A quebrada parece uma ladeira sem fim. Quando a estrada de terra ameaça uma curva para a esquerda, entre as casas apinhadas de tijolo bruto, explícito, aparece um degrau e, ao fundo, uma porta de madeira presa com corrente e cadeado. Ali mora um sujeito que sempre se equilibrou na gangorra da sobrevivência.
Durante uma época, pendeu para lá. Pudera, acordou e estavam, estatelados em frente ao barraco, dois cadáveres. De criança saltou pro crime, meteu-se a roubar toca-fita, abraçou o crack. Fez que fez. Parou na cadeia, claro. Apanhou, levou cana de adulto.
Aí endireitou. Virou escritor, cantou as experiências e largou a bandidagem. Agora trabalha para que essa transformação aconteça nos outros.
Mas quebrada é quebrada e treta antiga não tem data: termina em sangue. Um garoto lembrou-se de uma briga de infância. Resolveu cobrar a parada numa festa, de cara cheia, quase uma década depois. Dois tiros pipocaram. Mesmo baleado, escapuliu pelo mato. Agora é que são elas: ou mata o agressor, ou sai da quebrada, abandonando amigos e o barraco que conquistou na base do trabalho.
Às vezes a vida é nadar contra um tsunami.
Publicado em 12 de fevereiro de 2005 às 11:28 por preto