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11 February 2008

Kind of Blue em livro e disco


Ouça que vale a pena


O 30th Street Studio da Columbia era uma antiga igreja ortodoxa grega, com um madeiramento interno e um pé direito imenso. Era um estúdio com personalidade. Por isso, quando Miles Davis chegou lá em 2 de março de 1959, os microfones estavam mais altos do que o habitual. Tratava-se de uma estratégia para captar o ambiente peculiar do local.

Miles chegou para gravar temas que ainda não estavam prontos – eram mais idéias do que música – para um disco que ainda não tinha nome. Estava acompanhado de Bill Evans e Wynton Kelly (piano), Cannonball Adderley e John Coltrane (saxes), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria).
Davis estava de bom humor, embora a cara de mau aparecesse invariavelmente para repreender o grupo. Ali mesmo as músicas tomaram forma, de improviso. O produtor Irving Townsend anunciou:

-Está rodando... Vamos lá: CO 62290, sem título, take 1...

Ninguém sabia, mas a história do jazz não seria mais a mesma. Começava ali o mitológico Kind of Blue, o disco que mudou os rumos da música instrumental e ainda hoje, 50 anos depois, intriga e impressiona. Tudo isso está em Kind of Blue – A história da obra-prima de Miles Davis, de Ashley Kahn, lançado pela Barracuda (252 páginas, R$ 43).

Kahn fez um trabalho de fôlego – não é para menos que Jimmy Cobb assina o prefácio. Além de narrar minuciosamente as duas sessões de gravação, o autor também explica os caminhos percorridos por Davis para chegar ao jazz modal, à formação do grupo, ao desenvolvimento dos temas e a repercussão do álbum.
Leia o livro ouvindo o disco. Será uma redescoberta. Por mais que Kind of Blue esteja em sua memória, novos detalhes virão à tona e o álbum se tornará ainda mais interessante.

Dizem – e isso não está no livro – que tanto Davis quanto Coltrane surrupiaram temas de Ahmad Jamal para o jazz modal. A importância de Jamal é destacada no texto de Kahn, mas o rumo que a música tomou é extraordinário.

Cansado da complexidade harmônica do bebop, Davis voltou-se a escalas de origem grega – filtradas pela Idade Média – para construir temas fluentes em seqüências harmônicas mais simples. Kind of Blue é econômico, mas complexo e profundo em riqueza musical. Tudo isso feito por um ex-junkie que insistiu em tocar o trompete no mesmo registro da voz humana, eliminando excessos.

O resultado está aí: ouça Kind of Blue e leia o livro. Um melhora o outro. E constate que 50 anos não envelheceram uma obra-prima.

07 February 2008

Coisa de bêbado


Esta é uma história ainda enevoada pela vodca barata, portanto não liguem se alguns fatos ficarem meio soltos.

Nos anos 80, costumávamos beber na praça Nishinomiya, em frente ao Aeroporto, em Londrina. Numa noitada dessas, eu já estava alto o suficiente para ter idéia de jerico:

-Vamos atravessar o Cemitério São Pedro?

Como ninguém estava sóbrio, a aceitação foi unânime.

Cabe ressaltar aqui que parte da história foi reforçada pelo amigo Rogério, que estava no momento do crime – relembramos juntos há poucos dias, tentando esclarecer algumas lacunas.

***

Chegamos na João Cândido em dois carros e estacionamos ao lado do muro do cemitério. Um amigo estava realmente mal. Fizemos “escadinha” com as mãos e ele subiu com a facilidade dos embriagados – e com a mesma destreza caiu de costas, com os pés para cima, desaparecendo naquele baque abafado de corpo que despenca. Desmaiou no ato, dentro do cemitério.

Pulamos então eu e o Gordo e encontramos o sujeito em posição de bêbado que caiu. O Gordo fazia medicina, mas não estava preocupado com primeiros socorros. Apenas fazia piadas – tudo estava engraçado para ele.

Deitamos o corpo em cima de um túmulo e ficamos matutando como tirá-lo dali.

Lembro perfeitamente quando, sob argumento de “acordar o bebum na marra”, o Gordo tirou o sapato e esfregou na cara do desmaiado, que reagiu, diante de tamanha ameaça, com um resmungo:

-Afgâsdfnasd... Sshshs...

Foi só. E voltou a apagar na penumbra, recostado em um túmulo de azulejo marrom.

O Gordo ria, completamente despreocupado. Parecia uma brincadeira na hora do recreio. Eu fiquei desesperado. E se o vigia aparecesse? E se a polícia chegasse? E se uma alma penada viesse reivindicar o moribundo?

Houve uma conferência rápida entre os bêbados dos dois lados do muro.

-O cara desmaiou!

-Ai, caramba, como é que a gente vai tirar ele daí?

-Ele tá mal!

-Vixe!

Após uma discussão prolongada pelo raciocínio confuso, decidimos agir. Dois ficaram do lado de fora do cemitério, para pegar o corpo. Com quatro marmanjos do lado de dentro, conseguimos colocar o desmaiado em cima do muro e descê-lo lentamente, de cabeça para baixo, até o chão – fico imaginando se alguém viu uma coisa dessas.

Ajudei a dirigir o carro da vítima, deixamos o rapaz na porta do apartamento, apertamos a campainha e caímos fora. Aí as lembranças emperram e não sei se o susto interrompeu ou acentuou a bebedeira.

A sorte dos bêbados protegeu nosso amigo, que não se machucou.

E claro, aprontamos inúmeras outras depois dessa, mas garanto que o espírito de porco que regia nossa turma ficou bem mais domesticado.

Ah, ainda bem que não existia Rone naquela época.