Tava em promoção na Internet, com preço de CD, o DVD “Porgy & Bess” com a Filarmônica de Londres e regência de Simon Rattle. Não é uma ópera apresentada em palco italiano, mas um musical feito especialmente para ser filmado.
Esse negócio de DVD em promoção é complicado. Já caí em algumas armadilhas, entrei em barca furada e o que restou foi uma cisma que só termina quando o disco roda sem problemas – principalmente de áudio. Como tem disco com áudio ruim!
Mas esse eu já conhecia, foi transmitido por TV a cabo na época da montagem, lá por 1992, utilizando a estrutura do espetáculo que estava no Convent Garden. Na época, fiz uma cópia em VHS.
A primeira montagem estreou em 1936, acho, e deve ter sido revolucionária. A ópera de Gershwin é quase uma anti-ópera. Usa toda a estrutura de atos, de canto lírico e orquestra, mas a temática foi inovadora.
Trata-se de um triângulo amoroso entre Porgy, Bess e Crown. Todos são negros, com exceção da polícia – imaginem uma ópera com negros em 1936! E o universo é a desgraceira de desempregados, bêbados, prostitutas e cortiços.
Porgy é uma prostituta viciada em cocaína. Crown é um beberrão também chegado ao pó. Porgy é um mendigo deficiente. Todos derrotados, excluídos, fodidos. Moram no mesmo cortiço.
Crown toma todas, fica chaparraus e chega no cortiço agitando o barraco. Acaba por matar um sujeito gente boa e foge. Como a polícia está chegando, Porgy acolhe Bess.
A polícia utiliza métodos escusos, jogando os moradores do cortiço uns contra os outros. E prende um coitado que nada tem com o peixe. Porgy e Bess iniciam um romance, mas ela é seduzida por um traficante e por aí vai.
Gershwin é duro com seus personagens, e quem está acostumado às óperas tradicionais estranha bastante uma arte “suntuosa” narrando a marginalidade negra.
Se bem que marginais em ópera não são raros: Don Giovanni é um sedutor picareta, Otelo é um mouro renegado, Aída é uma escrava e a própria Carmen não tem boa fama.
Mas a marginalidade de Gershwin é pura derrota. Os cenários são feios, e a carga social implícita é mais impactante porque, de certa forma, é uma realidade que está aí. Porgy & Bess nada mais é do que uma ópera na favela. A miséria está toda lá, inclusive no inglês mal falado. É a “Cidade de Deus” da ópera.
E a parte musical é fantástica. Contextualizada, Summertime é magnífica. Para os fãs da Janis Joplin, uma surpresa: a música narra um momento de alegria. O canto lírico ressalta muito bem as blue-notes, o clima de lamento do blues.
Todos aqueles standards que estamos acostumados a ouvir com N músicos e cantores, do pop ao jazz, ganham novo sentido quando encaixados na trama. E Gershwin não foge de alguns cromatismos que caracterizaram o século 20, mas sua ousadia maior é mesmo temática: fundir a cultura erudita com a negra afrontou as elites, mas resultou em uma obra perene, que resiste intocável ao peso do tempo.