Agora que minha pele é cinza, dobrada em rugas de dias rotos, visto triste o véu do silêncio. Agora que as fronteiras do que fui se afastam na velocidade do passado, encontro-me outro, cansado como um elástico frouxo, disforme como o esperma que, fluindo em gozo, arrasta-nos enfim. Agora que já me perdi pela escuridão dos minutos, que avancei o sinal dos tempos, resta apenas uma fagulha a alimentar-me a pena, a ferir o papel, a macular de tédio o exercício de uma vida. Agora que já não sou, agora que nunca fui, contemplo o sprint final, a chama encorpando antes de se extinguir, o dedo frouxo, o borrão devorando a mesa, os óculos beijando o chão, a testa batendo em estampido surdo no oco da madeira.
Publicado em 08 de julho de 2005 às 21:41 por preto