Escondo-me atrás do monitor e começo a falar sozinho. Sei que isso deixa os zumbis deste escritório malucos. Eles ainda não sabem que minha presença ali esconde os segredos de Aparícia Dedos-Leves, ladra e socialite que apavorou o país nos anos 40.
Sim, cabe-me editar a biografia de Aparícia, após anos de pesquisa. Por isso, auxiliado por um mecenas, alojei-me neste escritório onde tudo é desconfiança. Olham-me como zumbis, imaginando-me como o novo chefe encarregado das demissões em massa ou um terrível auditor, capaz de revelar as horas perdidas em conversas infrutíferas e litros de café.
Enquanto eles resmungam, mergulho na história de Aparícia. Estive em todos os cenários de seus roubos. Mesmo os mais impossíveis, como o do diamante Hércules, escondido em um barco-cofre em Angra dos Reis. Sei cada movimento de Aparícia. Todos os segredos de sua vida dúbia, do trânsito social à boca do inferno.
Quem a via nas altas rodas não imaginava o quão pérfida era sua personalidade. O quão astuta e diabólica sua mente e o quão bela era sua face.
Dobro-me ao peso da responsabilidade. Confesso que editar este livro é demais para um escritorzinho de romances policiais. Espero que minha mediocridade não limite uma biografia tão surpreendente.
Aparícia Djanira Lopes Veiga, nascida em Niterói no ano de 1918. Seu pai era austríaco e veio para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial. Deu à filha um nome inventado, sem qualquer relação de parentesco, obviamente para esconder o passado. Investidor nas bolsas, ganhou fortunas com o café, mas quebrou com a queda de Nova York. Aos 11 anos, Aparícia acostumara-se à boa vida. Arruinada, passou a roubar para mantê-la.
Sim, amigos. Aparícia conheceu o crime aos 11 anos e, creiam-me, já não era uma criança, mas um monstro dedicado a usar o submundo para conquistar as elites.
Em 1929, com a falência, o pai de Aparícia passou a trabalhar de porteiro em um cinema do Rio de Janeiro. E, ali, Aparícia assistiu a todos os clássicos, de Buster Keaton a Humberto Mauro.
No cinema teve sua formação. Tal qual Quixote, apaixonou-se de tal forma que perdeu o siso. Já não distinguia os limites tênues da realidade, incorporando em seu próprio caráter inúmeros personagens de Theda Bara. É importante destacar a complexidade desta transformação, quando Aparícia Dedos-Leves salta de uma pobre criança desfavorecida para uma vamp ensandecida, capaz das atitudes mais sórdidas para conquistar o high society, o jet-set.
No cinema perpetrou o primeiro golpe. Com uma série de telefonemas e artimanhas, a garotinha denunciou a sala de exibição ao fisco, oferecendo-se para comprá-la. O dinheiro? Ah, a malandra já conquistara um comprador, uma empresa paulista que há anos batalhava para entrar no mercado carioca. Em dois dias, uma fortuna foi depositada na conta de seu pai.
Julgando-se um laranja, o pai de Aparícia denunciou o depósito ao governo, disponibilizando a quantia em juízo até que a situação fosse esclarecida. Houve um intermediário, Luís de Simão Góis e Sá, proprietário da caixa postal 345 dos Correios, para onde o comprador teria enviado a corretagem. Mas, ao arrombar a caixa postal, a polícia encontrou apenas um envelope vazio.
Sim amigos, Luís de Simão Góis e Sá era apenas um dos inúmeros personagens que Aparícia, dominando as técnicas mais revolucionárias de interpretação, criou. Ela retirou o dinheiro da caixa antes que o escândalo tomasse vulto, e aplicou-o em várias corridas do campeão Burton-Clayton Master, o cavalo mais veloz do Rio de Janeiro. Com isso, dobrou a quantia em apenas uma semana.
O pior está por vir, quando saberemos o que Aparícia fez com o dinheiro.