horizonte... um sujeito passeia com dois bezerros na coleira?
Mais perto eu reconheci, tarde demais para retornar. Eram dois rotweillers. É matemático, se ambos correm, o rapaz não segura.
Sorte os rotweillers não latirem para roda.
Já na cidade, o trânsito fica uma merda. Mesmo no domingo de manhã.
Carros caros ignoram limite de velocidade e seta.
De playboys a empresários, o carro é o grande sonho de distinção. É o que torna o proprietário diferente da turba em carros populares, a pé ou bicicleta. É como se o carro caro livrasse o dono da mortalidade, erguendo-o ao Olimpo dos seres fantásticos, um deus que domina o bolso e a tecnologia. E deuses fazem as próprias leis.
– Meu carro corre, tá vendo? Sou mais importante que você, zé-mané-de-bicicleta.
Foi o que a BMW disse numa fechada que me jogou ao meio-fio.
Não caí de birra. Nada estragaria um passeio desses.
Fiquei pensando em um curso de “Iniciação à vida civilizada – respeito mútuo – pré-primário 1”, freqüentado por centenas de BMWs.
E ministrado por um Chevete 75.
Ó, daqui, seguindo pelo Rio Mutaí, vai até as barrancas do Pau Seco. Depois, lá da estrada da Ema, corta reto até o terreirão de café dos Mendonça. Tudo no machado, até hoje tenho dor nas juntas dos dedos. E depois para destocar? Vixe, parecia que o mundo ia acabar em trabalho. Só parava para comer, farofa com leite. Dormir era pouco, que muito havia para fazer. Não dava nem tempo de untar o facão. O que eu perdi de lima aí nesta terra... é, lima para afiar enxada. A gente improvisava o cabo usando espiga de milho.
Lá pra baixo, no Arroio da Saudade, ô nome danado, morava o Tião do Cavaco. Tião bebia muito, e tocava o cavaco raspando a garrafa de cerveja. Parecia o diabo, vixe. Isso eu vi. Morreu na pinga.
Ah, moço, o café deu dinheiro e desgosto. Deu dinheiro, o desgosto veio por minha conta. Na mata? Imbaúba, peroba, cerejeira, pau d´arco, canela... muita lenha. Depois do desmate, o café levou anos para florar. Quando florou, emburrei de rico.
Do dinheiro sobrou nada não. Moleque-moço, talhado na lida, sabe como é. Vê dinheiro e só pensa em zona. “No ano que vem tá fácil, já tá tudo plantado mesmo”, pensava. “Tô com a vida ganha”.
Mas, o moço sabe... Homem atrás de rabo de saia termina em valentia. Foi com um mateiro lá do Rio Abaixo, que se engraçou com uma morena minha. Ela me pertencia por dívida de favor, e daí que o caipora não pode sair por aí bulindo com o que é dos outros, sô!
A dividida foi no facão, mesmo, na curva da Capela. Eu perdi esse dedo aqui, ó, e um pedaço da orelha. Nem fui ver o doutor, mandei matar um boi e dei churrasco para todo mundo. Enquanto isso, lá em Rio Abaixo, o mateiro ganhava era terra por cima.
Assombração aqui é mato, sô. Só o mãozão vi três vez. Danado do saci enroscou a crina da mula, tive que cortar no pêlo. Boitatá é lá pras bandas do Mutaí, mas o que surge aqui é bruxaria de tudo que é lado.
Oi que eu voltava de madrugada da pescaria pelo Arroio da Saudade. Aí eu olhei assim e não era mais o Arroio não. Era desconhecido. Não tinha uma árvore que eu lembrasse. Jesus-Maria-José! Aí eu ouvi um blém-bém... Quanto mais eu chegava perto do som, mais ele se distanciava. Viemos assim, gato e rato. Blém-blém. Quando olhei, tava no terreirão. Tenho comigo até hoje que quem me salvou foi o Tião do Cavaco, ah foi. Tocou para eu não me perder pras bandas do tinhoso, ah, isso foi.
Hein? O café caiu mode que o preço não compensava. Mudei a lavoura, plantei milho e trigo, até que o soja chegou. Mas é difícil, né moço, pra hoje tudo é máquina. A roça é de quem tem máquina. Quem não tem, empresta pagando. Aí sobra pouco.
Mode que o jeito, agora, é plantar de tudo um pouco. Já medi a terra pra colocar é limão. Limão com soja. Mas o limão ainda vai demorar pra dar, porque tem que cortar a primeira florada. Aí ele dá fora de época e o preço melhora. Lá no alto, longe da mina porque chupa água, plantei eucalipto, conselho do técnico. Dizem que é a tal poupança verde. Lá pra frente eu vendo e ganho algum, se deus quiser.
O moço já vai? Peraí que eu vou buscar um pouco de laranja lima, tão boa que nem bagaço tem. Tá com pressa ou dá tempo de pegar Açaí pra fazer suco? Tó, leva abóbora pra fazer doce, mandioca, manga e abacate pra por na salada. Num ganho dinheiro, moço, mas comida aqui também não falta não. Vivo da terra e com ela vou abraçado, se deus quiser.
Gosto de ópera, acho o canto lírico interessante e algumas árias são realmente extraordinÁRIAS (hã, hã, entendeu Briguet?)
Mas tem montagem que complica o espetáculo.
Por exemplo, em uma montagem de Aída, na década de 80, do Alla Scala de Milão, o Pavarotti aparece como Radamés, um guerreiro impetuoso que se divide entre dois amores e dois reinos.
O duro é o Pavarotti convencer como guerreiro impetuoso.
Nesta mesma montagem, os etíopes são... Cantores pintados desleixadamente de negros. O rei da Etiópia tem uma baita cara italiana, com barba e tudo. Pintado de preto. Aída também é super-européia. Pintada de preto.
Os egípcios, em compensação, permaneciam pálidos, gélidos, brancos, níveos...
Sei que a representação na ópera é um tanto teatralizada, sugerida, sem a preocupação de convencer.
Mas não adianta caprichar em cenários suntuosos e expor os cantores a situações cômicas.
Aí fica difícil embarcar na trama. E Verdi, com toda a sua carga dramática (Radamés e Aída são enterrados vivos), é quem paga o pato.
Eu não sabia, mas os homens que envelhecem tornam-se amantes de ferramentas. Sim, aconteceu comigo. Envelheci duma hora para outra, quando vi uma foto minha e achei que era meu pai.
Uma vez velhos, desandamos a consertar as coisas, desentortar o que estava torto, aparafusar o que estava solto, colar o que quebrou. Como se consertássemos a própria vida, remendando uma mancada ali, apertando um fora aqui, desentupindo uma magoa acolá.
Para tudo isso é preciso estar equipado. Jogos de chaves de fenda de todos os tipos, alicates para todas ocasiões, martelos para todos os pregos, canivetes com funções infinitas, uma grande caixa de ferramentas com fitas isolantes, durepoxis, tachas, pregos, pincéis, espátulas, limas, formões.
Um conserto ponta-firme começa na sala, vai para a cozinha, para o banheiro, entra pelos quartos e vai ganhando a alma, tirando o pó, colocando sentimentos no lugar, arquivando os sofrimentos idos e mandando o ressentimento pelo ralo.
Não se reforma nada acumulando peças quebradas, portanto vale soldar aquela birra antiga àquele sapo engolido a fórceps e mandá-los pela descarga. Garibados, estaremos prontos para ganhar tempo. Com exceção de um ajuste ou outro, às vezes um defeitozinho de fabricação, a idade nos melhora.
Ah, que na intimidade da brincadeira tocou o peito de Betinha. Nem foi por querer, daí a tranqüilidade na consciência. Mas que ficou esquisito, ficou. Disfarçaram bem, os dois, sem cruzar olhares. Daí veio uma desculpa mútua, coisa assim, e cada um foi para sua casa. Diferentes, ao bem dizer.
Dado chegou entre pensamentos, pendia hora para uma vergonha inexplicável, hora para um prazer oculto, que surgia no estômago e se deslocava ao sul, preenchendo cavidades e provocando constrangimento para quem ainda vivia de short para lá e para cá.
Betinha. Amiga e mais nada, de subir em árvore e outras molecagens, já havia uns dois anos. Brigavam muito, Dado a considerava uma chata, implicante, cheia de artimanhas e segredos cabíveis às mulheres. Eram tempos de atritos, as graças permaneciam incompatíveis e a convivência era mais de rivalidade que atração.
Danado de toque. Veio para enevoar o que estava claro, acendendo lareiras ocultas. De repente o mundo perdeu o eixo. Dado mergulhou em pesquisas sensuais e, tateando, encontrou atalhos, picadas, avenidas, viadutos, caminhos diversos que se encontraram na mesma explosão.
Betinha agora era distância, desconhecido, precipício. Um muro se ergueu para evitar contatos danosos, a conversa perdeu o prumo. Nada de companheirismo, nada de subir em árvores, nada de brigas. Betinha virou estranha, ameaçadora. Ganhou tratamento formal, que se esgarçou em lacônicos cumprimentos, perdendo-se enfim na segurança do rompimento. Nem oi, nem tchau.
Só se reencontraram anos depois, míopes de racionalidade.