Batuco a mesa. É forma de controlar a ansiedade. Vez enquando, o batuque vira uma música imaginária, vai se desenvolvendo com arranjos até que alguém olha torto, pensando “dá para parar?”. Aí volto à realidade, o teclado sujo e amaciado – tem uma tecla que me atrapalha, a que abre o iniciar do Windows. Sempre que troco de máquina é um problema. Algumas vêm configuradas como as antigas máquinas de escrever: o til é do lado do Ç. Outras vêm com padrão internacional: o til fica lá no canto esquerdo, exigindo o shift. Tanto mudei que acostumei com ambos.
À minha volta, dois telefones. Um desejável, outro não. O desejável toca pouco, o indesejável apita o tempo todo. Ignoro, mas às vezes atendo, achando que é o desejável. A ligação, como sempre, não tem nada a ver com o que eu faço, mas o interlocutor não entende e exige uma solução que está fora da minha alçada.
Os telefones se misturam a uma papelada acumulada no canto direito. Há memorandos, um guia de endereços de 2004, manuais, gramáticas e daí para baixo, realmente não sei. Alguns papéis brancos, estão há tanto tempo neste escritório que, garanto a vocês, nunca foram lidos. Mas alguém os escreveu e está até hoje angustiado com a ausência de resposta.
À minha frente é mais complicado, porque está este computador que dificilmente me obedece. Tento minimizar o Word, ele não minimiza. Fecho o Explorer, mas ele continua lá, firme. Aperto control+alt+del: o Explorer não responde, o Word não responde e outro programa que nunca ouvi falar também não responde. E eu não respondo por mim. Aperto control+alt+del de novo, mas a máquina não reinicia. O nocaute vem a fórceps, no botão, e finalmente a tela fica escura. Quando acende, está azul e acusa um erro fatal.
Ao lado do PC estão as caixas de som, que também não funcionam de acordo. Às vezes tocam direito, às vezes chiam. No mais, oscilam em uma constante interferência de alguma rádio irreconhecível.
Como as caixas não dão no couro, trago um CD player, acomodado no lado esquerdo com alguns CDs que só eu reconheço. Há ritmos africanos, reggaetown, gangsta e sertanejo. Não ouço nenhum deles, prefiro o Richard Clayderman tocando um piano empoado.
É no lado esquerdo que estão os originais da biografia de Aparícia Dedos-Leves, a ladra que apavorou a vida burguesa nos anos 40. Olho para ele de viés, é meu trabalho mais longo, uma pesquisa pelo encardido submundo jamais revelado na história do país. Dediquei anos a reconstituir os passos de Aparícia, e agora que consegui... Estou bloqueado, arranjando desculpas esfarrapadas em minha própria mesa de trabalho para evitar sua edição.
Mais um dia se passou sem que suas páginas fossem folheadas, revisadas, conferidas, diagramadas. Enfurnei-me disfarçado neste escritório de planilhas e carimbos empoeirados e ainda não avancei uma linha para publicar tal material bombástico. Perco-me propositalmente em teclas inúteis, fabrico problemas para adiar as tarefas.
Os funcionários daqui olham-me estranho. Todos, afirmo, todos têm olheiras enormes. Sei que falam de mim no cantinho do café. Sei que a telefonista está encarregada de tocar o telefone indesejável. Sei que ninguém além de meu patrocinador – um verdadeiro mecenas, o único a acreditar no tesouro que possuo – tem o número do desejável.
Já senti essa mesma pressão antes, quando publiquei os imprescindíveis “Diários de Marluce”, encontrados acidentalmente em um porão de localidade que mantenho em segredo. Marluce, não preciso dizer pois todos a conhecem, é o Joyce do século 21.
Mas os passos de Aparícia são o que há de mais tenebroso nos abismos da sociedade, nos vãos do cotidiano, nas sombras da moral.
Bebo um café, espio os funcionários me espiando. Escarneço de sua cara de zumbi. E hesito.