A madeira é removida, revelando embaixo uma aranha de botar medo. É grande, patas perfiladas, dorso marrom com um desenho em laranja. Está sobre um casulo de teia, e dali não arreda. Protege seus futuros filhotes com o que lhe resta, a vida.
Fosse em outro lugar, tudo bem. Mas não há como deixar que uma aranha deste naipe se reproduza às dezenas ao lado da casa. À aproximação da enxada, levanta as duas patas dianteiras. Ganha volume, arma o bote. Dali não sai.
Mantém as dianteiras apontadas para o céu. Lembra o soldado que cai sobre uma mina que não explode – não existe possibilidade de sair, e ficar significa morte.
Aguarda, com as dianteiras em clamor.
O destino não tarda. A enxada vem feroz, jogando a aranha já ferida à terra. As dianteiras encolhem-se em agonia, o mosaico alaranjado é contorcido, uma das patas ainda esboça movimento. O segundo golpe é definitivo. Massacrada, assume posição de aranha morta. Não chegou a ver a enxada esfarelando o casulo.
No meio dos entulhos surge outra, colorida, um pouco menor, mas ainda assim grande. É ágil, a fujona. Não tinha por quem oferecer a própria vida.
Publicado em 22 de março de 2005 às 14:19 por preto