Espio o vizinho. Lá está ele, torrando café. Da rua não se percebe, nem se compreende, o paraíso que a fachada de madeira esconde. Ah, mas daqui de cima contemplo as mãos anciãs abrindo a terra e parindo alimento. A maior das revoluções culturais foi o plantio. Dela veio a civilização.
E meu vizinho planta de tudo em seu terreno estreito, oásis cercado de prédios soturnos e ainda assim – quem explica? – recebe sol diário, da manhã até à noite. Sem sol não há fertilidade.
Os pessimistas veriam um simples quintal. Qual o quê! Do pé de manga farto pendem gordas frutas, o pé de café é gigantesco. Ainda há espaço para plantas ornamentais, cachorros, barracões, oficinas. Cabe, com folga, uma vida de simplicidade.
Acocorado no chão, espalha o café colhido para secar. O cão, já velho, lamenta ao lado tentando atenção. Mas o vizinho está concentrado. Anda para lá e para cá, ajeita daqui e dali, cuida, cultiva, desenvolve, multiplica a vida em seu limitado reino, onde encarna o deus sábio, o dono dos desígnios.
Às vezes encontro o vizinho na rua, cordial, passeando com os cães. Aí ele pára ao pé de uma árvore, olha para uma planta que ninguém nunca viu, apenas ele conhece tais qualidades.
Meu vizinho não é doutor, não é político, não parece importante, não disfarça, não omite, não mente, não julga. Apenas vai, com paciência budista, melhorando o redor.
Publicado em 01 de julho de 2005 às 17:16 por preto