login |

***









Eu gosto de Woody Allen mesmo quando ele faz aqueles filmes mais ou menos.



Os trapaceiros , por exemplo, foi divertido, embora distante dos clássicos do diretor.



E, por afinidade musical, Poucas e boas, uma sátira inspirada no excelente guitarrista norte-americano Eddie Lang. Não bastasse o som, basicamente em estilo Chicago, ainda aparecem citações a Django Reinhardt. Mas também não era um Woody Allen em melhor forma.



Teve coisa pior: O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro chegaram à beira do pastelão que marcou seu início de carreira.



Melinda e Melinda ficou assim assim. Mas já apontava a tendência do diretor em retomar o drama.



A tendência foi consolidada em Ponto Final. Depois de tantos baixos e médios, Woody Allen reaparece com um grande filme.



**



O Oscar deu mais uma de suas mancadas ao ignorar Ponto Final. Era, disparado, o melhor filme. Melhor que Crash e Brokeback Mountain. Mas a Academia não se arriscaria a levar outra esnobada.



**



Ponto Final é um cabo de guerra entre instinto e razão. Entre construir uma carreira sólida ou mandar tudo às favas por uma garota instável. E a aleatoriedade entra em cena como a casca de banana para o escorregão fatal.



O jogador de tênis, profundamente racional, apaixona-se por uma garota impulsiva. Ambos se fundem: ela às vezes apresenta uma racionalidade surpreendente, ele perde a razão com freqüência. E vice-versa.



Essa tensão aumenta quando Allen se apodera de Dostoiévski, especialmente Crime e Castigo. É uma apropriação: não é o enredo de Dostoiévski propriamente dito, mas o clima. E toda a cena central é uma verdadeira releitura a espalhar o sofrimento e o caos.



Apesar da conduta cerebral, o tenista sabe que a aleatoriedade é inevitável: existem fatores que ele não pode controlar. Ele atua, em vão, para restringir ao máximo as surpresas.



Essa polarização fica mais explícita com os dois detetives: um é intuitivo, acha que a investigação está indo para o lado errado. Outro é racional e engole a história tal qual lhe parece.



**

No decorrer da trama, as fronteiras se misturam. Razão e instinto são extremos de um mesmo cabo. E o que é aleatório pode ser mera conseqüência.



**



O destaque vai para as árias. Fenomenal a maneira como enredo e trilha sonora se encaixam.



**



A crítica andou comentando que este Woody Allen não parece Woody Allen. Eu não sei... Falta o alter ego, a voz do diretor sempre tão presente. Também faltam as piadinhas, mais escassas.



Mas estruturas fundamentais do universo de Allen continuam lá: a paixão inesperada e avassaladora; a mãe repressora; a pressão social sobre os relacionamentos; as reviravoltas conjugais; o sexo como fonte de problemas.



Ponto Final é um Woody Allen sem os penduricalhos que andavam se repetindo. O diretor redesenhou o próprio estilo, mantendo as linhas fundamentais, mas mudando sensivelmente a narrativa. Essa reconstrução era necessária para que o drama não ficasse caricato.



**



São características de um grande autor, daqueles que gostam de relaxar com obras menores, mas que ainda têm bala na agulha.





Publicado em 29 de março de 2006 às 12:01 por Preto

***





Houve um tempo em que desemprego a 8% era escândalo nacional. Agora temos um presidente em plena campanha com desemprego a 10%. Aliáuses, quantos empregos o Lula prometeu mesmo?



**



Nunca vi um Congresso tão ruim. Ofende a opinião pública, envergonha o cidadão e ainda se julga acima das leis.



**



E ainda temos que agüentar os micos, como na sabatina da Ellen Gracie (STF) no Senado. Olha as cantadas, feitas em discursos, divulgadas hoje pela Folha de S.Paulo:



-O meu voto ainda leva em conta a beleza e o charme. Assim voto com muito prazer. (Wellington Salgado - PMDB/MG)



-Como ginecologista, aprendi a lidar de perto com as mulheres, a entender muito profundamente a sensibilidade feminina. (Mozarildo Cavalcanti - PTB/RR)



-A senhora não veio ser sabatinada, veio ser homenageada. (José Agripino - PFL/RN).



Só podem estar tirando sarro da minha cara.



**



O que valeu mesmo foi o artigo do filósofo Roberto Romano, da Unicamp, ontem, também na Folha de S.Paulo:



-Na sessão que absolveu um político do PT e outro do PFL, tanto os acusados quanto os seus defensores atacaram a moralidade (dita por eles moralismo) e a opinião pública (a qual separaram do povo), proclamando que algo contrário à lei (o caixa dois, segundo parece, se com origem particular, não é crime) seria inocente.



-A legalidade foi pisoteada com a benção do plenário. Temos o paradoxo de uma Casa de Leis na qual seus integrantes não se sujeitam à legalidade. Eles se declaram acima e à margem da lei comum.



-No plenário, vigoraram os laços de amizade, o partidarismo, contrário aos fatos e ao direito.



-Um centavo a mais ou a menos define a diferença entre a República democrática e a desordem dos privilégios autoconcedidos no poder público.



E por aí segue, só melhorando. Bravo, professor.

Publicado em 23 de março de 2006 às 12:59 por Preto

***

Provocante e gozador o título do livro Is jazz dead? (or has it moved to a new address?), do crítico britânico Stuart Nicholson. A provocação vai para o jazz americano, reforçando os apocalípticos que dizem que o cenário jazzístico nos EUA está uma melda.



O livro de Nicholson saiu nos EUA e Inglaterra, não deu as caras por aqui, mas se der, está na minha lista. A Folha de S.Paulo trouxe uma matéria, dia desses.



É claro que o jazz vem se desenvolvendo em outras paragens, e desde a década de 30 foi assim. Agora, dizer que o jazz está morto nos EUA é um exagero. Está na cara que o autor quer provocar polêmica.



Uma polêmica que deve deixar os americanos raivosos. Afinal, tem gente boa lá sim, e gente que veio depois da geração que surgiu a partir dos anos 80, esta sim um tanto conservadora. Boa, de qualidade, mas conservadora.



Para contradizer o título (não estou discutindo o conteúdo), dá para citar Bill Frisell (guitarrista bom bagarai) e Brad Mehldau (em estúdio ele é bom, ao vivo é melhor - e tem o mérito de transformar Paranoid Android num jazz consistente, muito bom).



Agora mesmo estava ouvindo o baixista Marc Johnson, num disco ao lado da esposa brasileira Eliane Elias (piano), John Scofield (guitarra), Joe Lovano (sax) e Joey Baron (bateria).



É jazz contemporâneo, novo e polpudo, com recheio e com ousadia. É jazz americano com boa saúde, sem ranços. E olha que Scofield é da geração que foi revelada nos anos 80, só que, no caso dele, estava ao lado de Miles Davis - que não se rendia a dogma algum.



***



Tá, eu sei que não sou moderninho, mas não consigo engolir o grupo Cansei de Ser Sexy.



Basta assistir ao que a Lovefoxx anda tocando no programa Music Box.



Tô fora.



Publicado em 21 de março de 2006 às 16:34 por Preto

Insônia





É quando a vida vira pesadelo. Os olhos se fecham, o corpo relaxa e o sono se aproxima até trombar com uma barreira intransponível. A insônia impõe uma vigília sem virtudes, aprisionando-nos a uma vida capenga: ficamos acordados, mas sem condições de exercer qualquer atividade. A verdadeira insônia, aquela que escraviza, rouba também as faculdades: não conseguimos escrever, não conseguimos ler, não conseguimos levantar. Ficamos no embate infrutífero, buscamos o sono à força e, quanto maior o esforço, maior a derrota. A insônia nos coloca uma pedra nas costas e nos obriga à vida.



***



Dos três que restaram do Led Zeppelin, o que mais evoluiu foi John Paul Jones. Enquanto Jimmy Page e Robert Plant ainda cultuam o cadáver, Jones conseguiu soar contemporâneo. Para ele, o Led Zeppelin realmente acabou nos anos 70. Zooma (1999) olha para frente colocando o baixo com eixo de uma sessão rítmica imponente e atual. Em alguns momentos, soa mais eletrônico do que rock. As guitarras aparecem para dar uma coloratura, mas não integram a linha de frente. Enfim, nada a ver com tiozinho lembrando os bons tempos.







Publicado em 20 de março de 2006 às 06:41 por Preto

***



A primeira música que ouvi hoje foi esta:



“Você é um negão de tirar o chapéu

Não posso dar mole senão você CRÉU”



Como diz o Paulo, é uma das rimas mais surpreendentes da música brasileira.



**



Se um motorista derrubou um presidente, por que um caseiro não derruba um ministro?



**



Andei ouvindo Iberia, de Albeniz, pianista de harmonia debussyana mas com caráter ibérico. A harmonia é tão aberta que a melodia pode passear lá dentro. Albeniz, taí uma descoberta que jogava a bola para a frente, de olho no futuro, sem perder a erudição européia.



**



Quem foi Shostakovich? No ano de seu centenário cabe perguntar. Foi um dissidente que escondeu em sua composição a revolta contra o regime stalinista ou um resignado defensor do totalitarismo?



Particularmente, estou com a primeira opção. O gênio amargo de Shostakovich sofreu o diabo na mão dos comunistas e, nesta situação, é compreensível que ele tenha cedido algumas vezes. Quem não cederia diante da morte?



**



Resuminho da vida de Schumann:



-Teve sífilis na juventude



-Apaixonou-se pela filha de seu mestre em um romance atribulado, que terminou em um casamento sem a bênção paterna



-O mercúrio usado para tratar a sífilis provocou distúrbios mentais



-Utilizou um aparelho experimental que lhe tirou os movimentos da mão esquerda, assassinando o Schumann pianista



-Conviveu com o talento da mulher, também pianista, que excursionava sozinha. Imaginem o que não rolou de fofoca.



-Schumann teve ao menos uma felicidade: foi crítico musical em seu próprio jornal, o Jornal da Música Nova.



-Tentou o suicídio jogando-se no Rio Reno e acabou morrendo no hospício.



**



Perguntinha: Por que a mídia fez um carnaval danado com U2 e Rolling Stones e praticamente gelou Oasis e Santana?



É que U2 e Stones vieram em momentos de pautas fracas, o que foi amplificado por uma idolatria por parte da mídia. Tá, juntar 1,2 milhões de pessoas em Copacabana é uma boa pauta, mas que não precisa ser noticiada ininterruptamente por 15 dias - sem contar os especiais.



Já Oasis e Santana vieram agora, em março, quando o ano começou e o governo rebola para se salvar salvando um ministro suspeito. E também porque arrastam menos gente.



Aliáuses, o encontro de Roberto Carlos e Pavarotti amanhã, em Belo Horizonte, não conseguiu metade deste carnaval.



**



Voltando aos clipes, o Franz Ferdinand tem bom gosto. E o clipe 12:51 dos Strokes, com luz fosforescente?



Publicado em 17 de março de 2006 às 14:27 por Preto

Conexões





Chopin influenciou a música brasileira por intermédio da polca e da mazurca, que foram parar nos pianos de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, originando o choro, que depois derivaria no samba.



Nos EUA, a polca e a mazurca originaram o ragtime, que deu origem ao jazz.



Nos EUA os escravos eram proibidos de batucar, então eles privilegiaram o canto e instrumentos melódicos.



No Brasil, graças à batucada, a obsessão rítmica foi maior.



Mas Pixinguinha esteve na França na década de 20, quando ragtime e jazz ainda eram siameses. A França absorveu incrivelmente cedo a influência americana. E logo, nos anos 30, apresentava um jazz próprio, quando os americanos ainda desconfiavam dessa música de origem negra/européia.



Pixinguinha voltou ao Brasil impressionado. Tanto que trouxe instrumentos estrangeiros como o saxofone e o banjo.



E passou a fotografar imitando as big bands.



Encontrou Louis Armstrong, o Pixinguinha de lá. Embora o nosso fosse um gênio também nos arranjos e na composição.



Toda essa mistura deve assustar os fãs de uma música brasileira “pura”.



Pois bem, desde que a música ocidental tem registros relativamente confiáveis, lá para a Idade Média, a mistura é o que manda.



Tanto que os modos de origem gregas ganharam influências mouras e foram adaptados ao Cantochão nos primórdios da música européia.



Ufa! Depois de toda essa mistura, não dá para apontar o rock e dizer que é um elemento “estrangeiro”, que “contamina” nossa música.



Os elementos se fundem até adquirir uma personalidade regional ou nacional. O resultado pode ser bom ou ruim. Mas trata-se de um processo legítimo e que não vem de hoje.



Então... Abaixo a xenofobia.



Publicado em 16 de março de 2006 às 23:09 por Preto

***



Nunca fui muito fã de videoclipe porque eu acho que às vezes a música piora.



É o caso, por exemplo, de Bittersweet Symphony, do Verve. A música é legal, embora não saia muito do lugar. Ainda assim, a brincadeira “sinfônica” tem seus méritos.



E o clipe é um cara que sai andando pela rua esbarrando nos outros, tipo “tô nem aí, o mundo é uma droga”. Uma bobagem tremenda.



A mesma equação (musica boa com clipe ruim) aconteceu com Last Nite, dos Strokes.



A música é boa, um hit legal. E o clipe mostra uns carinhas cheios de pose, com ar blasé. O clipe é o avesso do clima divertido da música.



E esse visual roupinha-estilizada e cabelinho-rebelde envelhece rapidinho. Basta rever o clipe daqui a alguns anos.



É só pegar, por exemplo, os clipes de heavy metal dos anos 80. O que era rebeldia virou uma caricatura só. Judas Priest, Quiet Riot e Mötley Crüe protagonizaram verdadeiras insanidades.



E o Kiss, então?



Mas acho que o campeão peso-pesado de clipe ruim é o Twisted Sister.



Aquilo sim era trash.





OK, para não ficarmos só malhando, aí vão exceções: Joy Division, Pixies, Sonic Youth, Radiohead, Lou Reed e Neil Young. Ah, o Weezer tem alguns clipes divertidos, também.



Publicado em 16 de março de 2006 às 17:01 por Preto

***



Arranjei um show do Chet Baker, 1980. Enquanto a heroína pulava na veia, ele assoprava suas dores em notas macias.



A morte habitava sua cara, em contornos cadavéricos e desdentados. Mesmo estropiado, Baker assoprava. E bem.



Vez ou outra cismava de cantar, e aí a dor ganhava forma em sua garganta, também macia e estourada. E cantava igual ao trompete, os lábios secos colados ao microfone.



20 e tantos anos de heroína já não é dor física, é dor na alma. É dor de uma vida inteira. E ressaca infinita.



Toda vez que revejo o filme acho que tinha mais música do que vida naquele corpo.



*



Noel Rosa não era um bom cantor, mas sincopava bem pra danar.



*



Acabei de ler um livro com sugestões para uma discoteca básica de MPB. E não trazia nenhum tópico sobre Jacob do Bandolim. Como é que um negócio desse consegue ser publicado?



*



Hermeto Paschoal em um programa do Japão: “Não existe silêncio. Nem quando você está em seus pensamentos mais profundos, porque a imaginação não é silêncio”.



*



Tenho uma inveja danada do adesivo ao lado do computador do Paulo: NO AULA/YES PADÓCA.



Tá certo, PADÓCA FORÉVER (tem que ter acento). E Chaves para presidente.

Publicado em 15 de março de 2006 às 16:06 por Preto

Carnaval





Está meio tarde para falar nisso, mas tudo bem. A distância ajuda a gente a enxergar melhor as coisas.



Não sou um entusiasta do carnaval, mas acho que as coisas estão de mal a pior.



O modelo carioca, aquele dos desfiles milionários para turistas estrangeiros, espalhou-se pelo país, provocando uma perda de identidade dos carnavais locais.



O lucro industrial se sobrepôs a uma festa que deveria ser espontânea e popular - e por isso ganhar uma identidade regional, que caracterize as comunidades paticipantes. O modelo carioca passa por cima de tudo isso.



Assistir aos desfiles é um sofrimento. É de uma chatice incrível. A telinha não comporta a ostentação gigantesca dos carros alegóricos e, por mais que a festa seja feita para a TV, tudo o que há é um colorido brilhante e pululante, puxado por uma música irreconhecível, uma marcha tão acelerada que faz as passistas parecerem elétricas.



E olha que sou fã de samba. Adoro samba. Mas samba mesmo, com cuíca, com ginga, com malandragem. Não esse estresse acelerado para que cinco mil pessoas cumpram tempo de avenida. Por favor.



Só há uma coisa pior: o modelo de Salvador. Um trio elétrico, uma muvuca danada e muita música ruim. E, na TV, o negócio piora tanto que se torna impossível assistir. Você vê num único carro elétrico a Ivete Sangalo, a Preta Gil e o Netinho. Ou Ivete Sangalo, Sasha e Xuxa. Ninguém merece.



Aí descobri a TV Cultura, com especiais sobre carnavais antigos ou shows trazendo Blecaute, Zé Kéti e Clementina de Jesus, entre outros. Foi a salvação.



Publicado em 07 de março de 2006 às 16:45 por Preto

© 2000-2008 tipos.com.br