Cochilos
Um artigo de Charlotte Higgins no Guardian levantou histórias de quem não agüenta uma sala escura e cai no sono. Higgins declara ter sobrevivido às 16 horas de apresentação do Anel dos Nibelungos, de Wagner, sem qualquer cochilo. Mas confessa que, eventualmente, a coisa torna-se incontrolável.
Eu concordo. Tenho uma insônia lascada mas, dependendo do programa, basta as luzes se apagarem para a cadeira ficar confortável demais e o mundo se enevoar rumo aos sonhos.
Teve um longa da série Jornada nas Estrelas, por exemplo, do qual não me recordo uma cena. Dormi logo no início e só acordei nos créditos. Isso também aconteceu com o Drácula de Bram Stoker, do Coppola, aclamadíssimo na época, mas insosso para quem não gosta de papo de vampiros.
A mesma coisa ocorreu com Matrix. O primeiro, que dizem ser o melhor. Estava lá aquela lenga-lenga de pílula vermelha ou azul. Ali eu apaguei, mas não dormi direto, tive chance de ver os tiroteios – perdi o enredo e até hoje não entendo como tanta pretensão descambou para a pancadaria. Mas prefiro a ignorância a rever a interpretação de Keanu Reeves.
Também acontece em concertos – em um show de jazz, chatíssimo – e olha que eu gosto do gênero –, o sujeito emendou um solo longo e veloz, mas cuja profundidade não ultrapassava uma lâmina d´água. Dali pra frente, dormi.
O problema de cochilar nesses lugares é que ainda nos resta uma fresta de consciência. É ela que nos mantêm com o pescoço rígido, que nos faz disfarçar a pescada como se procurássemos algo. Esse rastro de lucidez é uma corda bamba: cochilamos disfarçadamente (é o que achamos) sem poder roncar ou pender a cabeça. É como se dormíssemos em pé, feito cavalo.
Ainda assim não hesito quando o programa revela-se a maior roubada: cochilar é melhor.