Hoje em dia não é mais assim, mas na minha infância o mundo vivia prestes a acabar.
Sempre tinha uma teoria não sei de quem calculando a incidência de carrapatos nos elefantes da Malásia mais a migração dos golfinhos albinos e pimba! Era batata.
Às vezes surgiam profecias, visões, anúncios pavorosos, profetas retirantes, místicos encapuzados.
Uma delas marcava o ano de 1983.
E eu fiquei sabendo tarde, lá por outubro de 1982, vejam só. A morte me pegaria de calças curtas, como quem acaba de acordar.
Ainda bem que a tal teoria - nem lembro do que se tratava - era tão pouco fundamentada que, do alto de meus 12 anos, revelou-se completo absurdo.
Quase completo, restou uma cismazinha que me fez entrar em 1983 com um pé atrás. Afinal, quem sou eu para contestar os desígnios do desconhecido, os mistérios do obscuro?
Às vezes os boatos se alimentavam de fatos reais, como o Skylab. Já comentei aqui, acho: na época, espalhou-se que um pedaço do laboratório espacial cairia em Londrina.
Como eu morava em Cambé, senti certo alívio – minha índole era nada catastrófica, não levava em conta que ambas as cidades são coladas.
Felizmente, o negócio caiu no mar.
Os anos se passaram e – tirando grandes cabeçadas da humanidade – chegamos até aqui razoavelmente bem.
Particularmente, meu cataclisma veio programado: um acumulozinho de células dotado de pisca-pisca e impacto intergaláctico.
Sim, o meu apocalipse tem apenas 5 milímetros - toca uma marcha constante e suingada - e já mudou o universo, jogando-me em constante queda livre.
Tomou conta da minha existência, confundiu-me os sentidos e bambeou minhas pernas sem qualquer graduação alcoólica.
Esse apocalipse revelou-se invertido: acabou com as bobagens do mundo e trouxe-me à vida sem parto.
Publicado em 27 de agosto de 2005 às 11:43 por preto