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22 April 2005

Vírus incríveis que circulam via e-mail:


-Você está sendo traído! Veja as fotos! – O sujeito recebe e automaticamente toma atitudes de corno. Esbraveja, xinga, sapateia na cueca. E clica. Não dá tempo para remorso.

-Enlarge your pennis – Pega os inseguros em cheio, desesperados por uma vida mais desinibida. O resultado a gente já sabe.

-Viagra/Xenical – Voltado para um público já prejudicado pela ação do tempo e, principalmente, que não gosta de gastar. “Está em promoção!”, pensa. E clica. Mas quem fica tarado é o computador.

-Cartões UOL ou Terra – Chegam com uma logo fajuta e um subject do tipo “Te Amo!”. O sujeito está carente, recebe um negócio desses e clica na hora. A desilusão é dupla.

-Bancos – Geralmente em inglês, começam assim: “Prezado cliente do banco Tal, renovamos seu cadastro, com novo registro”. O cara nunca ouviu falar do banco, acha que é cobrança ou grana extra. Aí ele clica, claro. E o prejuízo é grande.

-Propostas – Às vezes vêm em inglês, às vezes em português. É um blá-blá-blá um tanto onírico, tipo investimento baixo, trabalhe sem sair de casa, nas horas vagas, sem esforço. Falou em dinheiro fácil, todo mundo quer.

-Conto-do-Vigário – Esse é longo, vem em forma de carta de um representante do príncipe fulano, de um país lá dos confins do Judas. O cara é rico, mexe com diamantes, ganha uma fortuna e, inexplicavelmente, precisa de você. Diamantes? Você está dentro.

-Amo você mas não tenho coragem de dizer! – O texto continua falando que é paixão antiga, secreta. Nestes tempos difíceis, o sujeito fica curioso. E a revelação é devastadora.

-Serasa – Chega com logo oficial e tudo, dizendo que você está sujo na praça. “Outra vez?”, você reclama. E clica.

-Falsa entrevista – Este foi convincente! Trazia o logo da IstoÉ e uma entrevista em que o irmão do Boninho dizia que o Big Brother Brasil era uma fraude. A entrevista era curta e trazia um link para o texto completo. Pegou muita gente e ganhou até um alerta na página da IstoÉ.

-Guia para sexo fabuloso – Vem acompanhado de fotos estimulantes, tentando convencê-lo a integrar um mundo recheado de erotismo. Aí bau-bau, nem precisa muito argumento.

13 April 2005

Esconderijos


Era um túnel comprido e fundo, naquele tempo em que se andava sobre muros, explorando árvores e telhados. A manobra era duplamente arriscada. Primeiro, era necessário driblar um mau caráter que morava no fundo da sala de cinema. Segundo, porque era um túnel de ventilação. Ou seja, havia um enorme ventilador ocupando a entrada. Mas não toda: um vão entre as lâminas e as paredes permitia a passagem.

Perigo enfrentado, o buraco revelava-se um clube secreto, com decisões a serem tomadas e inscrições feitas a vela no teto. Quando o filme começava, corríamos para a extremidade que alcançava a sala. A grade ficava próxima à tela, podia-se ouvir, mas não ver. O que era uma desvantagem, já que as fitas eram em inglês. Mas o que movia era a sensação de burlar o local, o “assistir” clandestino – a vitória superava a incompreensão do áudio.

Algumas vezes o ventilador era ligado, o vento vinha forte. Aí o jeito era esperar o fim da sessão para sair do túnel. Outra vez, alguém lá dentro do cinema viu a luz de vela atravessando a grade e gritou:

-Quem está aí?

A fuga foi complicada, porque quanto mais perto do cinema,
mais afunilado o túnel se tornava, exigindo o arrastar em velocidade, passando pelo vão do ventilador, ganhando o quintal e, dali, saltando muros até o esconderijo construído no alto de uma mangueira, com tábuas sustentadas pelos galhos.

Ali era um oásis intocável. Ficava no quintal de casa, mas inacessível pela subida – que a prática facilitava. Cheguei a guardar alguns gibis nesta plataforma, mas foram estragados por uma chuva repentina. Às vezes deitava lá no alto, lendo, e chegava a cochilar.

Enquanto as explorações ao túnel de ventilação do cinema foram interrompidas, a mangueira tornou-se um verdadeiro Q.G. Qualquer “ação” nas redondezas era planejada lá em cima. Alta e bem fechada, guardava inimigos camuflados, como o terrível “bicho-cachorrinho” (sabe-se lá de onde veio este nome), uma espécie de lagarta peluda que ardia ao contato.

Uma diversão era apostar corrida até à copa – quem colocasse a cabeça para fora da árvore primeiro, ganhava. Era alto para danar. Nessa época, tentei voar com uma estrutura de caixa de papelão, projeto encerrado no primeiro salto e assunto para outra reminiscência.

Mas esconderijo bom mesmo ficava ao lado do muro lateral, subindo no telhado do vizinho até alcançar três caixas d´àgua que formavam, ao centro, um compartimento.

Comparado à mangueira, tinha importância como posto avançado, não como QG. Por um simples motivo: ninguém estranhava um moleque subindo numa árvore. O esconderijo das caixas d´àgua tinha um trajeto arriscado, poderia ser visto em cima da casa dos outros e, isso sim, daria encrenca. Uma vez lá, porém, era impossível ser encontrado. Cada um, na verdade, atendia a uma necessidade estratégica.

11 April 2005

O Amigo da Onça




Rolava uma piada muito difundida no início do século 20. Dois caçadores dividem uma barraca. Um deles pergunta:
-E se aparecesse uma onça agora?
-Eu dava um tiro nela.
-E se você estivesse sem arma?
-Eu usava o facão.
-E se você estivesse sem facão?
-Eu subia numa árvore.
-E se não tivesse árvore?
-Eu corria.
-E se você estivesse paralisado de medo?
-Pô, você é meu amigo ou amigo da onça?

A piada inspirou um jovem cartunista, o pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, um dos talentos da imprensa brasileira. Péricles criou um personagem sem caráter, baixinho, com bigode cafajeste e cabelo engomado. O Amigo da Onça trazia um humor ferino. Um verdadeiro anti-herói, capaz de ironizar a sociedade com cutucões certeiros.

O Amigo da Onça foi publicado principalmente em O Cruzeiro, a partir de 1943. Tornou-se tão marcante que o próprio Péricles não conseguiu se dissociar do personagem.

Boêmio, Péricles caiu na bebida, entrando em um ciclo depressivo que culminou com o suicídio em 1961. O Amigo da Onça continuou sendo publicado por alguns anos. O personagem perdeu popularidade, mas entrou para a história.

E deu origem a uma expressão para designar um passado distante:

-Isso é do tempo do Onça.

O nome do blog veio daí. Era para ser temporário, mas foi ficando...

Conheça mais sobre o Amigo da Onça em http://memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro/amigo.htm

10 April 2005

Sabadão

Vamos supor que você resolva convidar o Pafu para conhecer um botequim chegado em frutos do mar. Nada demais, só um happy hour de sábado regado àquela casquinha de siri que, em Londrina, nunca se encontra de forma digna (com exceção, claro, da casquinha do Sidão, caseira e para poucos).

Mas aí digamos que você chegue no bar e a casquinha é boa. E que você resolva navegar por pratos espanhóis como sardinha crua, curtida no alho. Uma delícia, apesar do nome. E que a tal da sardinha convide à cerveja, cada vez mais.

E que, por acaso, chegue uma companhia legal como a do Celso Pacheco. E que você comece a falar de assuntos como balões, bicicletas, descrenças políticas e religiosas. Aí, quem sabe, você pede uma porção de bolinho de bacalhau com massa feita de grão de bico - culinária de boteco anda valorizada.

E que, então - apenas supondo -, você tome mais cerveja, e a partir daí resolva metade dos problemas do mundo. Humanidade consertada, digamos que você concorde em seguir o Pafu até um bar desconhecido, onde encontra - já chaparraus (o Groo adora esssa) - Tanga, Grota, Galão, Lúcio Flávio, Márcio Leijoto, Janaína Garcia, Ester, enfim, um monte de gente legal.

Mas, digamos, você já não está 100% para conversar.

Aí - é só suposição - você pega uma bem vinda carona com o Tanga até em casa. E acorda às 5 da manhã dormindo no sofá. no DVD, um show de Toquinho, Vinicius, Miúcha e Tom Jobim no fim dos anos 70. Nenhum dos cinco estão bem, incluindo você.

Você dorme de novo, acorda tarde e assiste o show ruim até o fim. Para compensar, deturpando conselhos da Danuza Leão, você toma uns quatro ou nove copos de cerveja. E daí, então, você tem uma ótima idéia: convidar o Pafu para um happy hour em um bar novo, especializado em frutos do mar, numa vila que lembra a infância.

08 April 2005

João Sebastião o escambau!



Era um tal de Bach para lá, Bach para cá... mas depois de uma QSL hard, Paulo Briguet começou a mudar. Não se sabe o que ocorreu naquela cabeça regada a Neosaldina. Mas o fato é que Paulo Briguet ouviu João Sebastião e achou um delém-delém danado. Um negocinho com muito violino, faltava um toque mais romântico, uma voz com vibrato, coisa popular, entende? Tipo voz de travesseiro no ouvido. Na sexta-feira, Paulo Briguet acordou querendo ver a jurupoca piar. Tava assim, sei lá, em clima de rodeio. Foi para a entrevista com Daniel (a foto é do Roberto Custódio) não segurando a felicidade. Depois, não voltou para a redação. Foi visto de chapéu, botina e camisa xadrez. Gritava “seguura peão” e jogava as pernas para trás, batendo os calcanhares. Agora alimenta um novo sonho: ser o primeiro narrador de rodeio especialista em decassílabos.


08 April 2005

Porgy & Bess


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Tava em promoção na Internet, com preço de CD, o DVD “Porgy & Bess” com a Filarmônica de Londres e regência de Simon Rattle. Não é uma ópera apresentada em palco italiano, mas um musical feito especialmente para ser filmado.

Esse negócio de DVD em promoção é complicado. Já caí em algumas armadilhas, entrei em barca furada e o que restou foi uma cisma que só termina quando o disco roda sem problemas – principalmente de áudio. Como tem disco com áudio ruim!

Mas esse eu já conhecia, foi transmitido por TV a cabo na época da montagem, lá por 1992, utilizando a estrutura do espetáculo que estava no Convent Garden. Na época, fiz uma cópia em VHS.

A primeira montagem estreou em 1936, acho, e deve ter sido revolucionária. A ópera de Gershwin é quase uma anti-ópera. Usa toda a estrutura de atos, de canto lírico e orquestra, mas a temática foi inovadora.

Trata-se de um triângulo amoroso entre Porgy, Bess e Crown. Todos são negros, com exceção da polícia – imaginem uma ópera com negros em 1936! E o universo é a desgraceira de desempregados, bêbados, prostitutas e cortiços.

Porgy é uma prostituta viciada em cocaína. Crown é um beberrão também chegado ao pó. Porgy é um mendigo deficiente. Todos derrotados, excluídos, fodidos. Moram no mesmo cortiço.

Crown toma todas, fica chaparraus e chega no cortiço agitando o barraco. Acaba por matar um sujeito gente boa e foge. Como a polícia está chegando, Porgy acolhe Bess.

A polícia utiliza métodos escusos, jogando os moradores do cortiço uns contra os outros. E prende um coitado que nada tem com o peixe. Porgy e Bess iniciam um romance, mas ela é seduzida por um traficante e por aí vai.

Gershwin é duro com seus personagens, e quem está acostumado às óperas tradicionais estranha bastante uma arte “suntuosa” narrando a marginalidade negra.

Se bem que marginais em ópera não são raros: Don Giovanni é um sedutor picareta, Otelo é um mouro renegado, Aída é uma escrava e a própria Carmen não tem boa fama.

Mas a marginalidade de Gershwin é pura derrota. Os cenários são feios, e a carga social implícita é mais impactante porque, de certa forma, é uma realidade que está aí. Porgy & Bess nada mais é do que uma ópera na favela. A miséria está toda lá, inclusive no inglês mal falado. É a “Cidade de Deus” da ópera.

E a parte musical é fantástica. Contextualizada, Summertime é magnífica. Para os fãs da Janis Joplin, uma surpresa: a música narra um momento de alegria. O canto lírico ressalta muito bem as blue-notes, o clima de lamento do blues.

Todos aqueles standards que estamos acostumados a ouvir com N músicos e cantores, do pop ao jazz, ganham novo sentido quando encaixados na trama. E Gershwin não foge de alguns cromatismos que caracterizaram o século 20, mas sua ousadia maior é mesmo temática: fundir a cultura erudita com a negra afrontou as elites, mas resultou em uma obra perene, que resiste intocável ao peso do tempo.


03 April 2005

Rubaiyat

(...)

Bebo vinho como as raízes do salgueiro
Bebem as águas cristalinas da torrente.
Deus me criou sabendo bem que eu beberia:
Se eu me abstivesse de beber, Deus falharia.

(...)

Só o vinho pode te livrar dos teus cuidados;
De entre as setenta e duas seitas vacilares.
Não te separes, pois, do mago que possui
Poder de transportar-te às regiões onde esqueces.

(...)

O vinho tem a cor das rosas.
Não é talvez sangue das uvas,
E sim das rosas. Essa copa
Talvez não seja de cristal,

Mas de azul do céu coagulado.
A noite, tão contrária ao dia,
Talvez não seja a noite negra
Mais do que a pálpebra do dia.

Omar Khayyam - Rubaiyat (trad. Manuel Bandeira)