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07 February 2008

Coisa de bêbado


Esta é uma história ainda enevoada pela vodca barata, portanto não liguem se alguns fatos ficarem meio soltos.

Nos anos 80, costumávamos beber na praça Nishinomiya, em frente ao Aeroporto, em Londrina. Numa noitada dessas, eu já estava alto o suficiente para ter idéia de jerico:

-Vamos atravessar o Cemitério São Pedro?

Como ninguém estava sóbrio, a aceitação foi unânime.

Cabe ressaltar aqui que parte da história foi reforçada pelo amigo Rogério, que estava no momento do crime – relembramos juntos há poucos dias, tentando esclarecer algumas lacunas.

***

Chegamos na João Cândido em dois carros e estacionamos ao lado do muro do cemitério. Um amigo estava realmente mal. Fizemos “escadinha” com as mãos e ele subiu com a facilidade dos embriagados – e com a mesma destreza caiu de costas, com os pés para cima, desaparecendo naquele baque abafado de corpo que despenca. Desmaiou no ato, dentro do cemitério.

Pulamos então eu e o Gordo e encontramos o sujeito em posição de bêbado que caiu. O Gordo fazia medicina, mas não estava preocupado com primeiros socorros. Apenas fazia piadas – tudo estava engraçado para ele.

Deitamos o corpo em cima de um túmulo e ficamos matutando como tirá-lo dali.

Lembro perfeitamente quando, sob argumento de “acordar o bebum na marra”, o Gordo tirou o sapato e esfregou na cara do desmaiado, que reagiu, diante de tamanha ameaça, com um resmungo:

-Afgâsdfnasd... Sshshs...

Foi só. E voltou a apagar na penumbra, recostado em um túmulo de azulejo marrom.

O Gordo ria, completamente despreocupado. Parecia uma brincadeira na hora do recreio. Eu fiquei desesperado. E se o vigia aparecesse? E se a polícia chegasse? E se uma alma penada viesse reivindicar o moribundo?

Houve uma conferência rápida entre os bêbados dos dois lados do muro.

-O cara desmaiou!

-Ai, caramba, como é que a gente vai tirar ele daí?

-Ele tá mal!

-Vixe!

Após uma discussão prolongada pelo raciocínio confuso, decidimos agir. Dois ficaram do lado de fora do cemitério, para pegar o corpo. Com quatro marmanjos do lado de dentro, conseguimos colocar o desmaiado em cima do muro e descê-lo lentamente, de cabeça para baixo, até o chão – fico imaginando se alguém viu uma coisa dessas.

Ajudei a dirigir o carro da vítima, deixamos o rapaz na porta do apartamento, apertamos a campainha e caímos fora. Aí as lembranças emperram e não sei se o susto interrompeu ou acentuou a bebedeira.

A sorte dos bêbados protegeu nosso amigo, que não se machucou.

E claro, aprontamos inúmeras outras depois dessa, mas garanto que o espírito de porco que regia nossa turma ficou bem mais domesticado.

Ah, ainda bem que não existia Rone naquela época.


Comments

5 comments
pgalvez [desloguilson] wrote:

Putz. Nos anos 90 fazíamos maluquices parecidas...

07 February 2008 at 03:03 PM
Flávio [desloguilson] wrote:

Mas nada como nos nos 80, quando podíamos atravessar a pé, de madrugada e de ponta a ponta a região central de Londrina sem sofrer sequer um único ataque de bandidos. Hoje em dia, se você resolver ir a pé do Centro para o Valeco é capaz de chegar lá pelado porque tem um meliante em cada esquina. Quando você não tem grana, eles levam seu tênis, sua calça, levam qualquer coisa. E não é exagero, não. Tá foda essa cidade. E já me contaram que há uma onda de estupros por aí, meninas que andam pela noite e são vítimas de caras que param o carro, apontam uma arma para a menina e obrigam ela a entrar e depois a levam para um mato. Os tempos mudaram...

08 February 2008 at 01:14 AM
pafu wrote:

Ótima essa Preto, sorte que na época eu morava em São Paulo e não participei da balbúrdia, senão o amigo cadáver poderia ter sido o próprio comentarista aqui!

08 February 2008 at 05:53 PM
mayelle [desloguilson] wrote:

legal não vim todo mais parece ser legal!!!!

07 June 2008 at 09:54 PM
Fischer [desloguilson] wrote:

Excelente história, Preto, excelente. Parabéns também pelo Tomas.
Grande abraço.

25 June 2008 at 02:42 PM

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