Kind of Blue em livro e disco

O 30th Street Studio da Columbia era uma antiga igreja ortodoxa grega, com um madeiramento interno e um pé direito imenso. Era um estúdio com personalidade. Por isso, quando Miles Davis chegou lá em 2 de março de 1959, os microfones estavam mais altos do que o habitual. Tratava-se de uma estratégia para captar o ambiente peculiar do local.
Miles chegou para gravar temas que ainda não estavam prontos – eram mais idéias do que música – para um disco que ainda não tinha nome. Estava acompanhado de Bill Evans e Wynton Kelly (piano), Cannonball Adderley e John Coltrane (saxes), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria).
Davis estava de bom humor, embora a cara de mau aparecesse invariavelmente para repreender o grupo. Ali mesmo as músicas tomaram forma, de improviso. O produtor Irving Townsend anunciou:
-Está rodando... Vamos lá: CO 62290, sem título, take 1...
Ninguém sabia, mas a história do jazz não seria mais a mesma. Começava ali o mitológico Kind of Blue, o disco que mudou os rumos da música instrumental e ainda hoje, 50 anos depois, intriga e impressiona. Tudo isso está em Kind of Blue – A história da obra-prima de Miles Davis, de Ashley Kahn, lançado pela Barracuda (252 páginas, R$ 43).
Kahn fez um trabalho de fôlego – não é para menos que Jimmy Cobb assina o prefácio. Além de narrar minuciosamente as duas sessões de gravação, o autor também explica os caminhos percorridos por Davis para chegar ao jazz modal, à formação do grupo, ao desenvolvimento dos temas e a repercussão do álbum.
Leia o livro ouvindo o disco. Será uma redescoberta. Por mais que Kind of Blue esteja em sua memória, novos detalhes virão à tona e o álbum se tornará ainda mais interessante.
Dizem – e isso não está no livro – que tanto Davis quanto Coltrane surrupiaram temas de Ahmad Jamal para o jazz modal. A importância de Jamal é destacada no texto de Kahn, mas o rumo que a música tomou é extraordinário.
Cansado da complexidade harmônica do bebop, Davis voltou-se a escalas de origem grega – filtradas pela Idade Média – para construir temas fluentes em seqüências harmônicas mais simples. Kind of Blue é econômico, mas complexo e profundo em riqueza musical. Tudo isso feito por um ex-junkie que insistiu em tocar o trompete no mesmo registro da voz humana, eliminando excessos.
O resultado está aí: ouça Kind of Blue e leia o livro. Um melhora o outro. E constate que 50 anos não envelheceram uma obra-prima.