Noites de Vigília

Ferramentas




Eu não sabia, mas os homens que envelhecem tornam-se amantes de ferramentas. Sim, aconteceu comigo. Envelheci duma hora para outra, quando vi uma foto minha e achei que era meu pai.

Uma vez velhos, desandamos a consertar as coisas, desentortar o que estava torto, aparafusar o que estava solto, colar o que quebrou. Como se consertássemos a própria vida, remendando uma mancada ali, apertando um fora aqui, desentupindo uma magoa acolá.

Para tudo isso é preciso estar equipado. Jogos de chaves de fenda de todos os tipos, alicates para todas ocasiões, martelos para todos os pregos, canivetes com funções infinitas, uma grande caixa de ferramentas com fitas isolantes, durepoxis, tachas, pregos, pincéis, espátulas, limas, formões.

Um conserto ponta-firme começa na sala, vai para a cozinha, para o banheiro, entra pelos quartos e vai ganhando a alma, tirando o pó, colocando sentimentos no lugar, arquivando os sofrimentos idos e mandando o ressentimento pelo ralo.

Não se reforma nada acumulando peças quebradas, portanto vale soldar aquela birra antiga àquele sapo engolido a fórceps e mandá-los pela descarga. Garibados, estaremos prontos para ganhar tempo. Com exceção de um ajuste ou outro, às vezes um defeitozinho de fabricação, a idade nos melhora.

Publicado em 09 de março de 2005 às 22:38 por preto

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