Agora que a Bruna manda na minha vida, desenvolvi o hábito de ouvir música no computador com fone de ouvido.
Foi-se a época dos sons explodindo fartos das caixas. Agora meu prazer é solitário. Não dá nem pra comentar: Putz, olha esse piano!
Isso porque chego tarde e ela já (ou ainda) está dormindo. Mas se os olhinhos estão circulando acesos, aí ela ouve comigo.
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E o Andrew Hill? Rapaz, o cara toca um piano telegráfico, mas com um sentido de grupo parecido com o de Count Basie. O som é bem diferente, mas o grupo atua muito coeso, e o piano aparece para dar a direção ou, finalmente, enveredar para um solo – e no solo Andrew Hill lembra Monk. Ou seja, traz a junção de dois pianistas lacônicos. Monk abriu a harmonia e entortou o tempo. Basie era capaz de suingar com uma nota só.
Andrew Hill também entorta o tempo, mas é mais coletivo do que Monk, que era solitário mesmo acompanhado. Hill consegue desaparecer, manter-se às escuras, para eventualmente colocar ordem na casa. E gosta muito de sopros. Em uma das faixas, há uma estranha combinação de sax, trompete, flauta transversal e flauta doce. E o resultado é que os harmônicos acabam multiplicando a formação, como se houvesse mais instrumentos do que há. Cacilda.
Alegria. Ter filho é uma constante vontade de chorar de alegria. Não é aquele choro que vem duma vez e passa. É discreto e constante. O pai, babão, vira uma pollyana. Acha tudo lindo. Olha a calçada – linda! Olha esse tijolo quebrado – lindo! Olha o cocô de cachorro – lindo!
Você vai à feira comprar verdura e dá vontade de chorar. Música? Dá vontade de chorar. Fralda suja? Vontade de chorar. Fotografia? É batata. Cooper? Snif.
Sabe aquele sujeito que bebe demais e fica te chamando de amigão? O pai fica daquele jeito, só que sóbrio.
É isso, o pai fica um tonto. Na sala de parto, ele atrapalha. Não sabe o que fazer e acaba ficando ali, impotente. Quando o nenê nasce, ele coloca as mãos na cabeça e ensaia um pânico. Depois fica rindo.
Fiquei tão besta que saí da sala de parto com a máscara, a touca e o protetor de sapatos. Andei para lá e para cá no hospital daquele jeito. Foi preciso a mãe, ainda anestesiada, dar o toque:
-Agora pode tirar isso.
Quando finalmente o nenê vai parar em nosso colo, vem o tremor. É de verdade. Aconteceu.
-É melhor do que Bach, disse a pediatra ao ouvir o coração da minha filha.
É mesmo. Sinto dizer que toda a obra de João Sebastião não chega perto da Bruna. Sou coruja assumido.
Depois vem a icterícia. É comum e simples, mas dá trabalho. Exige banho de luz e atenção constantes para que o bebê não machuque a retina. Seguem-se as noites em claro. Uma, duas, três... Estou na sétima noite seguida sem dormir. Vou para cama às 7h30, acordo às 11h30 e fico meio bêbado o dia inteiro. Enfim o respaldo de tanta boemia serviu para alguma coisa.
E aí é que está. Não há noite em claro que atrapalhe a babação paterna. Trocar fraldas? Uma delícia. Ajudar na amamentação? Beleza! Pegar no colo? Sou o primeiro da fila.
Hoje as melhoraram. Chega de luz, já gastamos uma Itaipu inteira. Vai dar para assistir um filme (o Paulo diria “assiste sem dar mesmo”), ouvir um disco – consegui uma coleção excelente do Andrew Hill, outra do Eric Dolphy e mais uma do Don Ellis. Estão ali, quietinhas, esperando-nos.
Afinal, a Bruna também participa das audições. Quando dá. Ouvimos bastante Corelli nestes dias, tem um quê de som dos anjos sem o excesso de informação de Bach ou a agitação de Mozart.
Também ouvimos seguidas vezes o Mesapá 4, grupo do Celsinho Pacheco e do Gilsão Corsaletti.
Para dormir? João Gilberto tem se mostrado imbatível, sem sacanagem.
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** AVISO: DAQUI PRA FRENTE COMEÇA UMA LISTA DE AGRADECIMENTOS DE MATAR O GUARDA (e que se dane a pieguice):
O bom de momentos felizes são quando os amigos compartilham. E tenho a sorte de ter bons amigos. Preparem-se, porque a lista de agradecimentos é longa:
O Paulo, por exemplo, roubou minha coluna e fez uma homenagem de arrancar lágrimas. A Janaína ligou lá da Itália e fez um post maravilhoso - não deu tempo ainda de agradecer à altura, titia.
O Pafu e a Fran, apareceram no hospital de madrugada, logo depois do parto, para dar os parabéns. Estavam tão emocionados quanto eu. Ou mais. É isso aí, titio.
Duas avós batutas e maravilhosas deram uma força incrível – Marli, obrigado, valeu a viagem! Duas irmãs queridíssimas deram dicas fundamentais.
E aí o povo foi aparecendo, ligando, deixando recado. O Marcelo cedeu os charutos – a Sandra em breve será mãe. A Carla e o Lúcio também ajudaram no brinde – sem falar que a Carla ajudou pra caramba na decoração, é talentosa a mulher. Eu e o Lucio ficamos nas cervejas, mesmo.
Sidão e Roberta, sempre presentes. Luciano e Silvia também acompanharam de perto o desenrolar da barriga. Tio é o que não vai faltar.
Tia Lucy, tudo de bom para você.
O Guerra ligou de Joinville. Chicó, Rafael, Donizete, Fernando Araújo, Rubão, Karlinha Matida, Antonio Mariano Jr, Paulo e Rô, tias Rosangela e Mari, valeu mesmo o carinho de vocês.
Ricardo, Ederval e Bibão, eternos amigos de Cambé, obrigado.
Carina Pacola, Patrícia Zanin e Rogério Fischer: valeram as visitas, agora precisamos repetir a dose com menos ansiedade e mais cerveja.
Galão, li o seu recado, truta! Obrigado mesmo!
Às meninas da Embrapa, um abraço – vocês viram que coisa?
Pedro Livoratti, você sempre cobrou um nenê, está aí, camarada!
Celinha Musilli, um beijão procê. Telma, valeu.
Miltinho Dória, foi rápido, não?
Ana Marta e Vanusa, obrigado pelo carinho.
Patrícia Moreli, você quase acertou o dia. Quase!
Jackeline Erckmann, obrigado pela mensagem!
Lauriano, Alexandre e Renata, obrigadão.
Andréa Pobreza, você acertou: não vou dormir mais!
Ágda e Oscar: o Davi terá companhia para ouvir jazz!
Obrigado aos profissionais Christian Day, Daniela, Suely e Fernando.
A todo o pessoal do JL, valeu mesmo.
Obrigado a você, mamãe. Conseguimos.
Sei que estou esquecendo gente querida, mas a cabeça de pai tem idéia fixa. Só pensa num pingo de gente que está ali esperando.
Às vítimas de imperdoável esquecimento peço paciência: conforme eu for lembrando, vou adicionando nos comentários. Não fiquem chateados, nunca fui muito bom da cabeça.
Enfim, é melhor encerrar isso, tá parecendo discurso de miss ou de atriz deslumbrada que ganhou o Oscar.
Vão por mim, é melhor que Bach.