Estava lá, nos fundos da gaveta, o envelope amarelado. O selo integrava uma série sobre frutas brasileiras e estampava um coco.
Dobrar uma carta, antigamente (no tempo em que falávamos putzgrila), era uma arte. Cada correspondência trazia um detalhe, nem que fosse a ponta do papel estrategicamente virada em cima do cabeçalho.
Esta, em minhas mãos trêmulas, formava delicadamente um V. Tanto que foi difícil abri-la sem rasgar a folha.
Era direta: “Se nos amamos feito dois pagãos, meus seios ainda estão nas suas mãos” (era moda escrever usando trechos de canções).
Fiquei imaginando que, se eu era moleque, os tais seios deveriam ser demais.
“Se na bagunça do teu coração, meu sangue errou de veia e se perdeu”. Tadinha, estava arruinada, a garota. Eu não prestava.
A carta seguia: “Casal igual a nós, de entrega e de abandono, de guerra e paz, contras e prós...” era fã do Chico, a moça. Quer dizer, todo mundo era fã do Chico.
“Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar. E me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso... Pra mostrar que ainda sou tua”.
Complicada, hein? Deve ter sido traída.
Aí caiu a ficha (naquele tempo os orelhões usavam peças de chumbo chamadas fichas, que eram derretidas e usadas em um jogo chamado fliperama).
Mas peralá. “Nosso lar?” Eu nem tinha 18 anos. E que coisa grudenta é essa de provar que ainda era minha? E que Mané me adorar pelo avesso?
“Mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar, nem vou lhe cobrar pelo seu estrago... Meu peito tão dilacerado”
Caçarola...
Corri os olhos para ver a autora, e estava traçado em letra raivosa (letra de carta era que nem balão de quadrinho, trazia sentimento):
“sempre sua, Vitória”.
Mas quem catza é Vitória?
Publicado em 30 de março de 2007 às 14:37 por preto