Era mais um daqueles brasileiros importantes que a gente não conhece, daqueles instrumentistas que fundiram linguagens e criaram uma senda própria, ganhando na mestiçagem a qualidade original. Pois é, se o jazz e o samba se fundiram, o rebento deve muito a Dom Um Romão, que morreu nesta madrugada no Rio de Janeiro, às vésperas de completar 80 anos.
Foi Dom Um quem gravou a bateria do disco decisivo da Bossa Nova, “Canção do Amor Demais”, em que Elizeth Cardoso revelava o trio Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto. Também foi ele que participou do histórico “Wave”, de Tom Jobim, além de acompanhar o pianista no disco gravado junto com Frank Sinatra. E foi ele quem convenceu Elis Regina a cantar no Beco das Garrafas.
Ah, Dom Um Romão também esteve no histórico – mas de péssima lembrança – concerto da bossa nova no Carnegie Hall, onde os músicos brasileiros mandaram mal pra danar.
É engraçado, todo mundo fala deste concerto como um marco, mas não se encontra o dito cujo em disco. Sei – e foi o grande baixista Tião Neto, que esteve naquele palco, quem me contou – que foi uma água.
Tião Neto, que participou do histórico – este sim – disco do João Gilberto com Stan Getz, também já se foi. Deve estar lá, com o contrabaixo afinado para receber Dom Um, que também tocou muito com o Stan Getz e o Weather Report.
Ao adaptar o nosso samba ao jazz americano – o contrário não seria possível, pela incapacidade que os jazzmen têm de tocar samba –, Dom Um Romão carregou as raízes na baqueta. Mas esta cruzada custou-lhe o reconhecimento no próprio país. Romão tornou-se brasileiro de lugar nenhum, esquecido pelos seus. Ô dor, esta.
Publicado em 27 de julho de 2005 às 12:24 por preto
Viva Dom Um Romão !!!!!!!!!