Noites de Vigília

Aperitivos do Paulinho

Ando com dificuldades de encontrar um nome fixo para o blog. A saída tem sido apelar para provisórios, que também não deram muito certo.

Na falta de nome fixo, vou apelar para mais um provisório: Aperitivos do Paulinho.

Explico: o Aperitivos do Paulinho foi um dos melhores bares que eu freqüentei, e não foram poucos.

Era um tempo de fim de faculdade, e a portinha em frente ao ponto de ônibus que ia para a UEL era tentadora. No espaço em frente cabiam apenas quatro mesas. O Aperitivos do Paulinho não passava disso, mas, diante das complicações da época, era um oásis de felicidade.

Chegávamos no fim da tarde, geralmente depois de alguns curtos telefonemas ou nem isso.

No Paulinho encontrávamos, eu e o Briguet, o Osmani, o Luís, o Widson... e papo não faltava.

A cerveja era gelada ao ponto e os aperitivos preparados com capricho pela Neusa. Nossa freqüência era diária e, às vezes, acabávamos esticando para o Beco, que era ali do lado.

Foi no Paulinho que vi as estratégias mais inteligentes para se dispensar bêbados.

Um dia, durante a tarde, entrou um bebum e pediu cerveja. O Paulinho percebeu que o sujeito poderia criar confusão e serviu um guaraná quente. O bêbado fez careta e saiu xingando:

-Ô bar danado para vender cerveja ruim!

De outra, o bar já quase fechando, com a porta baixada, entrou um assassino, daqueles que faíscam os olhos. Todo mundo gelou. Caído feito um demônio, pediu pinga. O Paulinho serviu.

O sujeito bebeu, tirou a camisa e começou a mostrar as cicatrizes:
-Isto é tiro, isto também. As facadas foram nas costas.

Falava dos homens que havia matado, tomava pinga e dizia uma mandinga qualquer. Depois do terceiro copo, foi embora em paz. Eu e o Paulinho nos olhamos e resolvemos abrir mais uma. Afinal, a morte passara perto.

Foi no bar do Paulinho que eu vi que cachorro também pode ser boêmio. A Xuxa, cadela do Osmani, freqüentava o boteco mesmo sem o dono. Era comum chegar no bar e ela lá, recebendo-nos de rabo abanando.

Foi no Paulinho que convenci o Briguet de que ele havia se fantasiado de múmia com um rolo de papel higiênico; no Paulinho todo mundo se tratava por heavy; no Paulinho não tinha tristeza ou ressaca; no Paulinho ouvíamos hits antigos dos anos 70 ou programas de rock da UEL FM, para onde eventualmente ligávamos; no Paulinho o telefone era nosso também – e ligavam lá atrás da gente, uma vez que não existia celular. O Paulinho era parada obrigatória.

Uma vez, acho que um sábado, o Paulinho nos levou para a própria casa, montamos as mesas como no bar e lá permanecemos até altas horas. É, ainda hoje, de uma cordialidade tremenda. O Briguet ainda o encontra na Cantina do Nonoca. Eu o vejo menos.

Um dia, o bar do Paulinho fechou. Ficamos lá até o último minuto. E depois ficou naquela de abrir em outro lugar, deixando-nos em esperançosa melancolia. É isso aí: Aperitivos do Paulinho. Em curta temporada.

Publicado em 14 de novembro de 2005 às 11:44 por preto

Comentários

    • Bar do Paulinho...que bom que você o resgatou em minha memória...Nessa madrugada insone em que me distraio nos blogs amigos, curto a nostalgia dos bares de Londrina...Jota...Araucana...escreva mais Preto...escreva sobre todos que puder lembrar....
    • por alessandra
    • 20.Nov.2005 às 04:29 - Permalink - Reportar
    alessandra
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