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O bar Jaiminho

 

O nome era Sabor e Ar, mas ninguém o chamava pelo trocadilho. Era bar do Jaiminho. Mas o dono era o Eduardo, que atendia com paciência as mesas enquanto a esposa ficava na cozinha, preparando pratos bons – como carneiro grelhado ou uma ótima farofa fria.

 

Eu era moleque – já fui moleque um dia – e, naquela época, tentava algum condicionamento físico no Zerão. Na verdade estava muito mais para varar as noites nos bares de plantão. Deu uma sede, uma zonzeira, um tosse provocada pelo excesso de cigarro...

 

Só sei que entrei no Salada de Fruta e pedi um suco. Olhei a casinha de madeira numa esquina do Zerão e pensei: “Aqui daria um ótimo bar”. Seis meses depois, o sonho virou realidade. O Salada de Fruta fechou e nasceu o Bar do Jaiminho.

 

Freqüentei tanto este bar – com intervalos – que daria um livro. Teve um amigo que tomou umas a mais e deu a volta no Zerão cantando a marchinha do Belinati. Teve outro que caiu de costas, com cadeira e tudo. Teve papo-cabefa, roda de violão, mas, principalmente, o Jaiminho era um ótimo bar para se tomar aquela cerveja com um amigo. Algo que não tem preço.

 

Já assisti de performances teatrais a shows no Jaiminho, mas duraram curta temporada. Logo o Jaiminho encontrou a própria personalidade, de canto reservado, nosso, com jeitão de quintal de casa. Era um bar na dele. Com boa música e pouca encheção de saco. Cerveja gelada e boa comida. Barato e com uma vista espetacular. Dava para sentar ao ar livre, embaixo das árvores.

 

Às sextas tinha a roda de choro, sempre muito boa, e que invariavelmente acabava em samba. Num dos Festivais de Teatro, os gringos baixaram por lá. O samba engrenou e a casinha de madeira quase veio abaixo. Era um tal de argentino rebolando, de boliviano pedindo Aquarela do Brasil, de Espanhol perdendo o juízo...

 

Quando o bar esvaziava, às vezes juntávamos os freqüentadores mais manjados no balcão. O papo ia até amanhecer.

 

O Bar do Jaiminho fechou. E agora parece que essas histórias foram confinadas, repentinamente, em um passado longínquo. Um bar, quando deixa de existir, leva consigo uma parte de seus freqüentadores.

 

Em troca, deixa um vazio ao qual chamamos saudade.

 

 

Publicado em 19 de setembro de 2006 às 12:40 por Preto

A tara de Nereu

 

 

Bastou uma morena apetitosa alugar o apartamento ao lado para Nereu ter idéia. Besta, diga-se de passagem. Ainda embriagado pelo sabor da genialidade, iniciou uma conversa mole com a esposa, assumindo ar tristonho e distante.

 

-Benhê, eu não estou legal.

 

-Que que foi, Nereu?

 

-Sei lá, mil coisas. Sabe, eu sinto que preciso de algo, lá no íntimo... Ah, é um sufoco danado.

 

-Ahã.

 

-Sabe quando você precisa fazer algo? Você sabe que é algo que desafia as convenções sociais, mas é um ímpeto tão forte que é difícil controlar? Tem sido uma agonia.

 

-Desembucha.

 

-Eu preciso desesperadamente transar com outra mulher. É isso, falei, pronto. É quase incontrolável, parece até uma missão. Uma certeza que eu tenho lá no fundo, sabe? Claro, seria só sexo, nada mais, apenas para extravasar tanto sentimento negativo acumulado.

 

-Pois eu também andei pensando, Nereu.

 

-Ah, é?

 

-Pensando em dar para o primeiro que eu encontrar na esquina.

 

-Opalalá. Peraê...

 

-Dar mesmo, gostoso, de soltar gritinhos. Claro, seria só sexo, nada mais, entende? Não agüento mais essa opressão sobre o feminino.

 

-Nananina, calma-lá...

 

-Mas minha vontade, mesmo, lá no fundo, quase incontrolável, é dar e depois cobrar.

 

-Como é?

 

-Cobrar, Nereu.

 

Aí bateu a idéia de que a mulher, embora sua, não era de se jogar fora. E muito menos de deixar dando sopa por aí.

 

-Tá bom, benhê, então eu pago e a gente ferve um pouquinho.

 

-Ah, Nereu, seu safadinho. Mas paga quanto?

 

-Que tal, hum..., Dezlão?

 

-Nereu, se eu for para a esquina, será pelo menos por quinhentão. Cadê minha bolsa?

 

-Tá bom, tá bom, eu pago mil e a gente não fala mais nisso.

 

 

***

 

Agora os dois estão fumando na cama. “É o momento propício para discutir a relação”, pensa ela. “Será que aquela Caracu ainda tá na geladeira?”, pensa ele, logo mudando para “ah, aquela vizinha gostosa...”.

 

-Nereu...

 

-Ãh.

 

-Você me acha gostosa?

 

-Ahã.

 

-Você pagaria milão para me comer se eu não fosse tua mulher?

 

-Ahã.

 

-Então porque que você está pensando no rabo da vizinha?

 

Nereu empalideceu. Seria algum tipo de telepatia?

 

-Que isso, benhê. Quem é meu momozinho?

 

-Momozinho o escambau. Pode ir assinando o cheque.

Publicado em 13 de setembro de 2006 às 16:12 por Preto

No tempo das perucas

 

Houve um tempo em que se usava peruca. É só pegar qualquer vídeo da Alcione nos anos 70 que é batata: ela está de peruca. Mulher de peruca foi moda. Era evidente que estava de peruca e, mesmo assim, era cult. Uma amiga lembrou da peruca de uma tia. Quando ela (a tia) resolvia sair, a peruca ia ao cabelereiro. Passava a tarde lá e, no comecinho da noite, era levada cuidadosamente – cabelo de peruca quando desmancha deve ser brabo - até à casa da dona em um inacreditável suporte de peruca feito de isopor. Era um suporte em forma de cabeça, mas sem feições, feito para abrigar a peruca empetecada.

Devia ser um perigo transportar a peruca assim, no tempo, em uma frágil cabeça de isopor. E se chovesse? E se ventasse? Sem falar que, ao ver a peruca tinindo na esquina, o povo iniciava o diz-que-diz-que:

-Fulana vai sair.

-Ih, hoje tem!

 

Esse transporte dava uma bandeira danada. Permitia que o penteado fosse visto sem a cabeça para a qual foi projetado, gerando especulação. Os vizinhos de língua afiada antecipavam até a roupa que seria usada, após uma breve análise do penteado e do volume de laquê. Afinal, laquê é do tempo da peruca (Crush é do tempo da peruca). Assim, numa espiada técnica, os vizinhos podiam sentenciar:

-Está penteada para o lado, ela voltou para o canalha do Juvenal.

 

Peruca também tinha um efeito danado em filme que terminava em briga de mulher. Permitia-se rasgar os vestidos, borrar a maquiagem. Mas a humilhação suprema era ter a peruca arrancada da cabeça, revelando a intimidade sofrível do cabelo verdadeiro. Arrancar uma peruca era ganhar, de imediato, uma inimiga vitalícia.

 

Trata-se de outro daqueles ícones do passado que desapareceram, como o linotipo, o sujeito que vendia desentupidores de boca de fogão, o padeiro que entregava pão em casa, os Kikos Marinhos, o Mandiopã. Peruca lembra Gordini e Lambretta. Peruca lembra mulher fumando com piteira. Hoje, até onde minha míope cultura fashion permite apreciar, a peruca já era.

 

**

 

Homem usava peruca para disfarçar a careca. E, neste caso, a peruca precisava atingir o estágio quase impossível da discrição. Na maioria das vezes, o sujeito parecia um careca de peruca, o que é pior do que ser simplesmente careca. Afinal, careca é normal. Mas careca disfarçado é engraçado. A peruca traz um inevitável acento brega. O Zacarias, dos Trapalhões, usava peruca. Silvio Santos, que posou careca para a capa de uma revista, levou fama de que usava peruca.

 

No perfil sobre Frank Sinatra, Truman Capote revela que o cantor também usava peruca, cuidadosamente instalada. Não sei se acredito completamente nesta história. Mas, se for verdade, Sinatrão era um mestre da peruca. Talvez o único homem a usá-la com perfeição. 

 

**

 

Mas não pensemos nós que a peruca está confinada ao baú dos velhos tempos. Se o sapato plataforma e a boca de sino voltaram, nada mais causará espanto. Até os cílios postiços – uma espécie de peruca dos olhos – retornaram com força total. Aliás, outro dia eu vi um colocador de cílios postiços, algo semelhante a um instrumento de tortura medieval.

 

Enfim, se até os cílios postiços voltaram, quem dirá as perucas. Nesse dia, então, as antigas cabelereiras, as únicas a guardar os segredos de um bom trato na peruca, reinarão absolutas, subjugando o universo dos emperucados.

 

P.S.: Rezo de pé junto para que a antiga gola cacharrel repouse no mais profundo abismo do esquecimento. Pode voltar o terno xadrez, o sapato dockside e a calça de elástico da OP. Mas a cacharrel não. Por favor.

Publicado em 05 de setembro de 2006 às 17:20 por Preto

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