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Tem um despacho brabo em cima do viaduto a caminho do Catuaí. Passo por ali nas pedaladas e posso dizer que o cheiro está de matar. E não é despachinho meia-boca não, tem uma baita galinha de granja cercada de velas vermelhas em um prato caprichado com farofa. O problema é que o bicho – carente de um enterro digno – está apodrecendo ali, ao ar livre.



Despacho no viaduto do Shopping só pode ser despacho de elite.



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Bem diferente de um despachinho que encontramos certa vez no ático em que faríamos um churrasco daqueles. Durante os preparativos, demos de cara com o dito, escondido atrás de uma porta de vidro. Era discreto, um ou outro charuto, uma velinha e um pouco de farofa em prato plástico.



Éramos um bando de materialistas, acredito. E lembro que nos divertimos com a história do despacho. Bebemos todas e mais um pouco, cantamos, dançamos, uma farra.



Pois é, mesmo bêbados e materialistas, não houve quem desrespeitasse o despacho, que sobreviveu intacto à festança.



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A paternidade ensina muito, claro. E você se descobre um completo ignorante em coisas óbvias, triviais. Por exemplo: uma célula do corpo humano dura, normalmente, alguns anos. Ou seja, nosso corpo é muito mais novo do que nós mesmos.



Tudo isso seria mais legal se a aparência também se renovasse, mas, cá entre nós, só vem piorando. Dureza.





Publicado em 31 de outubro de 2005 às 10:15 por Preto

Sambas



Na Praça Clóvis

minha carteira foi batida

tinha vinte e cinco cruzeiros e o teu retrato

vinte e cinco francamente achei barato

pra me livrar do meu atraso de vida

eu já devia ter rasgado e não podia

esse retrato, cujo olhar me maltratava e perseguia

um dia veio o lanceiro

naquele aperto da praça

vinte e cinco, francamente, foi de graça

(Paulo Vanzolini)





Parecia um boi mugindo

aquela triste cuíca

tocada pelo Laurindo

o gostoso da Zizica

ele não deu à Zizica

qualquer satisfação

e foi guardar a cuíca

na casa da Conceição

diferente o samba fica

sem ter a triste cuíca

que gemia feito boi

a Zizica está sorrindo

já mataram o Laurindo

mas não se sabe quem foi

(Noel Rosa)

Publicado em 27 de outubro de 2005 às 16:57 por Preto





Enquanto o “não” ganhava nas urnas, resolvi aproveitar o domingão de sol para uma pedalada e testar um pneu novo.



O último passeio foi um desastre, o pneu traseiro furou três vezes, é possível?



Só com o pé-frio aqui.



Daí que troquei o pneu e me mandei pelas ruas. Feriado é bom para pedalar porque a cidade fica tranqüila, mas hoje foi o contrário.



Logo perto da Souza Naves, dois caras em uma moto dispararam três tiros contra uma caçamba. Em pleno referendo, umas quatro da tarde, em bairro central. Eu vi.



O “não” ganhou e finalmente a gente vai ficar livre de uma discussão que raramente saiu do nível da chatice.



Gastou-se uma fortuna para nada. O referendo foi um negócio completamente equivocado. Mesmo com a vitória do “sim”, o problema da violência sequer seria amenizado. É como tratar de um doente terminal com chá de camomila. E o dinheiro público indo para o ralo.



Ah, sim, os caras que atiraram na caçamba. É claro que a caçamba não era o alvo, mas um treino. Para quê, vocês imaginam.



***



Desenterrei um monte de fitas K7 dos anos 80.



Uma delas traz trechos do programa Azylo Hotel, do Paulão Rock'n'Roll. Ó o repertório:

Fastway, Patife Band, Pretenders, Janis Joplin, Doors, Ted Nuggent, Scorpions, Led Zeppelin, Triumph, Kiss e Quiet Riot. Vixe!



Tem outra ótima com Billie Holiday e Jimmy McGriff.



Outra do Frank Zappa.



E mais uma com grupos pop da Suécia, Argentina, Dinamarca, Polônia e Inglaterra. Onde eu consegui? Sei lá.



Outra fita traz, de um lado, Arrigo Barnabé. Do outro, Ataulfo Alves. Minhanossa.



Legal mesmo é uma fita que o Alexandre do Imaginary Friends me gravou nos anos 90: Verve, Radiohead, Belle & Sebastian, Babybird, Luna, Yo la Tengo, Wannadies, Stone Roses, Teenage Fanclub, James, Lightning Seeds e Bluetones.



***



Parabéns Marcelo Rocha!

(E eu que achava que nunca mais iria tocar violão)

Publicado em 23 de outubro de 2005 às 22:32 por Preto

O primeiro golpe de Aparícia















Escondo-me atrás do monitor e começo a falar sozinho. Sei que isso deixa os zumbis deste escritório malucos. Eles ainda não sabem que minha presença ali esconde os segredos de Aparícia Dedos-Leves, ladra e socialite que apavorou o país nos anos 40.



Sim, cabe-me editar a biografia de Aparícia, após anos de pesquisa. Por isso, auxiliado por um mecenas, alojei-me neste escritório onde tudo é desconfiança. Olham-me como zumbis, imaginando-me como o novo chefe encarregado das demissões em massa ou um terrível auditor, capaz de revelar as horas perdidas em conversas infrutíferas e litros de café.



Enquanto eles resmungam, mergulho na história de Aparícia. Estive em todos os cenários de seus roubos. Mesmo os mais impossíveis, como o do diamante Hércules, escondido em um barco-cofre em Angra dos Reis. Sei cada movimento de Aparícia. Todos os segredos de sua vida dúbia, do trânsito social à boca do inferno.



Quem a via nas altas rodas não imaginava o quão pérfida era sua personalidade. O quão astuta e diabólica sua mente e o quão bela era sua face.



Dobro-me ao peso da responsabilidade. Confesso que editar este livro é demais para um escritorzinho de romances policiais. Espero que minha mediocridade não limite uma biografia tão surpreendente.



Aparícia Djanira Lopes Veiga, nascida em Niterói no ano de 1918. Seu pai era austríaco e veio para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial. Deu à filha um nome inventado, sem qualquer relação de parentesco, obviamente para esconder o passado. Investidor nas bolsas, ganhou fortunas com o café, mas quebrou com a queda de Nova York. Aos 11 anos, Aparícia acostumara-se à boa vida. Arruinada, passou a roubar para mantê-la.



Sim, amigos. Aparícia conheceu o crime aos 11 anos e, creiam-me, já não era uma criança, mas um monstro dedicado a usar o submundo para conquistar as elites.



Em 1929, com a falência, o pai de Aparícia passou a trabalhar de porteiro em um cinema do Rio de Janeiro. E, ali, Aparícia assistiu a todos os clássicos, de Buster Keaton a Humberto Mauro.



No cinema teve sua formação. Tal qual Quixote, apaixonou-se de tal forma que perdeu o siso. Já não distinguia os limites tênues da realidade, incorporando em seu próprio caráter inúmeros personagens de Theda Bara. É importante destacar a complexidade desta transformação, quando Aparícia Dedos-Leves salta de uma pobre criança desfavorecida para uma vamp ensandecida, capaz das atitudes mais sórdidas para conquistar o high society, o jet-set.



No cinema perpetrou o primeiro golpe. Com uma série de telefonemas e artimanhas, a garotinha denunciou a sala de exibição ao fisco, oferecendo-se para comprá-la. O dinheiro? Ah, a malandra já conquistara um comprador, uma empresa paulista que há anos batalhava para entrar no mercado carioca. Em dois dias, uma fortuna foi depositada na conta de seu pai.



Julgando-se um laranja, o pai de Aparícia denunciou o depósito ao governo, disponibilizando a quantia em juízo até que a situação fosse esclarecida. Houve um intermediário, Luís de Simão Góis e Sá, proprietário da caixa postal 345 dos Correios, para onde o comprador teria enviado a corretagem. Mas, ao arrombar a caixa postal, a polícia encontrou apenas um envelope vazio.



Sim amigos, Luís de Simão Góis e Sá era apenas um dos inúmeros personagens que Aparícia, dominando as técnicas mais revolucionárias de interpretação, criou. Ela retirou o dinheiro da caixa antes que o escândalo tomasse vulto, e aplicou-o em várias corridas do campeão Burton-Clayton Master, o cavalo mais veloz do Rio de Janeiro. Com isso, dobrou a quantia em apenas uma semana.



O pior está por vir, quando saberemos o que Aparícia fez com o dinheiro.

Publicado em 11 de outubro de 2005 às 16:03 por Preto

Os passos de Aparícia











Batuco a mesa. É forma de controlar a ansiedade. Vez enquando, o batuque vira uma música imaginária, vai se desenvolvendo com arranjos até que alguém olha torto, pensando “dá para parar?”. Aí volto à realidade, o teclado sujo e amaciado – tem uma tecla que me atrapalha, a que abre o iniciar do Windows. Sempre que troco de máquina é um problema. Algumas vêm configuradas como as antigas máquinas de escrever: o til é do lado do Ç. Outras vêm com padrão internacional: o til fica lá no canto esquerdo, exigindo o shift. Tanto mudei que acostumei com ambos.



À minha volta, dois telefones. Um desejável, outro não. O desejável toca pouco, o indesejável apita o tempo todo. Ignoro, mas às vezes atendo, achando que é o desejável. A ligação, como sempre, não tem nada a ver com o que eu faço, mas o interlocutor não entende e exige uma solução que está fora da minha alçada.



Os telefones se misturam a uma papelada acumulada no canto direito. Há memorandos, um guia de endereços de 2004, manuais, gramáticas e daí para baixo, realmente não sei. Alguns papéis brancos, estão há tanto tempo neste escritório que, garanto a vocês, nunca foram lidos. Mas alguém os escreveu e está até hoje angustiado com a ausência de resposta.



À minha frente é mais complicado, porque está este computador que dificilmente me obedece. Tento minimizar o Word, ele não minimiza. Fecho o Explorer, mas ele continua lá, firme. Aperto control+alt+del: o Explorer não responde, o Word não responde e outro programa que nunca ouvi falar também não responde. E eu não respondo por mim. Aperto control+alt+del de novo, mas a máquina não reinicia. O nocaute vem a fórceps, no botão, e finalmente a tela fica escura. Quando acende, está azul e acusa um erro fatal.



Ao lado do PC estão as caixas de som, que também não funcionam de acordo. Às vezes tocam direito, às vezes chiam. No mais, oscilam em uma constante interferência de alguma rádio irreconhecível.



Como as caixas não dão no couro, trago um CD player, acomodado no lado esquerdo com alguns CDs que só eu reconheço. Há ritmos africanos, reggaetown, gangsta e sertanejo. Não ouço nenhum deles, prefiro o Richard Clayderman tocando um piano empoado.



É no lado esquerdo que estão os originais da biografia de Aparícia Dedos-Leves, a ladra que apavorou a vida burguesa nos anos 40. Olho para ele de viés, é meu trabalho mais longo, uma pesquisa pelo encardido submundo jamais revelado na história do país. Dediquei anos a reconstituir os passos de Aparícia, e agora que consegui... Estou bloqueado, arranjando desculpas esfarrapadas em minha própria mesa de trabalho para evitar sua edição.



Mais um dia se passou sem que suas páginas fossem folheadas, revisadas, conferidas, diagramadas. Enfurnei-me disfarçado neste escritório de planilhas e carimbos empoeirados e ainda não avancei uma linha para publicar tal material bombástico. Perco-me propositalmente em teclas inúteis, fabrico problemas para adiar as tarefas.



Os funcionários daqui olham-me estranho. Todos, afirmo, todos têm olheiras enormes. Sei que falam de mim no cantinho do café. Sei que a telefonista está encarregada de tocar o telefone indesejável. Sei que ninguém além de meu patrocinador – um verdadeiro mecenas, o único a acreditar no tesouro que possuo – tem o número do desejável.



Já senti essa mesma pressão antes, quando publiquei os imprescindíveis “Diários de Marluce”, encontrados acidentalmente em um porão de localidade que mantenho em segredo. Marluce, não preciso dizer pois todos a conhecem, é o Joyce do século 21.



Mas os passos de Aparícia são o que há de mais tenebroso nos abismos da sociedade, nos vãos do cotidiano, nas sombras da moral.



Bebo um café, espio os funcionários me espiando. Escarneço de sua cara de zumbi. E hesito.



Publicado em 05 de outubro de 2005 às 15:32 por Preto

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