Noites de Vigília

Pedalando

Domingo às 6h30 da manhã é curioso. As ruas estão cheias de garrafas quebradas, copos de plástico abandonados, bitucas.

Saí para pedalar, o sol hesitando no horizonte, perdido nas nuvens. Ao invés do Limoeiro, Karlinha, desta vez me mandei para o Espírito Santo (o patrimônio, claro).

Alguns carros ainda titubeavam, zonzos, na rua.

Um casal brigava no meio de uma rua transversal. Ele gritava: “Por favor!”. Ela: “Pááára!”, e se jogava no chão. Briga daquelas etílicas, sem fim. Vai ver, nem lembravam o motivo.

Mais para frente, um casal voltava de uma boate tomando cerveja.

Quantas vezes não repeti a cena! Agora, do outro lado, parece bizarro. Lembro do sono sem fim, dos domingos perdidos... Da ressaca às sete da noite. Domingo às 6h30 da manhã era um espelho invertido.

Uma rapaziada estava deitada à beira do meio-fio.

6h30 da manhã, e a noite ainda não terminara.

Quanto mais distante do centro urbano, melhor. O asfalto silencioso é a recompensa. O combustível é você mesmo.

De bicicleta vemos coisas que não vemos de carro. Muitas. Coruja, anu, quero-quero, tziu... Pena que não conheço muitos pássaros, senão dava para engordar a lista.

Entro em uma estrada vicinal. Asfalto, ainda, só que menos movimentado. O Chevete 75 passa devagar, desvia com folga e ainda manda um cumprimento bem-humorado.

O asfalto vira terra. Passa uma granja, música caipira alta. Rádio. Cheiro de pão. Um rapaz conserta a moto. Soja. Mato. Rio. Dor no joelho. Meia-volta.

Percorrer um roteiro pela primeira vez é legal porque você não sabe até onde pode ir, qual a distância que o corpo vai agüentar, qual a paisagem que virá.

Bicicleta. Na descida somos ágeis e impetuosos. Na subida, lentos e frágeis.

Subida é um problema danado. Principalmente se tem bicho morto e o vento está a favor (do morto). Mas o pior é quando aparecem cachorros. Daqueles que latem para roda. Subida com cachorro é visão do inferno, Briguet!

Voltando ao asfalto, no horizonte... um sujeito passeia com dois bezerros na coleira?

Mais perto eu reconheci, tarde demais para retornar. Eram dois rotweillers. É matemático, se ambos correm, o rapaz não segura.

Sorte os rotweillers não latirem para roda.

Já na cidade, o trânsito fica uma merda. Mesmo no domingo de manhã.

Carros caros ignoram limite de velocidade e seta.

De playboys a empresários, o carro é o grande sonho de distinção. É o que torna o proprietário diferente da turba em carros populares, a pé ou bicicleta. É como se o carro caro livrasse o dono da mortalidade, erguendo-o ao Olimpo dos seres fantásticos, um deus que domina o bolso e a tecnologia. E deuses fazem as próprias leis.

– Meu carro corre, tá vendo? Sou mais importante que você, zé-mané-de-bicicleta.

Foi o que a BMW disse numa fechada que me jogou ao meio-fio.

Não caí de birra. Nada estragaria um passeio desses.

Fiquei pensando em um curso de “Iniciação à vida civilizada – respeito mútuo – pré-primário 1”, freqüentado por centenas de BMWs.

E ministrado por um Chevete 75.

Publicado em 15 de março de 2005 às 11:52 por preto

Comentários

    • Olá Preto, adorei este post e “os cachorros que latem para as rodas” (hehe). Uma ótima idéia para um domingo de manhã. Beijão, Gisele.
    • por Gisele Mendonça
    • 16.Mar.2005 às 19:58 - Permalink - Reportar
    Gisele Mendonça
    • Oi Gisele, bom que vc gostou. Ainda estamos nos devendo uma cervejinha do Madalena, lembra? Pra botar a conversa em dia. Beijão.
    • por preto
    • 16.Mar.2005 às 23:05 - Permalink - Reportar
    preto
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