Foi legal, foi divertido, foi engraçado. Mas o revival anos 80 já cansou. Como diz um amigo: “o passado tem que ficar no passado”.
Principalmente quando ele volta um tanto bizarro, com mudanças de andamento, guitarras onde não existiam e, principalmente, um comportamento caricato. Não, a década de 80 não foi um amontoado de Cindy Lauper na rua.
Também não foi uma década sexualmente libertária. Os homens viraram objetos nos anos 70. Nos 80 surgiu a Aids. em meio à profunda ignorância, só uma certeza: matava e não tinha cura. Somada aos governos bélicos de Ronald Reagan e à transição confusa para a democracia brasileira – após os atentados de extrema direita –, os anos 80 respiraram conservadorismo.
Com a Aids, o medo se propagou. Principalmente quando ficou evidente que Aids não se restringia a comportamentos sexuais ou usuários de injetáveis.
Camisinha? Ora, isso era coisa dos anos 50. Por isso foi tão difícil convencer sobre a necessidade do uso. Muita gente morreu. A música do Léo Jaime, de 1984, dá idéia do clima: “Aids, não tente colocar band-aids” (ãh-ãh?). E a moçada colocou o pé no freio. Acho que parte do desejo foi deslocada para as aulas de aeróbica.
Porcentagem representativa do que se ouvia no rádio nacional era uma domesticação do pós-punk, com gravatinhas coloridas e bandas com nomes como Bombom ou Absyntho. A rebeldia ganhava contornos infantilóides. Foi assim quase até metade da década, quando finalmente outros padrões vieram à tona – lembrando que o underground levava anos para ver a luz do sol, quando via.
Ainda assim, os anos 80 tiveram movimentação. O cenário pós-punk se multiplicou de tal forma que eram plausíveis tanto as guitarras cruas quanto as incursões eletrônicas. Mas o blá-blá-blá comercial sempre foi muito rápido – e esse revival tem destacado muito mais o joio do que o trigo.
É como no baile de formatura em que o cantor grita: “E vamos voltar aos anos 60”, seguido pelos riffs de “Twist and Shout” – como se a versão dos Beatles resumisse a década.
Enfim, valeu relembrar algumas coisas – o revival empacou nas futilidades –, mas já está de bom tamanho. Muita gente não foi hippie nos anos 60, nem todo mundo combateu a ditadura nos anos 70. E uma grande parte dos jovens oitentistas abominavam cabelos azuis e maquiagens de mau gosto. Os anos 90 vêm aí como recordação da vez. E com o risco de serem resumidos em pagode, sertanejo e grunge.
Publicado em 05 de julho de 2005 às 15:46 por preto