Eu gosto de Woody Allen mesmo quando ele faz aqueles filmes mais ou menos.
Os trapaceiros , por exemplo, foi divertido, embora distante dos clássicos do diretor.
E, por afinidade musical,
Poucas e boas, uma sátira inspirada no excelente guitarrista norte-americano Eddie Lang. Não bastasse o som, basicamente em estilo Chicago, ainda aparecem citações a Django Reinhardt. Mas também não era um Woody Allen em melhor forma.
Teve coisa pior:
O Escorpião de Jade e
Dirigindo no Escuro chegaram à beira do pastelão que marcou seu início de carreira.
Melinda e Melinda ficou assim assim. Mas já apontava a tendência do diretor em retomar o drama.
A tendência foi consolidada em
Ponto Final. Depois de tantos baixos e médios, Woody Allen reaparece com um grande filme.
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O Oscar deu mais uma de suas mancadas ao ignorar
Ponto Final. Era, disparado, o melhor filme. Melhor que
Crash e
Brokeback Mountain. Mas a Academia não se arriscaria a levar outra esnobada.
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Ponto Final é um cabo de guerra entre instinto e razão. Entre construir uma carreira sólida ou mandar tudo às favas por uma garota instável. E a aleatoriedade entra em cena como a casca de banana para o escorregão fatal.
O jogador de tênis, profundamente racional, apaixona-se por uma garota impulsiva. Ambos se fundem: ela às vezes apresenta uma racionalidade surpreendente, ele perde a razão com freqüência. E vice-versa.
Essa tensão aumenta quando Allen se apodera de Dostoiévski, especialmente
Crime e Castigo. É uma apropriação: não é o enredo de Dostoiévski propriamente dito, mas o clima. E toda a cena central é uma verdadeira releitura a espalhar o sofrimento e o caos.
Apesar da conduta cerebral, o tenista sabe que a aleatoriedade é inevitável: existem fatores que ele não pode controlar. Ele atua, em vão, para restringir ao máximo as surpresas.
Essa polarização fica mais explícita com os dois detetives: um é intuitivo, acha que a investigação está indo para o lado errado. Outro é racional e engole a história tal qual lhe parece.
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No decorrer da trama, as fronteiras se misturam. Razão e instinto são extremos de um mesmo cabo. E o que é aleatório pode ser mera conseqüência.
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O destaque vai para as árias. Fenomenal a maneira como enredo e trilha sonora se encaixam.
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A crítica andou comentando que este Woody Allen não parece Woody Allen. Eu não sei... Falta o
alter ego, a voz do diretor sempre tão presente. Também faltam as piadinhas, mais escassas.
Mas estruturas fundamentais do universo de Allen continuam lá: a paixão inesperada e avassaladora; a mãe repressora; a pressão social sobre os relacionamentos; as reviravoltas conjugais; o sexo como fonte de problemas.
Ponto Final é um Woody Allen sem os penduricalhos que andavam se repetindo. O diretor redesenhou o próprio estilo, mantendo as linhas fundamentais, mas mudando sensivelmente a narrativa. Essa reconstrução era necessária para que o drama não ficasse caricato.
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São características de um grande autor, daqueles que gostam de relaxar com obras menores, mas que ainda têm bala na agulha.