A história da música é engraçada. Até quase início do século 17, a música erudita era principalmente cantada, com destaque para a música sacra e o madrigal, ou seja, canto sem acompanhamento de instrumento. Canto em várias vozes, porque não se admitia – com exceção de canções populares profanas – o canto individual.
No Renascimento, os gregos foram retomados. Mas não existem registros fiéis de como era a música grega. Chegou-se à conclusão de que a palavra se unia ao canto para expressar sentimentos no teatro. Mas se o canto era exclusivamente coral, como interpretar cada personagem?
Foi um italiano, Orazio Vecchi (1550-1605), que botou tudo abaixo. Ele montou uma peça, “Anfiparnasso”, em que os personagens faziam os gestos, mas as vozes vinham de coros ao fundo. Especula-se que o resultado foi incrivelmente cômico.
Ainda se discute se Orazio Vecchi tinha consciência do vexame, ou seja, foi explicitamente irônico ou apenas tentou uma forma que se acreditava ser a grega. De qualquer modo, o avanço musical com o fracasso foi gigantesco.
(Enfim, graças a Orazio Vecchi podemos soltar a voz no banheiro sossegadamente. A QSL, porém, ainda mantém o canto coral, principalmente nos hinos)
Três anos depois, em 1597, surgiam as primeiras óperas florentinas. E a humanidade passou a vibrar em números solos, individualmente. Parece bobagem, mas foi uma verdadeira revolução. Com a voz solo, os instrumentos foram multiplicados e aperfeiçoados, abrindo caminho para as formações orquestrais e as posteriores sinfonias.
A fonte é a imperdível História da Música (ou Pequena História da Música, depende da edição), de Otto Maria Carpeaux, livro para ser decorado.
Publicado em 16 de março de 2005 às 23:02 por preto