Esse Pierre Boulez é dugarai.
Ontem, numa falta de enxada tremenda, assisti à Sagração da Primavera, de Stravinsky, com a Orquestra Sinfônica de Londres, coreografia original de Nijinski e regência de Pierre Boulez.
O homem manda na orquestra sem dó, seguindo tendências contemporâneas de regência - sem batuta. E manda ver nas mudanças rítmicas, uma característica marcante da obra de Stravinsky.
Teve uma época aí que andei estudando a Primeira Guerra. E, em qualquer texto que eu trombasse, havia citações à Sagração.
A estréia foi em 1913, e em tudo havia uma provocante quebra de convenções. Seja pela música revolucionária de Stravinsky, seja pelo balé anguloso - cheio de joelhos e cotovelos, coisas que a escola clássica procurava esconder - de Nijinsky, seja pela temática tribalista, do homem regresso a seus instintos básicos, da irracionalidade predominando.
Daí a volta aos ritos pagãos, a oferenda de um sacrifício ao deus da primavera. E aparece de tudo: tribos se enfrentando, cavalos em batalha, a eterna luta humana pelo domínio da natureza e pela delimitação de espaço.
A Sagração da Primavera é a dança dos instintos básicos do homem frente à morte. Nada mais contundente às vésperas da Primeira Guerra.
Mas aí, até então, eu gostava da música, apenas, porque no Brasil é quase impossível assistir a um balé desses, seja ao vivo, seja em DVD.
Santa Internet.
Consegui uma ótima versão, com boa qualidade. E fiquei impressionado com a capacidade de incluir cavalos na coreografia.
É uma cena impressionante: uma orquestra mandando ver em uma música ainda hoje atual, enquanto cavalos galopam selvagens, ninfas se preparam para morte e guerreiros se digladiam em demonstrações de força e habilidade.
A Sagração da Primavera é uma música que precisa ser assistida como um balé. A dimensão é completamente diferente do que o mero registro em áudio.
Hoje à noite vai rolar um Bela Bartók, outro bamba. Êbas.
Amanhã, mais enxada.