Nem todo mundo gostou de O Elefante, de Gus Van Sant. Mas não achei ruim, há certa crueza na irracionalidade assassina dos protagonistas que o cinema nem sempre retrata assim, na bucha. Ao mesmo tempo, não mudou minha vida.
Dá para dizer o mesmo de Last Days, sobre os últimos dias de Kurt Cobain. A vantagem, aqui, é que o silêncio já usual de Van Sant ultrapassa a trilha sonora e alcança as imagens.
Imagens silenciosas? É, o lago imenso e impassível, por exemplo. Os takes das paredes de pedra da casinha dos ensaios – Kurosawa e Bergman são especialistas nisso.
Tudo contrasta com o turbilhão Cobain, paranóico e depressivo, incapaz de pronunciar uma frase inteira.
O filme não traz um rockstar com delírios de genialidade, não mostra uma morte heróica ou romântica – é seco e direto ao retratar o vazio em que a vida do rapaz se tornou.
Há uma discussão sugerida sobre o sucesso e a pressão da indústria fonográfica, mas o assunto não é aprofundado – como nada é, no filme.
Ao fugir do aprofundamento, Van Sant disse mais sobre o uso de drogas do que qualquer campanha preventiva.
Existem poréns, claro, como uma sugestão metafísica desnecessária.
No mais, o filme retrata um sujeito que não agüenta mais. Um cara que perdeu para si mesmo.
Publicado em 07 de novembro de 2005 às 16:00 por preto