Noites de Vigília

Vinho

Quando a Antarctica comprou a cervejaria de Ponta Grossa, manteve uma produção limitada, visando principalmente a exportação, da cerveja Original. Na época, diziam, era preciso uma decantação demorada para chegar ao resultado.

Na cidade (Ponta Grossa), era raro encontrar um bar que vendia Original. Achamos um, consegui tomar duas ou três garrafas da Original original, saborosíssima. Cerveja de verdade. Num tempo em que eu idolatrava cerveja.

(O rótulo vinha rasgado para que as outras mesas não percebessem. A Original era algo sagrada)

Mas as coisas mudaram. As cervejas foram se fundindo, a qualidade caiu assustadoramente, foram incluídos os tais cereais não-malteados, a química aumentou e a cerveja brasileira foi pros quiabos. Literalmente, o sabor evaporou com a qualidade.

Ao mesmo tempo, o mercado de vinhos cresceu. As uvas nacionais renderam algumas safras boas – dizem que a de 2005 será fenomenal por causa da seca.

Sem contar a entrada de vinhos argentinos e chilenos, de qualidade, no mercado a preço acessível. Tomar vinho não é mais luxo, o hábito está se popularizando e este descendente de italianos com portugueses e índios não ficou de fora.

Gosto de vinho, é a minha bebida principal, hoje. Mas não esperem o ar blasé, nem termos em francês. Entendo alguma coisa, pouco, não tenho condições – nem paciência – para posar de conhecedor. Na verdade, não gosto daquele papo emplumado, que cada vez mais pertence ao passado, quando o vinho ainda trazia uma conotação elitista.

A cerveja rodou porque piorou muito, a ponto de ofender o consumidor. Claro, não a abandonei. Ainda tomo umas ou outras e gosto de marcas específicas. Tem dia que só se quer tomar cerveja. Mas já não é aquela paixão, os dias seguintes estão cada vez piores.

Já o vinho tem reservado surpresas. Além da variação minuciosa de sabor, a qualidade evita ressacas, o ritmo da ingestão é mais lento. O prazer é diferente, está no gosto, não na quantidade. Sou daqueles que têm dificuldade em tomar cerveja sozinho. Com o vinho, isso não ocorre.

Para chegar até aí, foram algumas fases.

1) Adolescente: comprávamos aqueles garrafões de vinho adocicado para beber na zona rural ou em praças. A quantidade era o mais importante. E também era importante ser açucarado. Vinho bom era vinho doce.

2) Faculdade: mudou alguma coisa. Vieram as formaturas, o consumo do Liebfraumilch da garrafa azul aumentou assustadoramente. Vez ou outra ainda rolava um Sangue de Boi ou Campo Largo. Mas o Liebfraumilch era a glória. Achávamos excelente.

3) Adulto: começaram a aparecer mais importados. Nesta fase, o Concha y Toro, Casal Garcia, Valpolicela Bolla e Santa Helena eram os tops. Para nós, claro.

4) Hoje (véio): tem nacionais bacanas, mas os importados ainda são o xodó. Quase não bebo italianos e franceses. Os alemães desapareceram. Em compensação, tem os uruguaios, chilenos, argentinos, portugueses, espanhóis, sul-africanos, australianos e norte-americanos, alguns a preço acessível (R$ 25 para baixo). O Brasil vem melhorando bem. A safra 2005 promete baratear o produto e, ao mesmo tempo, trazer maior qualidade. Ôbas.

Publicado em 28 de março de 2005 às 15:33 por preto

Comentários

    • Olá, boa tarde. Na sua opinião qual é o melhor custo beneficio entre os tintos. e quanto aos nacionais (tintos), qual é o melhor custo beneficio na sua opinião?
    • por walmir
    • 21.Jun.2005 às 08:24 - Permalink - Reportar
    walmir
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!