Simone viu não sei onde que aquelas músicas indesejáveis – que grudam na memória – são consideradas “vermes de ouvidos”. O termo é de uma exatidão fantástica.
***
O hotel estava lotado de portugueses. À noite, rolou um videokê no bar da piscina. Aquela coisa de sempre: mães obrigando os filhos a desafinarem – e achando lindo –, enquanto nossos ouvidos são massacrados.
Poucas vezes um videokê rendeu algum prazer. É sempre um castigo. O repertório é desgastado, todo mundo canta muito mal (inclusive eu, claro, nas vezes em que tentei) e os arranjos – se podemos chamar assim – assustadores. O resultado final é irritação e dor de cabeça.
Mas naquele dia tomei umas caipirinhas e, no litoral, nem videokê afeta meu humor.
Até que levantou um brasileiro e mandou ver Mamonas Assassinas: “Me convidaram para uma tal suruba, não pude ir Maria foi no meu lugar”... “Roda roda vira, roda roda vem, já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém”...
Pior que o constrangimento dos portugueses (ainda não sei se o cara fez de sacanagem ou foi um bola-fora homérico), foi a música grudar no meu ouvido por uma semana, atormentando os últimos dias de férias.
Baita verme no ouvido.
***
Mas verme no ouvido também tem remédio.
Quem me curou foi um concerto para violino do americano John Adams, um cara novo, nascido em 1947 e bastante consistente. John Adams é contemporâneo, mas sem passar pela escola dodecafônica. Mesmo assim, traz características do atonalismo, tratando a melodia em linha reta, como se buscasse, lá no fim, uma saída que não chega. Essa procura às vezes fica mais densa, e permeia todo o primeiro movimento – que exige bastante do instrumentista. Lembra, a certa distância, o free jazz. Mas claro, é um concerto partiturado. O segundo movimento é lento e tocante, sentimental mesmo, ainda que seguindo caminhos menos ortodoxos. O terceiro e último movimento é febril, com uma célula melódica que se repete e se transforma, mas marca e permanece na memória, felizmente. É uma das características de John Adams: fazer música contemporânea acessível, um tanto minimalista, sem exigir um tratado teórico para apreciar.
Uma verme do ouvido ao contrário.
***
Maureen Fleming foi bem. O espetáculo “After Eros” já fez valer o FILO deste ano.
A começar pela música de Phillip Glass. Confesso que, até há algum tempo, não conseguia gostar do minimalismo que marca boa parte da obra do compositor.
Mas, felizmente, as restrições desabaram com o tempo.
Tão bom quanto ouvir Glass é ver alguém construindo poesia visual sobre a obra dele.
Extremamente técnica, mas inteligente o bastante para não perder a naturalidade, Maureen Fleming buscou o movimento oriental do butô para construir ideogramas, imagens, referências.
Dos quadros apresentados, fiquei com o primeiro, introdutório, lento e cíclico; e o terceiro, em que uma escada provoca ilusão espacial.
Mas concordo com o Briguet, 20 minutos a menos não seria ruim.
Seja como for, o espetáculo de Maureen Fleming provocou um prazer que se prolongou após a saída do teatro e perdurou noite afora.
Enfim, o oposto de qualquer videokê.
Publicado em 13 de junho de 2005 às 15:01 por preto