Noites de Vigília

Orlando Moraes, o Orlandão

Na primeira vez que encontrei o Orlandão, eu era sub-editor (cargo que já não existe) do Jornal do Paraná, uma editoria que circulava aos domingos na Folha de Londrina, em 1991. A informatização ainda não havia chegado, trabalhávamos com laudas amareladas.

Levei a primeira matéria editada para o diagramador. Em uma mesa enorme, cheia de réguas e diagramas em paicas, sentava-se um sujeito enorme, de camisa branca, bigode e óculos que eu não sabia se eram escuros ou de grau.
Ele suspirou fundo e falou calmamente:

-Estourou em duas linhas.

Hoje é mole cortar duas linhas. Mas, no papel, o corte não era tão simples. Enquanto eu pensava em reescrever toda a matéria, o Orlandão pegou uma régua e rasgou a lauda, cortando as duas últimas frases.

-Agora cabe.

***

O Orlandão gostava de tomar cerveja, o meu esporte predileto na época. Acabamos nos encontrando em churrascos, rodas de violão. Um dia, eu tocava em uma mesa e o bar já estava fechando.

-Vamos lá para casa, disse o Orlandão.

Antes que os engraçadinhos pensem coisa, é melhor explicar que, quando bebíamos, não parávamos antes que a manhã desse as caras.
E fomos, a tropa toda, para a casa do Orlandão.

Ele tinha duas geladeiras: uma normal, outra cheia de cerveja – Antarctica, a mais forte da era pré-Ambev. A Teresa, esposa do Orlandão, foi para a cozinha e logo um cheiro bom anunciava os belisquetes.
Saímos de lá por volta do meio-dia.

***

Daí em diante, engrenamos uma boemia braba. Falávamos muita besteira e, eventualmente, simulávamos uma briga:

-vem!, gritávamos, com os punhos ameaçadores.

Ninguém era louco de brigar com o Orlandão.

***

Um dia, ainda na Folha, eu tinha uma bela página em P&B para fechar, com uma exposição de fotos. A matéria começava com um selo, uma borboleta ou coisa assim. E fiquei em dúvida: a página, na verdade, era cor. Mas seria publicada em P&B por causa das fotos. Ou seja, eu estava perdendo um recurso que, na época, era importante. Veio o Orlandão e sugeriu colorir apenas o selo, a borboleta. Assim, aproveitávamos o recurso da cor sem prejudicar as fotos, uma solução sutil e criativa. Paulo está certo, o Orlandão era um artista de jornal.

***

Os anos se passaram, acabamos nos afastando. A última vez que o vi, foi melancólico. Orlandão estava sozinho no Bar do Paulista, eu estava indo para o Zerão. Acenamos de longe, apenas.

Orlandão morreu aos 48 anos, em Brasília.

Publicado em 27 de agosto de 2007 às 13:36 por preto

Comentários

  1. pbriguet
    • Bela homenagem ao Landão, Ranulfo. Quer dizer que você é do tempo da lauda e das Lexington? Cacildes...
    • por Fischer
    • 27.Ago.2007 às 16:27 - Permalink - Reportar
    Fischer
    • Bradock e Orlandão. Pelas memórias do Preto sinto uma grande tristeza de não tê-los conhecido. Aliás, excepcional deve ser conhecer o Preto, que extrai sentimentos tão nobres de quem o lê.
    • por jayjayrj
    • 28.Ago.2007 às 18:56 - Permalink - Reportar
    jayjayrj
    • Primeira vez por aqui e gostei muito do teu blog!
    • por Spleen
    • 30.Ago.2007 às 09:05 - Permalink - Reportar
    Spleen
    • Paulo, teu perfil deu mais certo. Rogério, eu usava uma máquina lá na redação que não sei não se não era a tua... O "S" enroscava? Jayjayrj, obrigado pelo elogio, eu estava realmente triste pela morte do Orlandão. Spleen, apareça de novo, vou tentar atualizar mais vezes. Abraços a todos.
    • por preto
    • 01.Set.2007 às 00:24 - Permalink - Reportar
    preto
    • O "S" enroscava? Não. O "S" pulava, cara. Saltava longe, léguas de distância, escondia-se entre cadeiras, mesas. Isso quando não era chutado inadvertidamente por um passante e demorava-se décadas para localizá-lo. Aí o dedo da mão esquerda responsável por teclá-lo inchava por ser obrigado a bater repetidamente naquele ferrinho que ficava à mostra. Um horror! Mas era bão...
    • por Fischer
    • 10.Set.2007 às 15:52 - Permalink - Reportar
    Fischer
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