Noites de Vigília

Juízo final

Aléssio soube da própria morte quando se deparou, em fila, com todos os erros que cometera. Assim, duma hora para outra, encontrou-os em ordem militar e cronológica. Estava lascado, sem dúvida. E por isso os deslizes, angústias, mágoas, dissabores, traições – um batalhão –, pareciam menos importantes, menos sofríveis, menos errados.

Olhou um ressentimentozinho mirrado, coitado, quiproquó de infância e que, pela idade, nem merecia estar na fila. Falou para São Pedro:

-Não dá para liberar esse aqui? Foi só uma briga por um soldadinho de plástico, eu nem tinha três anos...

-Não. Representa o egoísmo que você alimentou desde criança.

-Cara chátôu!, exclamou Aléssio.

Achava um absurdo empilharem todos aqueles sentimentos maltrapilhos só porque um homem estava morto.

Passou a vista pela fila. E encontrou-se às avessas, como um espelho capaz de mostrar apenas aspectos ruins. Em vida, eram verdadeiros monstros. Mas agora não importavam, os pecados de Aléssio pareciam ginasiais, com exceção de um ou outro mais reforçado.

Entre os marombados, estava a traição para cima de Alicinha. Foi logo na adolescência, Aléssio e Alicinha eram um casal quase perfeito. Freqüentavam barzinhos, lanchonetes, aquela coisa meio insossa... Numa dessas, Alicinha não foi. Aléssio deu de cara com Alzira, morena tinhosa. Rolaram. Uma vizinha contou a Alicinha. O resultado foi a mágoa consistente, acompanhada de ressentimento, ódio e desilusão.

Aléssio reclamou de novo:

-Pô, e você queria que eu ficasse com a sem-graça da Alicinha?

-Trocou uma relação sincera pelos desígnios da carne, setenciou São Pedro.

-Mas você é muito mala! Maala!

Seja como for, Aléssio reencontrou os próprios fantasmas e, com sinceridade, não se arrependeu de nenhum. Não tinha vontade de voltar atrás, não admitia consertos na própria vida.

-Errou sabendo dos erros, setenciou São Pedro, já disposto a despachar Aléssio lá para baixo.

-Peraí, se este é o juízo final, não falta colocar minhas virtudes na balança?

-Putzgrila, e eu sou o chátôu! Tu só quis saber de festar, beber, namorar. Acha mesmo que alguma virtude tua daria as caras por aqui?

-Ahã!, respondeu uma garotinha nariguda, feinha que só vendo, um pitoco.

-Quem é você?

-As virtudes do Aléssio.

Foi um fuzuê. Ninguém acreditava que um negocinho daqueles iria encarar uma fila de pecados capengas, mas numerosos. A garotinha abriu uma pasta, colocou óculos e começou a argumentar feito advogada.

Era fruto de míseras virtudes escondidas entre a montanha de asneiras cometidas – e assumidas orgulhosamente – por Aléssio. Do chifre em Alicinha, por exemplo, salvou a honestidade de admitir o fraco pela carne ao invés de louvar um romance etéreo. Da briga pelo soldadinho de plástico, ressaltou a perseverança diante das dificuldades.

Composta destes cacos, a garotinha era uma fera. Foi nocauteando a fila de pecados, um a um. Encerrou a batalha maltrapilha, olho roxo, dentes faltando... Mas ganhou.

São Pedro abriu o portão boquiaberto, e Aléssio entrou no céu com ar de desdém. O santo reviu as contas, ponderou prós e contras, consultou as leis divinas... não tinha jeito. Em todos esses milênios, nunca presenciou uma vitória tão apertada.

Publicado em 30 de março de 2005 às 15:23 por preto

Comentários

    • Tá boa a crônica, ca-raaaaaa. Tchautchau.
    • por Paulo Briguet
    • 30.Mar.2005 às 15:53 - Permalink - Reportar
    Paulo Briguet
    • É daquelas que preciso reescrever, o final ficou frouxo.
    • por preto
    • 30.Mar.2005 às 15:57 - Permalink - Reportar
    preto
    • Quéisso. Mexe não. Tá boa demais!
    • por Fernando Araújo
    • 31.Mar.2005 às 10:44 - Permalink - Reportar
    Fernando Araújo
    • Muito bom,cara.vá em frente....
    • por Charles
    • 10.Jul.2005 às 20:32 - Permalink - Reportar
    Charles
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!