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22 February 2006







Esse Pierre Boulez é dugarai.

Ontem, numa falta de enxada tremenda, assisti à Sagração da Primavera, de Stravinsky, com a Orquestra Sinfônica de Londres, coreografia original de Nijinski e regência de Pierre Boulez.

O homem manda na orquestra sem dó, seguindo tendências contemporâneas de regência - sem batuta. E manda ver nas mudanças rítmicas, uma característica marcante da obra de Stravinsky.

Teve uma época aí que andei estudando a Primeira Guerra. E, em qualquer texto que eu trombasse, havia citações à Sagração.

A estréia foi em 1913, e em tudo havia uma provocante quebra de convenções. Seja pela música revolucionária de Stravinsky, seja pelo balé anguloso - cheio de joelhos e cotovelos, coisas que a escola clássica procurava esconder - de Nijinsky, seja pela temática tribalista, do homem regresso a seus instintos básicos, da irracionalidade predominando.

Daí a volta aos ritos pagãos, a oferenda de um sacrifício ao deus da primavera. E aparece de tudo: tribos se enfrentando, cavalos em batalha, a eterna luta humana pelo domínio da natureza e pela delimitação de espaço.

A Sagração da Primavera é a dança dos instintos básicos do homem frente à morte. Nada mais contundente às vésperas da Primeira Guerra.

Mas aí, até então, eu gostava da música, apenas, porque no Brasil é quase impossível assistir a um balé desses, seja ao vivo, seja em DVD.

Santa Internet.

Consegui uma ótima versão, com boa qualidade. E fiquei impressionado com a capacidade de incluir cavalos na coreografia.

É uma cena impressionante: uma orquestra mandando ver em uma música ainda hoje atual, enquanto cavalos galopam selvagens, ninfas se preparam para morte e guerreiros se digladiam em demonstrações de força e habilidade.

A Sagração da Primavera é uma música que precisa ser assistida como um balé. A dimensão é completamente diferente do que o mero registro em áudio.

Hoje à noite vai rolar um Bela Bartók, outro bamba. Êbas.

Amanhã, mais enxada.

22 February 2006


As árvores de Londrina estão agonizando. Já não há mais como aproveitar o marketing de cidade arborizada. Elas estão desaparecendo. Seja pela sanha do comércio - já notou como elas somem diante de fachadas comerciais? -, seja pela falta de cuidados.

Ontem, no Zerão, uma árvore imensa despencou sobre a pista. Sua raiz era ridícula perto de seu porte. Parecia uma daquelas árvores de maquete, apenas fincada ali para fins estéticos, sem estrutura ou qualidade de vida.

Nossa arborização vem despencando a cada chuva. Para evitar que as calçadas quebrem - como se já não estivessem destruídas - as raízes são cortadas. Basta o solo ficar um pouco úmido para a planta vir abaixo.

Passei boa parte da minha infância subindo em árvores. Aqui em Londrina é desaconselhável. Nossas árvores-maquete já não suportam peso, não suportam vento, não suportam podas intolerantes, não suportam o homem.

Lembro da região central, quando as ruas eram de paralelepípedos, cobertas por árvores. O paralelepípedo se foi, compreensivelmente. Agora a cidade está ficando pelada.

O que se desnuda não são apenas as ruas, mas a nossa ignorância. Ficamos mais burros a cada árvore que cai.

Mas esta não foi a história de nossa colonização, derrubar árvores? O desmatamento foi tão importante para Londrina que há um sentimento geral de que as árvores não são importantes. Pior, atrapalham, sujam, incomodam.

Às favas com tamanha bobagem. Se não conseguimos conviver com formas tão básicas de vida, não me espanta a mediocridade social a que chegamos. Não preservamos nosso próprio quintal. Não preservamos a nós mesmos.

Mata Atlântica? Já era. Amazônia? Teu nome será saudade.

21 February 2006





Nunca tive pretensões políticas, nunca botei muita fé em ninguém, confesso que sempre optei pelo voto útil.

Que, lá na frente, torna-se inútil.

Nossa democracia é mentirosa; nossos políticos, estúpidos.

Não vejo, no Brasil, alguém capaz de assumir a presidência.


***

É por isso que declaro minha filiação ao PSB - Partido do Seu Barriga, que está lançando...

Chaves para presidente do Brasil!

Sim amigos, vejam o México, que beleza!

Precisamos de um presidente mexicano.

Chaves Presidente: dublado e naturalizado!

Nesse eu voto!

16 February 2006



Quem foi Radamés Gnatalli?

Por que Nelson Cavaquinho cantava tanto a morte?

Por que Luiz Tatit se preocupa tanto com a fala?

Leia em

14 February 2006

Francamente, Anacleto!



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Simular a presença de Vera. Foi a saída de Anacleto, neurótico tão convicto quanto capaz de divagar a milhas de distância entre uma frase e outra de um diálogo. Uma figura, esse Anacleto. Quem mais você conhece que ainda coleciona Futebol Cards? Quem mais tem a coleção completa dos carrinhos Matchbox? Só o Anacleto.

Mas então. Vera foi embora e Anacleto ficou naquela. Falava sozinho, simulava até brigas com a ex. No ônibus, entabulava conversas imaginárias que iam ganhando realidade. Quando percebia, estava falando em voz alta. Um louco.

Só para se ter uma idéia, Anacleto possui uma estante cheia de enfeitinhos, badulaques, coisicas à toa, mas que são arrumadas religiosamente toda manhã. E são arrumadas porque o próprio Anacleto faz questão de bagunçá-las - ah, o prazer da organização!

Um dia, na saída do cinema, Anacleto contava os tacos do piso quando trombou, literalmente, com Vera.

Pediu perdão, ajudou a moça a se levantar e, no caminho, rolou aquele olho no olho básico. Anacleto fingiu segurança, apertando Vera com disposição, e do incidente surgiu o convite para um café. Vera topou.

A conversa não teve pé nem cabeça, mas Vera enxergou algo em Anacleto, algo que só ela viu, algo que foge à compreensão, algo extraído dos terrenos irracionais. Vera se apaixonou em menos de 15 minutos.

Nesse meio tempo, Anacleto contou os palitos do paliteiro, arrumou os guardanapos de papel e leu todo o cardápio corrigindo mentalmente os erros de português. Pagou a conta com exatidão de centavos. Caso minha avó visse o Anacleto, diria: “É tantã”. Somos todos.

A coisa balançou, é importante dizer, quando ela visitou o apartamento de Anacleto e descobriu que a mãe dele vivia lá. Não, ela não morava, mas vivia lá, tinha chave e tudo, entrava a hora que dava na telha para lavar louça, roupa ou varrer o chão.

Vera ficou assim-assim. Aí percebeu que a casa era uma organização só. Os livros, por ordem alfabética. Os discos, por estilo - via-se claramente uma preferência pelo rock progressivo italiano dos anos 70.

No guarda-roupa, cada peça estava embalada por um saco plástico. E havia um sem número de luvas cirúrgicas ainda na embalagem, ordenadas por prazo de validade. Já as cápsulas de vitaminas - demorou um pouco para Vera entender - eram agrupadas por refeição.

Sem falar em lenços, gravatas, suspensórios e guarda-chuvas dispostos lado a lado, feito exposição. Na cabeceira da cama, um livro de OG Mandino: “O maior vendedor do mundo”, ao lado de um vidro de Vic VapoRub, outro de Agarol e um tubo de Hipoglós. Tudo estrategicamente ordenado.

Vera sentiu-se em um apartamento fantasma, assombrado pela mãe, que entrava no quarto sem bater na porta, abaixava o volume do som quando tocava o grupo Biglietto per L'Inferno - Anacleto dizia que era o melhor dos italianos - ou vinha da cozinha para a sala apenas para mudar o canal que o casal assistia, julgando o programa pornográfico.

A mãe entrava no apê às 4 da manhã, argumentando que precisava recarregar o formicida. Às vezes invadia o quarto do casal, de sopetão, com uma bombinha aerosol.

Aí não há paixão que resista. Vera descobriu que a chama que sentia por Anacleto andava mais para fagulha, passageira feito gripe. Tem mais: Vera era teimosa, batalhadora, mas mudava suas convicções à menor oscilação de humor. Em cinco minutos deixou de amar Anacleto.

Só não o deixava por causa da contenda com a mãe. A velha iria cantar vitória, imaginem!

Resolver fazer a coisa de modo que a coroa levasse a fama.

Foi no almoço de domingo. Macarronada à bolonhesa servida, o molho contrastando com o branco hospitalar da cozinha.

-Sluuuuurp!, fez Vera, o fio de macarrão girando até desaparecer por entre os lábios, espalhando o molho pela mesa virginal. Um horror. A mãe olhou por cima dos óculos.

-Sluuuuuurp!

-Tchu-tchu, censurou Anacleto, sugando as sílabas.

...

-Slouououououououuuuuuuuuuuurp!

Diante do exagero de Vera, uma porção de molho voou sobre a mesa, atingindo o chão desinfetado. Foi demais.

A velha começou a arfar, ah-ah, o sangue avermelhando a cabeça.

-Su-sua vaca!

Houve um princípio de quebra-pau, mãos andaram à procura de gargantas, coisas assim, mas Anacleto separou.

Então, com cara de ofendida, Vera foi batendo o toc-toc do salto escada abaixo, até o barulho se misturar com o da rua.

Anacleto não sentiu o baque de cara. Dois ou três dias depois, a solidão despencou sobre ele como um martelo.

-Aquela vagabunda não prestava, dizia a mãe, convicta.

Anacleto fingia que concordava. No entanto, a Vera virtual já o acompanhava para cima e para baixo, preenchendo-lhe os vazios da alma. Foi a única saída que encontrou para ficar com as duas.

Francamente, Anacleto!