Subida
Estou longe do relógio mas sei que as horas passam como vísceras expostas. Em eterno fingir de vozes cálidas e distantes, enevoadas pelas noites perdidas dos seres. Ainda assim passam, fingindo-se suportáveis. Passam em vendavais de cóleras disfarçáveis. Passam tic-tac, tempo elástico que se encolhe na dor. Passam em demora, porque é de sua índole o arrastar dos répteis, o rebolado assassino das pítons. Passam em ironia, quando os músculos da face se contraem em sorriso profissional e oco. As horas estão inimigas, vingança de agressões idas e avinagradas. Passam em embarcações que sucumbem ao lastro, arrastadas aos esconderijos abissais de oceanos inomináveis, escuridão e claustro. E mesmo lá, no opaco do esquecimento, passam.
Descida
Minutos, segundos, milésimos preguiçosos se assanham em cicatriz, lacrando os segredos da carne, sulcos expostos retomam a pele em sina de cura. As horas caçam o conforto morno do cotidiano e logo desembestam feito naus de velas enfurnadas, espirrando o sal na face curtida de viagem. As horas ganham velocidade de precipício, jorram em queda livre, desenfreadas entre dia e noite, cabelo ganhando branco.
Publicado em 24 de fevereiro de 2005 às 16:24 por preto
Li este post no dia em que foi publicado. Precisei le-lo três vezes. Na primeira leitura, não fez sentido; na segunda, revelou-se(me); na terceira, deixou-me paralisada, impossibilitada de comentar.
Voltei hoje, apenas para contar isso. Lindo texto, Preto.
É precioso te-lo como amigo.