Ó, daqui, seguindo pelo Rio Mutaí, vai até as barrancas do Pau Seco. Depois, lá da estrada da Ema, corta reto até o terreirão de café dos Mendonça. Tudo no machado, até hoje tenho dor nas juntas dos dedos. E depois para destocar? Vixe, parecia que o mundo ia acabar em trabalho. Só parava para comer, farofa com leite. Dormir era pouco, que muito havia para fazer. Não dava nem tempo de untar o facão. O que eu perdi de lima aí nesta terra... é, lima para afiar enxada. A gente improvisava o cabo usando espiga de milho.
Lá pra baixo, no Arroio da Saudade, ô nome danado, morava o Tião do Cavaco. Tião bebia muito, e tocava o cavaco raspando a garrafa de cerveja. Parecia o diabo, vixe. Isso eu vi. Morreu na pinga.
Ah, moço, o café deu dinheiro e desgosto. Deu dinheiro, o desgosto veio por minha conta. Na mata? Imbaúba, peroba, cerejeira, pau d´arco, canela... muita lenha. Depois do desmate, o café levou anos para florar. Quando florou, emburrei de rico.
Do dinheiro sobrou nada não. Moleque-moço, talhado na lida, sabe como é. Vê dinheiro e só pensa em zona. “No ano que vem tá fácil, já tá tudo plantado mesmo”, pensava. “Tô com a vida ganha”.
Mas, o moço sabe... Homem atrás de rabo de saia termina em valentia. Foi com um mateiro lá do Rio Abaixo, que se engraçou com uma morena minha. Ela me pertencia por dívida de favor, e daí que o caipora não pode sair por aí bulindo com o que é dos outros, sô!
A dividida foi no facão, mesmo, na curva da Capela. Eu perdi esse dedo aqui, ó, e um pedaço da orelha. Nem fui ver o doutor, mandei matar um boi e dei churrasco para todo mundo. Enquanto isso, lá em Rio Abaixo, o mateiro ganhava era terra por cima.
Assombração aqui é mato, sô. Só o mãozão vi três vez. Danado do saci enroscou a crina da mula, tive que cortar no pêlo. Boitatá é lá pras bandas do Mutaí, mas o que surge aqui é bruxaria de tudo que é lado.
Oi que eu voltava de madrugada da pescaria pelo Arroio da Saudade. Aí eu olhei assim e não era mais o Arroio não. Era desconhecido. Não tinha uma árvore que eu lembrasse. Jesus-Maria-José! Aí eu ouvi um blém-bém... Quanto mais eu chegava perto do som, mais ele se distanciava. Viemos assim, gato e rato. Blém-blém. Quando olhei, tava no terreirão. Tenho comigo até hoje que quem me salvou foi o Tião do Cavaco, ah foi. Tocou para eu não me perder pras bandas do tinhoso, ah, isso foi.
Hein? O café caiu mode que o preço não compensava. Mudei a lavoura, plantei milho e trigo, até que o soja chegou. Mas é difícil, né moço, pra hoje tudo é máquina. A roça é de quem tem máquina. Quem não tem, empresta pagando. Aí sobra pouco.
Mode que o jeito, agora, é plantar de tudo um pouco. Já medi a terra pra colocar é limão. Limão com soja. Mas o limão ainda vai demorar pra dar, porque tem que cortar a primeira florada. Aí ele dá fora de época e o preço melhora. Lá no alto, longe da mina porque chupa água, plantei eucalipto, conselho do técnico. Dizem que é a tal poupança verde. Lá pra frente eu vendo e ganho algum, se deus quiser.
O moço já vai? Peraí que eu vou buscar um pouco de laranja lima, tão boa que nem bagaço tem. Tá com pressa ou dá tempo de pegar Açaí pra fazer suco? Tó, leva abóbora pra fazer doce, mandioca, manga e abacate pra por na salada. Num ganho dinheiro, moço, mas comida aqui também não falta não. Vivo da terra e com ela vou abraçado, se deus quiser.
Publicado em 13 de março de 2005 às 01:25 por preto