Era um túnel comprido e fundo, naquele tempo em que se andava sobre muros, explorando árvores e telhados. A manobra era duplamente arriscada. Primeiro, era necessário driblar um mau caráter que morava no fundo da sala de cinema. Segundo, porque era um túnel de ventilação. Ou seja, havia um enorme ventilador ocupando a entrada. Mas não toda: um vão entre as lâminas e as paredes permitia a passagem.
Perigo enfrentado, o buraco revelava-se um clube secreto, com decisões a serem tomadas e inscrições feitas a vela no teto. Quando o filme começava, corríamos para a extremidade que alcançava a sala. A grade ficava próxima à tela, podia-se ouvir, mas não ver. O que era uma desvantagem, já que as fitas eram em inglês. Mas o que movia era a sensação de burlar o local, o “assistir” clandestino – a vitória superava a incompreensão do áudio.
Algumas vezes o ventilador era ligado, o vento vinha forte. Aí o jeito era esperar o fim da sessão para sair do túnel. Outra vez, alguém lá dentro do cinema viu a luz de vela atravessando a grade e gritou:
-Quem está aí?
A fuga foi complicada, porque quanto mais perto do cinema,
mais afunilado o túnel se tornava, exigindo o arrastar em velocidade, passando pelo vão do ventilador, ganhando o quintal e, dali, saltando muros até o esconderijo construído no alto de uma mangueira, com tábuas sustentadas pelos galhos.
Ali era um oásis intocável. Ficava no quintal de casa, mas inacessível pela subida – que a prática facilitava. Cheguei a guardar alguns gibis nesta plataforma, mas foram estragados por uma chuva repentina. Às vezes deitava lá no alto, lendo, e chegava a cochilar.
Enquanto as explorações ao túnel de ventilação do cinema foram interrompidas, a mangueira tornou-se um verdadeiro Q.G. Qualquer “ação” nas redondezas era planejada lá em cima. Alta e bem fechada, guardava inimigos camuflados, como o terrível “bicho-cachorrinho” (sabe-se lá de onde veio este nome), uma espécie de lagarta peluda que ardia ao contato.
Uma diversão era apostar corrida até à copa – quem colocasse a cabeça para fora da árvore primeiro, ganhava. Era alto para danar. Nessa época, tentei voar com uma estrutura de caixa de papelão, projeto encerrado no primeiro salto e assunto para outra reminiscência.
Mas esconderijo bom mesmo ficava ao lado do muro lateral, subindo no telhado do vizinho até alcançar três caixas d´àgua que formavam, ao centro, um compartimento.
Comparado à mangueira, tinha importância como posto avançado, não como QG. Por um simples motivo: ninguém estranhava um moleque subindo numa árvore. O esconderijo das caixas d´àgua tinha um trajeto arriscado, poderia ser visto em cima da casa dos outros e, isso sim, daria encrenca. Uma vez lá, porém, era impossível ser encontrado. Cada um, na verdade, atendia a uma necessidade estratégica.
Publicado em 13 de abril de 2005 às 15:22 por preto