Bati o olho na Folhapress e estava lá: Jimmy Smith morreu. O jazz ficou um acorde mais triste. Era paixão antiga, do tempo em que eu ainda era fanático por rock e estava com um amigo em um sebo de Curitiba, fuçando alguns discos. De repente ele tirou, lá do fundo da prateleira, um Jimmy Smith com uma capa bem brega, cheia de estrelas. Perguntou se eu conhecia, neguei, acrescentando: “Pela capa, não sei não”. Acabou levando.
Ouvimos alucinadamente, até gravei uma fita K7 (era assim, na época) que rodou muito. Virei fã, e nem gostava de jazz. Os anos se passaram com a cotidiana dificuldade em encontrar alguns títulos no Brasil.
Recentemente, consegui um disco de Jimmy Smith e voltei a escutá-lo. É perigoso, tem coisas que você ouve na adolescência e que se tornam decepcionantes depois. Mas não ocorreu com Smith.
Natural da Pensilvânia, teve berço no piano, mas se apaixonou pelo órgão Hammond. E com ele foi para o jazz, coisa rara na década de 50. Fez escola, porque trazia muito groove, misturando rythm & blues e até rock´n´roll. Tinha um fraseado incrível, prolongando algumas notas para ressaltar o timbre característico que tirava do instrumento. A sessão rítmica, com a mão esquerda, era incrivelmente sincopada, provocando um suingue diferente em um cenário de jazz que estava intelectualizado demais para temas dançantes. Ainda assim influenciou o pessoal do hard-bop.
Hoje vou chegar em casa e ligar novamente seu som sentimental, carregado de blue-notes e que andou escorregando no fim de carreira, gravando temas esquecíveis em performances desleixadas. Mas a essência de sua obra é empolgante, pega na veia.
Não estarei na QSL, mas proponho um brinde a Jimmy Smith. Em casa, farei o meu. Afinal, em tempos de canhestros comerciais, contundência e personalidade fazem falta.
Publicado em 10 de fevereiro de 2005 às 16:21 por preto