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Estava lá, nos fundos da gaveta, o envelope amarelado. O selo integrava uma série sobre frutas brasileiras e estampava um coco.
Dobrar uma carta, antigamente (no tempo em que falávamos putzgrila), era uma arte. Cada correspondência trazia um detalhe, nem que fosse a ponta do papel estrategicamente virada em cima do cabeçalho.
Esta, em minhas mãos trêmulas, formava delicadamente um V. Tanto que foi difícil abri-la sem rasgar a folha.
Era direta: “Se nos amamos feito dois pagãos, meus seios ainda estão nas suas mãos” (era moda escrever usando trechos de canções).
Fiquei imaginando que, se eu era moleque, os tais seios deveriam ser demais.
“Se na bagunça do teu coração, meu sangue errou de veia e se perdeu”. Tadinha, estava arruinada, a garota. Eu não prestava.
A carta seguia: “Casal igual a nós, de entrega e de abandono, de guerra e paz, contras e prós...” era fã do Chico, a moça. Quer dizer, todo mundo era fã do Chico.
“Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar. E me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso... Pra mostrar que ainda sou tua”.
Complicada, hein? Deve ter sido traída.
Aí caiu a ficha (naquele tempo os orelhões usavam peças de chumbo chamadas fichas, que eram derretidas e usadas em um jogo chamado fliperama).
Mas peralá. “Nosso lar?” Eu nem tinha 18 anos. E que coisa grudenta é essa de provar que ainda era minha? E que Mané me adorar pelo avesso?
“Mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar, nem vou lhe cobrar pelo seu estrago... Meu peito tão dilacerado”
Caçarola...
Corri os olhos para ver a autora, e estava traçado em letra raivosa (letra de carta era que nem balão de quadrinho, trazia sentimento):
“sempre sua, Vitória”.
Mas quem catza é Vitória?
Bradock era um pentelho. Ao contrário do que sugeria o nome, tratava-se de um pinscher minúsculo, com latido ardido. Quando as crianças caíam na piscina, ele girava em torno, como que agonizado pelas brincadeiras na água. Parecia uma formiga. Andava como se não pisasse o chão.
Mas, à boca pequena, convenhamos, Bradock era um chato.
Tinha uma tara por canelas – principalmente masculinas –, mas não manifestava a paixão logo de cara. Disfarçava, dava umas voltas, oferecia carinho e, quando a confiança era conquistada, tchuf! Grudava de forma que os donos não vissem e a visita caísse em constrangimento.
Fazia cara de piedade quando saía o churrasco. E, se algum coitado caísse no truque, era importunado à exaustão.
Se olhássemos bem, dava para perceber que Bradock tinha uma costela quebrada, formando uma ponta sob a pele. Resultado de um acidente: caiu do colo quando bebê. Mas a conseqüência maior, talvez, tenha sido neurológica. Bradock era doidinho.
A chatice era tanta que a mãe das crianças desejou-lhe secretamente a morte. E, nesse quesito, Bradock contava com as sobrevidas de um gato.
Certa vez, foi atropelado. A roda passou em cima de seu corpo esquelético e... Bradock ficou estropiado, doente, fodido. E sobreviveu. Sumiu, voltou. Apanhou de cachorro grande, foi atropelado de novo... E nada de Bradock morrer.
Até que as crianças viraram adultos e passaram a ignorar as artimanhas do cachorrinho. Bradock já não corria mais em volta da piscina, já não atacava canelas incautas, já não implorava por churrasco.
Antes que a tristeza absoluta desabasse sobre ele, foi atropelado novamente e, enfim, como um herói, aceitou a morte. A casa ficou mais triste, as brincadeiras na piscina perderam a graça e até o churrasco ficou chocho. Bradock era tão chato que, depois de morto, fazia falta.
Ressuscito o blog graças a uma revelação de Paulo Briguet capaz de estremecer as bases da arte universal. Não consegui gravar e muito menos tenho testemunhas. Mas eis o relato, mais ou menos como se deu:
Em 1981 eu fui para um acampamento da AABB, em São Paulo, e tocava algumas músicas ao violão. Tinha umas do Jessé, mas eu tocava principalmente uma do Oswaldo Montenegro, o que levou o pessoal a me apelidar de Montenegro. Depois, ficou abreviado: Monte.
Eis que, ainda garoto, Paulo Briguet já trazia o germe da ártchi nas veias.
Não é surpreendente, portanto, o sucesso obtido no teatro, pouco depois, com o grupo Cromossomos e a peça Dádiva da Dívida da Vida, também abreviada para Dádiva da Vida. Na época, a peça não tinha classificação. Hoje reconhecemos a sua atualidade: era uma instalação cênica contemporânea primitivista surrealista niilista – com direito a ceroulas e maquiagem.
Mais uma das ousadias do nosso Paulinho. Ôoops, Monte.