Noites de Vigília

Treta

A quebrada parece uma ladeira sem fim. Quando a estrada de terra ameaça uma curva para a esquerda, entre as casas apinhadas de tijolo bruto, explícito, aparece um degrau e, ao fundo, uma porta de madeira presa com corrente e cadeado. Ali mora um sujeito que sempre se equilibrou na gangorra da sobrevivência.

Durante uma época, pendeu para lá. Pudera, acordou e estavam, estatelados em frente ao barraco, dois cadáveres. De criança saltou pro crime, meteu-se a roubar toca-fita, abraçou o crack. Fez que fez. Parou na cadeia, claro. Apanhou, levou cana de adulto.

Aí endireitou. Virou escritor, cantou as experiências e largou a bandidagem. Agora trabalha para que essa transformação aconteça nos outros.

Mas quebrada é quebrada e treta antiga não tem data: termina em sangue. Um garoto lembrou-se de uma briga de infância. Resolveu cobrar a parada numa festa, de cara cheia, quase uma década depois. Dois tiros pipocaram. Mesmo baleado, escapuliu pelo mato. Agora é que são elas: ou mata o agressor, ou sai da quebrada, abandonando amigos e o barraco que conquistou na base do trabalho.

Às vezes a vida é nadar contra um tsunami.

Publicado em 12 de fevereiro de 2005 às 11:28 por preto

Comentários

    • Faltava mesmo você por aqui, amigo Preto. Faltava mesmo.
    • por Marcelo Rocha
    • 12.Fev.2005 às 12:12 - Permalink - Reportar
    Marcelo Rocha
    • Grande Marcelo Rocha! Precisamos tomar aquela urgente e botar a conversa em dia, rapá!
    • por preto
    • 12.Fev.2005 às 12:38 - Permalink - Reportar
    preto
    • sviatoslav richter - puta pianista! vc tem alguma gravação com ele? em vhs ou dvd?
    • por grota
    • 13.Fev.2005 às 16:53 - Permalink - Reportar
    grota
  1. janavila
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!