Noites de Vigília

Brincadeiras à beira do abismo

Não foi por acaso que avancei à brasa daquele beijo. De começo, a risadinha no canto da boca, econômica mas safada – dizia tudo. Homem é bicho cego, precisa estampar na cara. E veio a lingerie excedendo o decote, insinuando montes rijos e oferecidos, recuei. Avançou demais a gente desconfia.

Aí ficou carrancuda, maltratando. Nada de sedas alisando o corpo, de rendas escapando. Desandei a arranjar uma saída. Ela chegava, e eu de sorriso fácil. Qual o quê. Batia pé, o toc-toc nervoso do salto. Certa vez, veio de mesa em mesa, coordenando. Quando chegou à minha, falou em tom profissional: “Quero o relatório para amanhã, por favor”.

Era trabalho para um mês, entreguei no dia seguinte. Com resultados amplos, positivos e otimistas. O esforço rendeu uma leve pousada de mão no ombro, que desceu discretamente pelas minhas costas dizendo “é por aí”.

Em menos de um mês tornei-me o mais babão dos puxa-sacos. Capacho assumido. O pessoal olhava torto, comentava em voz baixa no bebedouro. Eu, nem aí. Amor? Nada... Só físico. Ferrei amigos, delatei colaboradores e fodi meio escritório só para ganhar premiozinhos sacanas.

Aquele beliscãozinho na nuca, ah! E a saia verde? Com uma fenda que mudava milagrosamente de tamanho, revelando em plena reunião de balanço um teco de calcinha branca.

Noite tardia de hora extra, o pé roçando minha canela em reunião com os assessores. Eles saíram e ela riu. A mesa não foi obstáculo, em segundos meus dedos tateavam entre a roupa suas entranhas. O sangue fervendo em rijo roçar, respiração em freios súbitos, boca devorando nuca, sugando a língua em descontrole, polegar inchando o bico do seio. Misturamo-nos em secreções, carnes se esmagando em ritmos descompassados até que o jorro farto arrastou-nos à queda livre dos extremos.

Os encontros tornaram-se ousados, brincadeiras febris, provocações perigosas. Havia o capricho das portas destrancadas, persianas inseguras, gemidos em pleno expediente.

No bem-bom, danou-se a atazanar um pimpolho apolacado, de olhos verdes e sorriso cafajeste. Ah, cabra bom no serviço. Era um tal de “faz isso”/ “já fiz” que me deixou de orelha em pé. Não é que o bagrinho era mestre na puxa-saquice?

Tanto foi que o tonto aqui começou a perder terreno. As risadinhas pululavam mais lá do que cá, minhas carícias esvaindo pelo ralo da traição. Os decotes se fecharam com a mesma velocidade que abriram. E, se antes tudo era sexo, brotava agora a mágoa potencializada pela promoção do outro.

Rapidinho o sujeito, né? Daí a necessidade de impor um espera-lá nesta situação. E fiz bem-feito, invadindo a sala da putaria no fim do expediente. Ela esperava outro, fechou a cara em pânico. Sabe como é, o lero-lero foi direto: “vê se tu pára de dar para aquele bagrinho, ô vagabunda”.

Nervosismo, quando alcança as orelhas, traz desatino. Desci-lhe o tapa de mão aberta. Choro. O negócio veio forte, de tremer o lábio – poderia matá-la. “Vagabunda”, mandei novamente.

Ela se jogou em meu peito, chamegando seduções. Entre choro e histeria, arrancou minha roupa e o negócio esquentava quando entrou o apolacado.

“Que que é isso?”, veio lá ele, dando de bravo. A briga foi sem jeito, entre as roupas espalhadas, eu seminu e ele engravatado. Ela? Pulou na muvuca arranhando meu rosto, exalando ódio nos gemidos – havia algo impulsivamente erótico, um apetite inconsciente de gozo e morte. Até que a segurança entrou.

“Qual o problema, senhora?” A pergunta congelou-nos feito uma estátua em pose ridícula. “E-e-le...” – hesitava entre eu e o bagrinho. “E-ele, é ele, tirem-no daqui! Esse homem é louco”, apontou subitamente para o outro.

Depois, veio a burocracia judicial: depoimentos, processos, um vaivém danado para explicar a demissão por justa causa e o decorrente processo de assédio.

Ignorando o bafafá geral e os comentários venenosos na cantina, as coisas meio que se arranjaram. Permaneci, fazendo o mesmo serviço na mesma mesa, embora carregue no rosto as cicatrizes – uma vingança pelo tapa e os dois “vagabundas” que soltei.

Não passou uma semana de tranqüilidade e o negócio ferveu de novo. Encontros furtivos, mão-boba, palavrões eróticos, toquinhos suspeitos de telefone, códigos, transas no banheiro, ligações pornográficas. Tudo normal, enfim.

Menos o bagrinho novo, contratado para a promoção do demitido. E bagrinho ensaboado, doido para mergulhar nos segredos labirínticos das coxas sinuosas. Pelego disposto à chefia, dono de cochichos roucos que se exibiam à minha frente.

E eu já estava da pá virada, enfezando. Até que vi bem: enquanto ela beliscava a nuca do mané, olhava-me daquele jeito – olhos famintos de lascívia –, atiçando a besta do meu desejo.

Publicado em 25 de agosto de 2005 às 17:35 por preto

Comentários

  1. salome
    • Oi Ester, que bom que vc gostou! E que coragem de ler um post deste tamanho, hein?
    • por preto
    • 05.Set.2005 às 17:01 - Permalink - Reportar
    preto
    • Regina karam Galiciolli é uma vagabunda.Só gosta de homens casados.Cuidado Paranaenses
    • por Jade
    • 16.Jun.2007 às 23:19 - Permalink - Reportar
    Jade
    • mtu bom mesmo .. até esquecei da pesquiza que tinha que fazer !!
    • por Jéssica
    • 24.Fev.2008 às 22:44 - Permalink - Reportar
    Jéssica
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