Lá vem o frio com suas manteigas-de-cacau, seu tiritar de dentes, seu vento gélido a arranhar as faces. Época de tremedeira, de banhos quentes e longos e sofrimento ao secar-se. Estação de tonalidades cinzas, notas médias e ritmos largos. Dá-lhe resgatar roupas cheirando a naftalina, toucas de lã, cachecóis antigões e pantuflas ridículas. Ô tempinho.
Não dá vontade de sair da cama, não se acorda cedo, o esporte fica para depois. Em compensação, a comilança impera em pipocas, caldos, massas, salgados, bolos, chocolates. Não tem noite sem locadora, não tem locadora sem pizza.
O frio é racional, constante, previsível, horizontal. Brincamos de europeus com os casacos compridos, o hálito esfumaçado, as luvas com dedos para fora.
Vade-retro massas polares que vêm da Argentina e logo batem à nossa porta nublando o horizonte! Xô dias nublados e chuvosos! Chega de viver amarrotado embaixo de camisas e jaquetas! Caiam fora dias chuvosos e bolorentos! Aaaahhhhh!
Adeus happy-hour refrescante, adeus mesa na calçada, tchau bermudas! Agora a cerveja congela, o bar não atrai, a roupa amarrota. Agora o nariz escorre, a gripe não cura, a pele resseca, os lábios racham. Agora a salada não vai, as frutas não vêm... Êta império da gordura!
Tá, dá para ser menos ranzinza... Ainda escapa o entardecer monetiano, as cores espalhadas em despedida no horizonte. Ainda escapam os destilados aconchegantes, santo conhaque. Ainda escapam os vinhos, que já não precisam de tanta geladeira. O chimarrão, para acordar de manhã.
Enfim, sobrevivem ao frio o calor da alma, o agarro embaixo da coberta, a vontade de ler mais e zoar menos, a luz um tanto poética, o céu quando está azul. A música do frio: Grieg, Sibelius, Bartók, Debussy.
Ainda assim, sou mais o tempestuoso verão. O febril verão. O irracional verão. Mas deste eu falo quando chegar.
Publicado em 29 de junho de 2005 às 16:40 por preto