Bem que avisaram: “Você vai ler Crime e Castigo nas férias”? Mas já era tarde, estava bêbado do livro.
Passei pelos Irmãos Karamázov, há alguns anos, e a catedral de personagens de Dostoiévsky me impressionou bastante.
Mas em Crime e Castigo, há uma inversão. As filigranas da arquitetura dostoievskyana é deslocada, com a mesma grandeza, para profundidade psicológica.
Estava lendo agora um texto do Briguet sobre a peça “Celeste Flora”, da Espanha, em que a protagonista é uma assassina cativante. No meio do espetáculo, é comum a identificação com a assassina. Surge, portanto, a torcida contra a condenação.
No caso de Crime e Castigo, o efeito é o mesmo. Insano, o protagonista assassino fisga-nos pela fragilidade. Começamos acreditando-o incapaz de cometer o crime.
Tragédia consumada, continuamos a negá-la. Como se fosse mentira. Aí reside uma dose cavalar de realidade: a incompreensão da tragédia conduz à negação. Sabemos que ocorreu, mas custamos a acreditar. O fato torna-se surreal, fragmentado, obscuro. É a mesma realidade amorfa em que o protagonista se encontra.
Aos poucos, vamos nos acostumando com o crime. E logo passamos a torcer pela absolvição do culpado. O protagonista cai numa espiral de tormentos, e o próprio sofrimento parece-nos uma expiação, como se a pena, por si só, já estivesse em cumprimento.
Soma-se à situação o caráter do crime. Somos flagrados concordando com o assassino diante do tolo argumento de que as vítimas, pelo menos a primeira, merecia a morte. Com um personagem tão palpável, como torcer para a pálida constituição da vítima?
E assim foi. Parece que, quando enfim, a sentença é lavrada, o protagonista já pagou a pena. Aí a prisão e o exílio surgem como sofrimento menor, que podem ser cumpridos de alma lavada.
Toda essa leitura foi febril como a narrativa. Tive pesadelos com a trama e o sofrimento que a circunda. O bêbado atropelado por uma carruagem, meu Santo Onofre, tenho certeza de que o conheço!
Quanto aos conselhos para não ler nas férias, fiz bem em desprezá-los. Vi a literatura de Dostoiévski interferir diretamente na minha realidade – eu me preocupava quando o protagonista exibia-se para a polícia, comentando detalhes de um crime ainda insolúvel.
Enfim, valeu as férias. Isso sim é que é escrever, sô.
Publicado em 16 de junho de 2005 às 16:27 por preto