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29 June 2005

Inverno


Lá vem o frio com suas manteigas-de-cacau, seu tiritar de dentes, seu vento gélido a arranhar as faces. Época de tremedeira, de banhos quentes e longos e sofrimento ao secar-se. Estação de tonalidades cinzas, notas médias e ritmos largos. Dá-lhe resgatar roupas cheirando a naftalina, toucas de lã, cachecóis antigões e pantuflas ridículas. Ô tempinho.

Não dá vontade de sair da cama, não se acorda cedo, o esporte fica para depois. Em compensação, a comilança impera em pipocas, caldos, massas, salgados, bolos, chocolates. Não tem noite sem locadora, não tem locadora sem pizza.

O frio é racional, constante, previsível, horizontal. Brincamos de europeus com os casacos compridos, o hálito esfumaçado, as luvas com dedos para fora.

Vade-retro massas polares que vêm da Argentina e logo batem à nossa porta nublando o horizonte! Xô dias nublados e chuvosos! Chega de viver amarrotado embaixo de camisas e jaquetas! Caiam fora dias chuvosos e bolorentos! Aaaahhhhh!

Adeus happy-hour refrescante, adeus mesa na calçada, tchau bermudas! Agora a cerveja congela, o bar não atrai, a roupa amarrota. Agora o nariz escorre, a gripe não cura, a pele resseca, os lábios racham. Agora a salada não vai, as frutas não vêm... Êta império da gordura!

Tá, dá para ser menos ranzinza... Ainda escapa o entardecer monetiano, as cores espalhadas em despedida no horizonte. Ainda escapam os destilados aconchegantes, santo conhaque. Ainda escapam os vinhos, que já não precisam de tanta geladeira. O chimarrão, para acordar de manhã.

Enfim, sobrevivem ao frio o calor da alma, o agarro embaixo da coberta, a vontade de ler mais e zoar menos, a luz um tanto poética, o céu quando está azul. A música do frio: Grieg, Sibelius, Bartók, Debussy.

Ainda assim, sou mais o tempestuoso verão. O febril verão. O irracional verão. Mas deste eu falo quando chegar.


23 June 2005

A escola das perdas


Para Paulo Briguet


Não há, na escola das perdas, disciplina que escape ao sofrimento.

Na escola das perdas o preparo é lenitivo, anestesia que não ultrapassa a pele.

Na escola das perdas cada prova é única, pessoal, intransferível e insubstituível.

Na escola das perdas não é preciso estudo, todos passam.

Na escola das perdas cada um sabe a nota que merece.

É a escola das perdas que nos freqüenta em horários alternativos, sazonais, previsíveis ou surpreendentes.

Na escola das perdas não somos estudantes, mas reféns.

A escola das perdas é interativa: as provas alheias nos atingem e vice-versa.

A escola das perdas zomba da ciência, mas alimenta a filosofia, a religião e a arte.

Ninguém quer concluir a escola das perdas.

O ensino da escola das perdas é aquele que não se mensura.

Um dia a escola das perdas nos confere graduação.

É definitivo, não precisa pós nem mestrado.

Diplomados, viramos provas para outros estudantes.

A escola das perdas provoca aleijões na alma.


21 June 2005

Bandas imaginárias


The Hot Orchestra - EUA - 1928:
-Louis Armstrong (trompete)
-Jelly Roll Morton (piano)
-Joe Turner (voz)
-Bix Beiderbeicke (trompete 2)
-Sidney Bechet (clarinete)
-John St. Cyr (banjo)
-Kid Ory (trombone)
-Art Tatum (piano)
-Zutty Singleton (bateria)

Tempero Brasileiro - Brasil - 1989
-Tim Maia (voz)
-Hermeto Pascoal (piano)
-Rafael Rabello (violão)
-Toninho Horta (guitarra)
-Bocato (trombone)
-Natan Marques (baixo)
-Toninho Carrasqueira (flauta)
-Naná Vasconcelos (percussão)

Anarquia Crônica - Brasil - 1979
-Kid Vinil (voz)
-Lobão (bateria)
-Edgar Scandurra (guitarra)
-Bi Ribeiro (baixo)

Doo Wop Singers - EUA - 1961
-Frank Sinatra (voz)
-Ella Fitzgerald (voz)
-Ray Charles (voz)
-Carmen McRae (voz)

Choro Chorado - Brasil - 1958
-Pixinguinha (sax)
-Benedito Lacerda (flauta)
-Jacob do Bandolim (bandolim)
-Severino Araújo (clarinete)
-Dino 7 Cordas (7 cordas)
-Garoto (6 cordas)
-João da Bahiana (pandeiro)


16 June 2005

Crime e Castigo nas férias


Bem que avisaram: “Você vai ler Crime e Castigo nas férias”? Mas já era tarde, estava bêbado do livro.

Passei pelos Irmãos Karamázov, há alguns anos, e a catedral de personagens de Dostoiévsky me impressionou bastante.

Mas em Crime e Castigo, há uma inversão. As filigranas da arquitetura dostoievskyana é deslocada, com a mesma grandeza, para profundidade psicológica.

Estava lendo agora um texto do Briguet sobre a peça “Celeste Flora”, da Espanha, em que a protagonista é uma assassina cativante. No meio do espetáculo, é comum a identificação com a assassina. Surge, portanto, a torcida contra a condenação.

No caso de Crime e Castigo, o efeito é o mesmo. Insano, o protagonista assassino fisga-nos pela fragilidade. Começamos acreditando-o incapaz de cometer o crime.

Tragédia consumada, continuamos a negá-la. Como se fosse mentira. Aí reside uma dose cavalar de realidade: a incompreensão da tragédia conduz à negação. Sabemos que ocorreu, mas custamos a acreditar. O fato torna-se surreal, fragmentado, obscuro. É a mesma realidade amorfa em que o protagonista se encontra.

Aos poucos, vamos nos acostumando com o crime. E logo passamos a torcer pela absolvição do culpado. O protagonista cai numa espiral de tormentos, e o próprio sofrimento parece-nos uma expiação, como se a pena, por si só, já estivesse em cumprimento.

Soma-se à situação o caráter do crime. Somos flagrados concordando com o assassino diante do tolo argumento de que as vítimas, pelo menos a primeira, merecia a morte. Com um personagem tão palpável, como torcer para a pálida constituição da vítima?

E assim foi. Parece que, quando enfim, a sentença é lavrada, o protagonista já pagou a pena. Aí a prisão e o exílio surgem como sofrimento menor, que podem ser cumpridos de alma lavada.

Toda essa leitura foi febril como a narrativa. Tive pesadelos com a trama e o sofrimento que a circunda. O bêbado atropelado por uma carruagem, meu Santo Onofre, tenho certeza de que o conheço!

Quanto aos conselhos para não ler nas férias, fiz bem em desprezá-los. Vi a literatura de Dostoiévski interferir diretamente na minha realidade – eu me preocupava quando o protagonista exibia-se para a polícia, comentando detalhes de um crime ainda insolúvel.

Enfim, valeu as férias. Isso sim é que é escrever, sô.

15 June 2005

Briguinhas


-Por que você sempre inverte as coisas?
-Não é assim, não. Controle sua agressividade que eu sou vítima nesta história.
-Mas como, se você chegou já dando bronca por causa da calcinha no banheiro?
-Justamente por isso. Tínhamos um pacto. Nada de calcinha pendurada no box, nada de cascos de cerveja em volta do lixo.
-E o que é aquilo?
-Uma garrafa de v-i-n-h-o vazia. E nem está perto do lixo.
-Ah, entendi. O lixo não deve ir para o lixo.
-Se eu jogo no lixo, você reclama. Se eu não jogo, também.
-Coitadinho.
-Pôxa, chego em casa, vejo a calcinha e apenas comento com você. Mas você explode, critica, acaba comigo e ainda reclama do vinho que tomei ontem.
-Não reclamei do vinho, mas da garrafa vazia – o lixo – do vinho. E não soltei os cachorros em cima de você. Apenas lembrei que você também não cumpriu sua parte.
-Sei, eu sou sempre o vilão. O malvado, o ruim.
-Se você soubesse o quanto me enerva...
-Calma benzinho, amor, guzu-guzu...
-Guzu-guzu o cacete!
-Isso, grita comigo!
-Geralmente é a mulher quem fala isso.
-Impossível, homens não chegam a esses níveis de grosseria.
-Ah não, claro. Muito menos naquele botequim que você freqüenta.
-Não fala mal do meu bar. Pode me ofender, humilhar, mas falar mal do meu bar não!
-Tá vendo, eu gostaria tanto de ser defendida assim...
-Ô benzinho, mas você é. Olha, estou jogando o vinho no lixo, tá.
-E eu estou guardando a calcinha.
-Pronto.
-Pronto.

-Agora vai fazendo uma comidinha enquanto eu vejo o jornal.
-Nãnãnão. Vai me ajudar a cortar o alho e a cebola.
-Tá bom. Cadê o alho?
-Ué, você não comprou?
-Era a sua semana de ir ao supermercado.
-Minha? Mas você está um pau d´água mesmo.
-Eu bebo socialmente. E já fui no mercado, olha a cebola que eu comprei aí.
-Mas esqueceu o alho, sem alho não tem porra de jantar nenhum.
-Nem no boteco falam desse jeito.
-É claro, num botequim de cachorros os fregueses ladram!
-Você quer saber? Eu vou é para lá. Os ca-chor-ros me tratam melhor que você.
-Vai mesmo, canalha. Vai e me deixa sozinha. Pé-de-cana.

Ele sai batendo a porta. Ela corre para o telefone.
-Valdir? Pode vir que está tudo certo. Hein? Não se preocupe, ele só chega tarde e bêbado.

No carro, ele disca o celular.
-Eduarda? Estou passando aí. Não, a essa altura ela está enchendo a cara de comprimidos para dormir.


13 June 2005

Verme do ouvido


Simone viu não sei onde que aquelas músicas indesejáveis – que grudam na memória – são consideradas “vermes de ouvidos”. O termo é de uma exatidão fantástica.

***

O hotel estava lotado de portugueses. À noite, rolou um videokê no bar da piscina. Aquela coisa de sempre: mães obrigando os filhos a desafinarem – e achando lindo –, enquanto nossos ouvidos são massacrados.

Poucas vezes um videokê rendeu algum prazer. É sempre um castigo. O repertório é desgastado, todo mundo canta muito mal (inclusive eu, claro, nas vezes em que tentei) e os arranjos – se podemos chamar assim – assustadores. O resultado final é irritação e dor de cabeça.

Mas naquele dia tomei umas caipirinhas e, no litoral, nem videokê afeta meu humor.

Até que levantou um brasileiro e mandou ver Mamonas Assassinas: “Me convidaram para uma tal suruba, não pude ir Maria foi no meu lugar”... “Roda roda vira, roda roda vem, já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém”...

Pior que o constrangimento dos portugueses (ainda não sei se o cara fez de sacanagem ou foi um bola-fora homérico), foi a música grudar no meu ouvido por uma semana, atormentando os últimos dias de férias.

Baita verme no ouvido.

***

Mas verme no ouvido também tem remédio.

Quem me curou foi um concerto para violino do americano John Adams, um cara novo, nascido em 1947 e bastante consistente. John Adams é contemporâneo, mas sem passar pela escola dodecafônica. Mesmo assim, traz características do atonalismo, tratando a melodia em linha reta, como se buscasse, lá no fim, uma saída que não chega. Essa procura às vezes fica mais densa, e permeia todo o primeiro movimento – que exige bastante do instrumentista. Lembra, a certa distância, o free jazz. Mas claro, é um concerto partiturado. O segundo movimento é lento e tocante, sentimental mesmo, ainda que seguindo caminhos menos ortodoxos. O terceiro e último movimento é febril, com uma célula melódica que se repete e se transforma, mas marca e permanece na memória, felizmente. É uma das características de John Adams: fazer música contemporânea acessível, um tanto minimalista, sem exigir um tratado teórico para apreciar.

Uma verme do ouvido ao contrário.

***

Maureen Fleming foi bem. O espetáculo “After Eros” já fez valer o FILO deste ano.

A começar pela música de Phillip Glass. Confesso que, até há algum tempo, não conseguia gostar do minimalismo que marca boa parte da obra do compositor.

Mas, felizmente, as restrições desabaram com o tempo.

Tão bom quanto ouvir Glass é ver alguém construindo poesia visual sobre a obra dele.

Extremamente técnica, mas inteligente o bastante para não perder a naturalidade, Maureen Fleming buscou o movimento oriental do butô para construir ideogramas, imagens, referências.

Dos quadros apresentados, fiquei com o primeiro, introdutório, lento e cíclico; e o terceiro, em que uma escada provoca ilusão espacial.

Mas concordo com o Briguet, 20 minutos a menos não seria ruim.

Seja como for, o espetáculo de Maureen Fleming provocou um prazer que se prolongou após a saída do teatro e perdurou noite afora.

Enfim, o oposto de qualquer videokê.

09 June 2005

Você sabe que está velho quando...

-Começa a ter medo de friagens e correntes de ar. Não dorme sem meia. Tomar chuva é loucura. Sereno, então, é pneumonia na certa. Ah, tem que secar o cabelo antes de sair do banheiro.

-Passa a freqüentar mais a farmácia do que o cinema. Aliás, esses filmes de hoje...

-Inexplicavelmente, passa a acordar cedo. Mesmo no domingo, quando aproveita para curtir a feira – e reclamar dos preços.

-Rock bom ficou nos anos 60. Hoje é só barulheira e gritaria.

-Quanto mais regime faz, mas a barriga aumenta.

-Passa a caminhar no Zerão com a camisa por dentro da bermuda - o elástico fica obrigatoriamente acima do umbigo.

-Amarrar sapato vira exercício.

-Abaixar é complicado; levantar é difícil.

-Evita elevador e não gosta de escada.

-Pêlos começam a crescer na orelha.

-Fica encarando garotas com calça justa.

-Passa a usar camisetas de botequins, armazéns, lojas de materiais de construção, time da terceira divisão ou do tipo: “fazendo toucinho” (o desenho traz um casal de porquinhos transando).

-As novas gerações não estão com nada. Bom mesmo era no tempo em que...

-Começa a ver a Hebe Camargo com outros olhos. E não é que ela está inteirona?

-Tem vários chinelos. Rider, de preferência.

-Esquece o nome do cantor que mais gosta no meio do papo. Aquele um, com voz grossa...

-Começa a gostar de ovo de codorna, tremoço, buchada, rabada, bago de boi, língua.

-No terceiro chopp está contando vantagem; no quarto, piadas de sacanagem; no quinto, diz que comeu todas.

-Resolve ir embora de uma hora para outra, e ninguém o consegue convencer do contrário.

-Sair depois das dez da noite é improvável. Depois das onze, impossível.

-Ajeita os óculos, faz careta e estica o braço para ler alguma coisa.

-Quando vai ao cinema, leva agasalho por causa do ar condicionado.

-Lembra do Silvio Santos na Globo, usa lenço de pano, gosta do Benito di Paula, tentou consertar relógio enquanto o Uri Gehler gritava: “funciona!”, pela tevê.

-Faz um post imitando as piadas da revista Mad.

08 June 2005

Enferrujado e barrigudo


Grgrgrgrrgrgrgkgg

Nnnnnheeeeeeec

Tóimmmmm

Calma leitor incauto (o Arrigo diria assim), os ruídos acima são de juntas estalando, dedos desenferrujando e idéias ainda minúsculas tentando parecer geniais.

***

Férias deveriam ter transição. Algo assim: duas semanas antes, o ritmo diminui, vai caindo para a marcha lenta, até alcançar o prazer do ócio.

Depois, na volta, duas semanas para ir pegando o jeito, esquecendo o sol e o mar para se acostumar ao ar-condicionado.

Só então enfrentaríamos trabalhos mais pesados.

***

Abandonei o blog nesse período porque não queria escrever e nem criar o compromisso de fazê-lo. Pura vagabundagem.

Sei lá se bebi demais, andei demais, corri demais, aproveitei demais aquele mar verde – feito o mar de minha infância – capaz de mudar de cor e ocultar faraônicos corais, quilômetros de vida gulosa e intensa.

O fato é que retrocedi. Travei. Empaquei.

Agora estou aqui, quebrando a cabeça com coisas simples. Enquanto não me acostumo, vou sofrendo as horas, duelando com uma ansiedade antes domesticada.

É preciso paciência, batucar as teclas em ritmo litorâneo, driblando o trabalho para tagarelar as bobagens tão necessárias à vida.

***

Tanta gente para trombar lá nos confins do mundo e fui dar de cara com um ator de novela famosão (cara chátôu). Desses que a mulherada não se contém.

-Espetáculo!, disse a garota.

A saída foi contemplar minha sombra barriguda na areia (e pensar onde andariam as atrizes gostosas de TV).