Ah, que na intimidade da brincadeira tocou o peito de Betinha. Nem foi por querer, daí a tranqüilidade na consciência. Mas que ficou esquisito, ficou. Disfarçaram bem, os dois, sem cruzar olhares. Daí veio uma desculpa mútua, coisa assim, e cada um foi para sua casa. Diferentes, ao bem dizer.
Dado chegou entre pensamentos, pendia hora para uma vergonha inexplicável, hora para um prazer oculto, que surgia no estômago e se deslocava ao sul, preenchendo cavidades e provocando constrangimento para quem ainda vivia de short para lá e para cá.
Betinha. Amiga e mais nada, de subir em árvore e outras molecagens, já havia uns dois anos. Brigavam muito, Dado a considerava uma chata, implicante, cheia de artimanhas e segredos cabíveis às mulheres. Eram tempos de atritos, as graças permaneciam incompatíveis e a convivência era mais de rivalidade que atração.
Danado de toque. Veio para enevoar o que estava claro, acendendo lareiras ocultas. De repente o mundo perdeu o eixo. Dado mergulhou em pesquisas sensuais e, tateando, encontrou atalhos, picadas, avenidas, viadutos, caminhos diversos que se encontraram na mesma explosão.
Betinha agora era distância, desconhecido, precipício. Um muro se ergueu para evitar contatos danosos, a conversa perdeu o prumo. Nada de companheirismo, nada de subir em árvores, nada de brigas. Betinha virou estranha, ameaçadora. Ganhou tratamento formal, que se esgarçou em lacônicos cumprimentos, perdendo-se enfim na segurança do rompimento. Nem oi, nem tchau.
Só se reencontraram anos depois, míopes de racionalidade.
Publicado em 07 de março de 2005 às 18:18 por preto