Noites de Vigília

Liberdade limitada

Ligo a TV Educativa do Paraná de madrugada e está lá Hugo Chavez dando uma coletiva de imprensa.

Fala pelos cotovelos. Diz que vai militarizar a Venezuela, e que ninguém “se meta” com o país. Depois acusa Bush de “só pensar em metralhadoras”.

E os jornalistas aplaudem.

Aí Chavez mergulha na teoria da conspiração sobre a mídia. E, no fim de uma longa explanação sobre como era maltratado pela imprensa, tasca:

-Não deve haver liberdade ilimitada.

Como é? Minha pergunta foi calada pelos aplausos dos jornalistas.

Então o presidente venezuelano explica que está criando um órgão para “responsabilizar” a imprensa.

E os jornalistas aplaudem.

Uma jornalista faz uma pergunta em que critica o “jornalismo empresarial” e exalta o controle estatal sobre a imprensa.

E as perguntas, até onde meu estômago agüentou, só encheram a bola do entrevistado.

O sujeito afronta a liberdade (de imprensa, de expressão, em si).

E os jornalistas aplaudem.

Ah, sim, bom mesmo é o jornalismo estatal. Como este que a TV Educativa estava mostrando. Ou aquele, da União Soviética. Ou aquele outro, de Cuba.

Publicado em 24 de dezembro de 2006 às 11:36 por preto

Cochilos

 

Um artigo de Charlotte Higgins no Guardian levantou histórias de quem não agüenta uma sala escura e cai no sono. Higgins declara ter sobrevivido às 16 horas de apresentação do Anel dos Nibelungos, de Wagner, sem qualquer cochilo. Mas confessa que, eventualmente, a coisa torna-se incontrolável.

 

Eu concordo. Tenho uma insônia lascada mas, dependendo do programa, basta as luzes se apagarem para a cadeira ficar confortável demais e o mundo se enevoar rumo aos sonhos.

 

Teve um longa da série Jornada nas Estrelas, por exemplo, do qual não me recordo uma cena. Dormi logo no início e só acordei nos créditos. Isso também aconteceu com o Drácula de Bram Stoker, do Coppola, aclamadíssimo na época, mas insosso para quem não gosta de papo de vampiros.

 

A mesma coisa ocorreu com Matrix. O primeiro, que dizem ser o melhor. Estava lá aquela lenga-lenga de pílula vermelha ou azul. Ali eu apaguei, mas não dormi direto, tive chance de ver os tiroteios – perdi o enredo e até hoje não entendo como tanta pretensão descambou para a pancadaria. Mas prefiro a ignorância a rever a interpretação de Keanu Reeves.

 

Também acontece em concertos – em um show de jazz, chatíssimo – e olha que eu gosto do gênero –, o sujeito emendou um solo longo e veloz, mas cuja profundidade não ultrapassava uma lâmina d´água. Dali pra frente, dormi.

 

O problema de cochilar nesses lugares é que ainda nos resta uma fresta de consciência. É ela que nos mantêm com o pescoço rígido, que nos faz disfarçar a pescada como se procurássemos algo. Esse rastro de lucidez é uma corda bamba: cochilamos disfarçadamente (é o que achamos) sem poder roncar ou pender a cabeça. É como se dormíssemos em pé, feito cavalo.

 

Ainda assim não hesito quando o programa revela-se a maior roubada: cochilar é melhor.

Publicado em 16 de outubro de 2006 às 13:40 por preto

O bar Jaiminho

 

O nome era Sabor e Ar, mas ninguém o chamava pelo trocadilho. Era bar do Jaiminho. Mas o dono era o Eduardo, que atendia com paciência as mesas enquanto a esposa ficava na cozinha, preparando pratos bons – como carneiro grelhado ou uma ótima farofa fria.

 

Eu era moleque – já fui moleque um dia – e, naquela época, tentava algum condicionamento físico no Zerão. Na verdade estava muito mais para varar as noites nos bares de plantão. Deu uma sede, uma zonzeira, um tosse provocada pelo excesso de cigarro...

 

Só sei que entrei no Salada de Fruta e pedi um suco. Olhei a casinha de madeira numa esquina do Zerão e pensei: “Aqui daria um ótimo bar”. Seis meses depois, o sonho virou realidade. O Salada de Fruta fechou e nasceu o Bar do Jaiminho.

 

Freqüentei tanto este bar – com intervalos – que daria um livro. Teve um amigo que tomou umas a mais e deu a volta no Zerão cantando a marchinha do Belinati. Teve outro que caiu de costas, com cadeira e tudo. Teve papo-cabefa, roda de violão, mas, principalmente, o Jaiminho era um ótimo bar para se tomar aquela cerveja com um amigo. Algo que não tem preço.

 

Já assisti de performances teatrais a shows no Jaiminho, mas duraram curta temporada. Logo o Jaiminho encontrou a própria personalidade, de canto reservado, nosso, com jeitão de quintal de casa. Era um bar na dele. Com boa música e pouca encheção de saco. Cerveja gelada e boa comida. Barato e com uma vista espetacular. Dava para sentar ao ar livre, embaixo das árvores.

 

Às sextas tinha a roda de choro, sempre muito boa, e que invariavelmente acabava em samba. Num dos Festivais de Teatro, os gringos baixaram por lá. O samba engrenou e a casinha de madeira quase veio abaixo. Era um tal de argentino rebolando, de boliviano pedindo Aquarela do Brasil, de Espanhol perdendo o juízo...

 

Quando o bar esvaziava, às vezes juntávamos os freqüentadores mais manjados no balcão. O papo ia até amanhecer.

 

O Bar do Jaiminho fechou. E agora parece que essas histórias foram confinadas, repentinamente, em um passado longínquo. Um bar, quando deixa de existir, leva consigo uma parte de seus freqüentadores.

 

Em troca, deixa um vazio ao qual chamamos saudade.

 

 

Publicado em 19 de setembro de 2006 às 12:40 por preto

A tara de Nereu

 

 

Bastou uma morena apetitosa alugar o apartamento ao lado para Nereu ter idéia. Besta, diga-se de passagem. Ainda embriagado pelo sabor da genialidade, iniciou uma conversa mole com a esposa, assumindo ar tristonho e distante.

 

-Benhê, eu não estou legal.

 

-Que que foi, Nereu?

 

-Sei lá, mil coisas. Sabe, eu sinto que preciso de algo, lá no íntimo... Ah, é um sufoco danado.

 

-Ahã.

 

-Sabe quando você precisa fazer algo? Você sabe que é algo que desafia as convenções sociais, mas é um ímpeto tão forte que é difícil controlar? Tem sido uma agonia.

 

-Desembucha.

 

-Eu preciso desesperadamente transar com outra mulher. É isso, falei, pronto. É quase incontrolável, parece até uma missão. Uma certeza que eu tenho lá no fundo, sabe? Claro, seria só sexo, nada mais, apenas para extravasar tanto sentimento negativo acumulado.

 

-Pois eu também andei pensando, Nereu.

 

-Ah, é?

 

-Pensando em dar para o primeiro que eu encontrar na esquina.

 

-Opalalá. Peraê...

 

-Dar mesmo, gostoso, de soltar gritinhos. Claro, seria só sexo, nada mais, entende? Não agüento mais essa opressão sobre o feminino.

 

-Nananina, calma-lá...

 

-Mas minha vontade, mesmo, lá no fundo, quase incontrolável, é dar e depois cobrar.

 

-Como é?

 

-Cobrar, Nereu.

 

Aí bateu a idéia de que a mulher, embora sua, não era de se jogar fora. E muito menos de deixar dando sopa por aí.

 

-Tá bom, benhê, então eu pago e a gente ferve um pouquinho.

 

-Ah, Nereu, seu safadinho. Mas paga quanto?

 

-Que tal, hum..., Dezlão?

 

-Nereu, se eu for para a esquina, será pelo menos por quinhentão. Cadê minha bolsa?

 

-Tá bom, tá bom, eu pago mil e a gente não fala mais nisso.

 

 

***

 

Agora os dois estão fumando na cama. “É o momento propício para discutir a relação”, pensa ela. “Será que aquela Caracu ainda tá na geladeira?”, pensa ele, logo mudando para “ah, aquela vizinha gostosa...”.

 

-Nereu...

 

-Ãh.

 

-Você me acha gostosa?

 

-Ahã.

 

-Você pagaria milão para me comer se eu não fosse tua mulher?

 

-Ahã.

 

-Então porque que você está pensando no rabo da vizinha?

 

Nereu empalideceu. Seria algum tipo de telepatia?

 

-Que isso, benhê. Quem é meu momozinho?

 

-Momozinho o escambau. Pode ir assinando o cheque.

Publicado em 13 de setembro de 2006 às 16:12 por preto

No tempo das perucas

 

Houve um tempo em que se usava peruca. É só pegar qualquer vídeo da Alcione nos anos 70 que é batata: ela está de peruca. Mulher de peruca foi moda. Era evidente que estava de peruca e, mesmo assim, era cult. Uma amiga lembrou da peruca de uma tia. Quando ela (a tia) resolvia sair, a peruca ia ao cabelereiro. Passava a tarde lá e, no comecinho da noite, era levada cuidadosamente – cabelo de peruca quando desmancha deve ser brabo - até à casa da dona em um inacreditável suporte de peruca feito de isopor. Era um suporte em forma de cabeça, mas sem feições, feito para abrigar a peruca empetecada.

Devia ser um perigo transportar a peruca assim, no tempo, em uma frágil cabeça de isopor. E se chovesse? E se ventasse? Sem falar que, ao ver a peruca tinindo na esquina, o povo iniciava o diz-que-diz-que:

-Fulana vai sair.

-Ih, hoje tem!

 

Esse transporte dava uma bandeira danada. Permitia que o penteado fosse visto sem a cabeça para a qual foi projetado, gerando especulação. Os vizinhos de língua afiada antecipavam até a roupa que seria usada, após uma breve análise do penteado e do volume de laquê. Afinal, laquê é do tempo da peruca (Crush é do tempo da peruca). Assim, numa espiada técnica, os vizinhos podiam sentenciar:

-Está penteada para o lado, ela voltou para o canalha do Juvenal.

 

Peruca também tinha um efeito danado em filme que terminava em briga de mulher. Permitia-se rasgar os vestidos, borrar a maquiagem. Mas a humilhação suprema era ter a peruca arrancada da cabeça, revelando a intimidade sofrível do cabelo verdadeiro. Arrancar uma peruca era ganhar, de imediato, uma inimiga vitalícia.

 

Trata-se de outro daqueles ícones do passado que desapareceram, como o linotipo, o sujeito que vendia desentupidores de boca de fogão, o padeiro que entregava pão em casa, os Kikos Marinhos, o Mandiopã. Peruca lembra Gordini e Lambretta. Peruca lembra mulher fumando com piteira. Hoje, até onde minha míope cultura fashion permite apreciar, a peruca já era.

 

**

 

Homem usava peruca para disfarçar a careca. E, neste caso, a peruca precisava atingir o estágio quase impossível da discrição. Na maioria das vezes, o sujeito parecia um careca de peruca, o que é pior do que ser simplesmente careca. Afinal, careca é normal. Mas careca disfarçado é engraçado. A peruca traz um inevitável acento brega. O Zacarias, dos Trapalhões, usava peruca. Silvio Santos, que posou careca para a capa de uma revista, levou fama de que usava peruca.

 

No perfil sobre Frank Sinatra, Truman Capote revela que o cantor também usava peruca, cuidadosamente instalada. Não sei se acredito completamente nesta história. Mas, se for verdade, Sinatrão era um mestre da peruca. Talvez o único homem a usá-la com perfeição. 

 

**

 

Mas não pensemos nós que a peruca está confinada ao baú dos velhos tempos. Se o sapato plataforma e a boca de sino voltaram, nada mais causará espanto. Até os cílios postiços – uma espécie de peruca dos olhos – retornaram com força total. Aliás, outro dia eu vi um colocador de cílios postiços, algo semelhante a um instrumento de tortura medieval.

 

Enfim, se até os cílios postiços voltaram, quem dirá as perucas. Nesse dia, então, as antigas cabelereiras, as únicas a guardar os segredos de um bom trato na peruca, reinarão absolutas, subjugando o universo dos emperucados.

 

P.S.: Rezo de pé junto para que a antiga gola cacharrel repouse no mais profundo abismo do esquecimento. Pode voltar o terno xadrez, o sapato dockside e a calça de elástico da OP. Mas a cacharrel não. Por favor.

Publicado em 05 de setembro de 2006 às 17:20 por preto

Agora que a Bruna manda na minha vida, desenvolvi o hábito de ouvir música no computador com fone de ouvido.

Foi-se a época dos sons explodindo fartos das caixas. Agora meu prazer é solitário. Não dá nem pra comentar: Putz, olha esse piano!

Isso porque chego tarde e ela já (ou ainda) está dormindo. Mas se os olhinhos estão circulando acesos, aí ela ouve comigo.

**

E o Andrew Hill? Rapaz, o cara toca um piano telegráfico, mas com um sentido de grupo parecido com o de Count Basie. O som é bem diferente, mas o grupo atua muito coeso, e o piano aparece para dar a direção ou, finalmente, enveredar para um solo – e no solo Andrew Hill lembra Monk. Ou seja, traz a junção de dois pianistas lacônicos. Monk abriu a harmonia e entortou o tempo. Basie era capaz de suingar com uma nota só.

Andrew Hill também entorta o tempo, mas é mais coletivo do que Monk, que era solitário mesmo acompanhado. Hill consegue desaparecer, manter-se às escuras, para eventualmente colocar ordem na casa. E gosta muito de sopros. Em uma das faixas, há uma estranha combinação de sax, trompete, flauta transversal e flauta doce. E o resultado é que os harmônicos acabam multiplicando a formação, como se houvesse mais instrumentos do que há. Cacilda.

Publicado em 19 de abril de 2006 às 23:08 por preto

Alegria. Ter filho é uma constante vontade de chorar de alegria. Não é aquele choro que vem duma vez e passa. É discreto e constante. O pai, babão, vira uma pollyana. Acha tudo lindo. Olha a calçada – linda! Olha esse tijolo quebrado – lindo! Olha o cocô de cachorro – lindo!

Você vai à feira comprar verdura e dá vontade de chorar. Música? Dá vontade de chorar. Fralda suja? Vontade de chorar. Fotografia? É batata. Cooper? Snif.

Sabe aquele sujeito que bebe demais e fica te chamando de amigão? O pai fica daquele jeito, só que sóbrio.

É isso, o pai fica um tonto. Na sala de parto, ele atrapalha. Não sabe o que fazer e acaba ficando ali, impotente. Quando o nenê nasce, ele coloca as mãos na cabeça e ensaia um pânico. Depois fica rindo.

Fiquei tão besta que saí da sala de parto com a máscara, a touca e o protetor de sapatos. Andei para lá e para cá no hospital daquele jeito. Foi preciso a mãe, ainda anestesiada, dar o toque:

-Agora pode tirar isso.

Quando finalmente o nenê vai parar em nosso colo, vem o tremor. É de verdade. Aconteceu.

-É melhor do que Bach, disse a pediatra ao ouvir o coração da minha filha.

É mesmo. Sinto dizer que toda a obra de João Sebastião não chega perto da Bruna. Sou coruja assumido.

Depois vem a icterícia. É comum e simples, mas dá trabalho. Exige banho de luz e atenção constantes para que o bebê não machuque a retina. Seguem-se as noites em claro. Uma, duas, três... Estou na sétima noite seguida sem dormir. Vou para cama às 7h30, acordo às 11h30 e fico meio bêbado o dia inteiro. Enfim o respaldo de tanta boemia serviu para alguma coisa.

E aí é que está. Não há noite em claro que atrapalhe a babação paterna. Trocar fraldas? Uma delícia. Ajudar na amamentação? Beleza! Pegar no colo? Sou o primeiro da fila.

Hoje as melhoraram. Chega de luz, já gastamos uma Itaipu inteira. Vai dar para assistir um filme (o Paulo diria “assiste sem dar mesmo”), ouvir um disco – consegui uma coleção excelente do Andrew Hill, outra do Eric Dolphy e mais uma do Don Ellis. Estão ali, quietinhas, esperando-nos.

Afinal, a Bruna também participa das audições. Quando dá. Ouvimos bastante Corelli nestes dias, tem um quê de som dos anjos sem o excesso de informação de Bach ou a agitação de Mozart.

Também ouvimos seguidas vezes o Mesapá 4, grupo do Celsinho Pacheco e do Gilsão Corsaletti.

Para dormir? João Gilberto tem se mostrado imbatível, sem sacanagem.

**

** AVISO: DAQUI PRA FRENTE COMEÇA UMA LISTA DE AGRADECIMENTOS DE MATAR O GUARDA (e que se dane a pieguice):


O bom de momentos felizes são quando os amigos compartilham. E tenho a sorte de ter bons amigos. Preparem-se, porque a lista de agradecimentos é longa:

O Paulo, por exemplo, roubou minha coluna e fez uma homenagem de arrancar lágrimas. A Janaína ligou lá da Itália e fez um post maravilhoso - não deu tempo ainda de agradecer à altura, titia.

O Pafu e a Fran, apareceram no hospital de madrugada, logo depois do parto, para dar os parabéns. Estavam tão emocionados quanto eu. Ou mais. É isso aí, titio.

Duas avós batutas e maravilhosas deram uma força incrível – Marli, obrigado, valeu a viagem! Duas irmãs queridíssimas deram dicas fundamentais.

E aí o povo foi aparecendo, ligando, deixando recado. O Marcelo cedeu os charutos – a Sandra em breve será mãe. A Carla e o Lúcio também ajudaram no brinde – sem falar que a Carla ajudou pra caramba na decoração, é talentosa a mulher. Eu e o Lucio ficamos nas cervejas, mesmo.

Sidão e Roberta, sempre presentes. Luciano e Silvia também acompanharam de perto o desenrolar da barriga. Tio é o que não vai faltar.

Tia Lucy, tudo de bom para você.

O Guerra ligou de Joinville. Chicó, Rafael, Donizete, Fernando Araújo, Rubão, Karlinha Matida, Antonio Mariano Jr, Paulo e Rô, tias Rosangela e Mari, valeu mesmo o carinho de vocês.

Ricardo, Ederval e Bibão, eternos amigos de Cambé, obrigado.

Carina Pacola, Patrícia Zanin e Rogério Fischer: valeram as visitas, agora precisamos repetir a dose com menos ansiedade e mais cerveja.

Galão, li o seu recado, truta! Obrigado mesmo!

Às meninas da Embrapa, um abraço – vocês viram que coisa?

Pedro Livoratti, você sempre cobrou um nenê, está aí, camarada!

Celinha Musilli, um beijão procê. Telma, valeu.

Miltinho Dória, foi rápido, não?

Ana Marta e Vanusa, obrigado pelo carinho.

Patrícia Moreli, você quase acertou o dia. Quase!

Jackeline Erckmann, obrigado pela mensagem!

Lauriano, Alexandre e Renata, obrigadão.

Andréa Pobreza, você acertou: não vou dormir mais!

Ágda e Oscar: o Davi terá companhia para ouvir jazz!


Obrigado aos profissionais Christian Day, Daniela, Suely e Fernando.

A todo o pessoal do JL, valeu mesmo.

Obrigado a você, mamãe. Conseguimos.

Sei que estou esquecendo gente querida, mas a cabeça de pai tem idéia fixa. Só pensa num pingo de gente que está ali esperando.

Às vítimas de imperdoável esquecimento peço paciência: conforme eu for lembrando, vou adicionando nos comentários. Não fiquem chateados, nunca fui muito bom da cabeça.

Enfim, é melhor encerrar isso, tá parecendo discurso de miss ou de atriz deslumbrada que ganhou o Oscar.

Vão por mim, é melhor que Bach.

Publicado em 17 de abril de 2006 às 18:39 por preto

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Eu gosto de Woody Allen mesmo quando ele faz aqueles filmes mais ou menos.

Os trapaceiros , por exemplo, foi divertido, embora distante dos clássicos do diretor.

E, por afinidade musical, Poucas e boas, uma sátira inspirada no excelente guitarrista norte-americano Eddie Lang. Não bastasse o som, basicamente em estilo Chicago, ainda aparecem citações a Django Reinhardt. Mas também não era um Woody Allen em melhor forma.

Teve coisa pior: O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro chegaram à beira do pastelão que marcou seu início de carreira.

Melinda e Melinda ficou assim assim. Mas já apontava a tendência do diretor em retomar o drama.

A tendência foi consolidada em Ponto Final. Depois de tantos baixos e médios, Woody Allen reaparece com um grande filme.

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O Oscar deu mais uma de suas mancadas ao ignorar Ponto Final. Era, disparado, o melhor filme. Melhor que Crash e Brokeback Mountain. Mas a Academia não se arriscaria a levar outra esnobada.

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Ponto Final é um cabo de guerra entre instinto e razão. Entre construir uma carreira sólida ou mandar tudo às favas por uma garota instável. E a aleatoriedade entra em cena como a casca de banana para o escorregão fatal.

O jogador de tênis, profundamente racional, apaixona-se por uma garota impulsiva. Ambos se fundem: ela às vezes apresenta uma racionalidade surpreendente, ele perde a razão com freqüência. E vice-versa.

Essa tensão aumenta quando Allen se apodera de Dostoiévski, especialmente Crime e Castigo. É uma apropriação: não é o enredo de Dostoiévski propriamente dito, mas o clima. E toda a cena central é uma verdadeira releitura a espalhar o sofrimento e o caos.

Apesar da conduta cerebral, o tenista sabe que a aleatoriedade é inevitável: existem fatores que ele não pode controlar. Ele atua, em vão, para restringir ao máximo as surpresas.

Essa polarização fica mais explícita com os dois detetives: um é intuitivo, acha que a investigação está indo para o lado errado. Outro é racional e engole a história tal qual lhe parece.

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No decorrer da trama, as fronteiras se misturam. Razão e instinto são extremos de um mesmo cabo. E o que é aleatório pode ser mera conseqüência.

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O destaque vai para as árias. Fenomenal a maneira como enredo e trilha sonora se encaixam.

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A crítica andou comentando que este Woody Allen não parece Woody Allen. Eu não sei... Falta o alter ego, a voz do diretor sempre tão presente. Também faltam as piadinhas, mais escassas.

Mas estruturas fundamentais do universo de Allen continuam lá: a paixão inesperada e avassaladora; a mãe repressora; a pressão social sobre os relacionamentos; as reviravoltas conjugais; o sexo como fonte de problemas.

Ponto Final é um Woody Allen sem os penduricalhos que andavam se repetindo. O diretor redesenhou o próprio estilo, mantendo as linhas fundamentais, mas mudando sensivelmente a narrativa. Essa reconstrução era necessária para que o drama não ficasse caricato.

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São características de um grande autor, daqueles que gostam de relaxar com obras menores, mas que ainda têm bala na agulha.

Publicado em 29 de março de 2006 às 12:01 por preto

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Houve um tempo em que desemprego a 8% era escândalo nacional. Agora temos um presidente em plena campanha com desemprego a 10%. Aliáuses, quantos empregos o Lula prometeu mesmo?

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Nunca vi um Congresso tão ruim. Ofende a opinião pública, envergonha o cidadão e ainda se julga acima das leis.

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E ainda temos que agüentar os micos, como na sabatina da Ellen Gracie (STF) no Senado. Olha as cantadas, feitas em discursos, divulgadas hoje pela Folha de S.Paulo:

-O meu voto ainda leva em conta a beleza e o charme. Assim voto com muito prazer. (Wellington Salgado - PMDB/MG)

-Como ginecologista, aprendi a lidar de perto com as mulheres, a entender muito profundamente a sensibilidade feminina. (Mozarildo Cavalcanti - PTB/RR)

-A senhora não veio ser sabatinada, veio ser homenageada. (José Agripino - PFL/RN).

Só podem estar tirando sarro da minha cara.

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O que valeu mesmo foi o artigo do filósofo Roberto Romano, da Unicamp, ontem, também na Folha de S.Paulo:

-Na sessão que absolveu um político do PT e outro do PFL, tanto os acusados quanto os seus defensores atacaram a moralidade (dita por eles moralismo) e a opinião pública (a qual separaram do povo), proclamando que algo contrário à lei (o caixa dois, segundo parece, se com origem particular, não é crime) seria inocente.

-A legalidade foi pisoteada com a benção do plenário. Temos o paradoxo de uma Casa de Leis na qual seus integrantes não se sujeitam à legalidade. Eles se declaram acima e à margem da lei comum.

-No plenário, vigoraram os laços de amizade, o partidarismo, contrário aos fatos e ao direito.

-Um centavo a mais ou a menos define a diferença entre a República democrática e a desordem dos privilégios autoconcedidos no poder público.

E por aí segue, só melhorando. Bravo, professor.

Publicado em 23 de março de 2006 às 12:59 por preto

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Provocante e gozador o título do livro Is jazz dead? (or has it moved to a new address?), do crítico britânico Stuart Nicholson. A provocação vai para o jazz americano, reforçando os apocalípticos que dizem que o cenário jazzístico nos EUA está uma melda.

O livro de Nicholson saiu nos EUA e Inglaterra, não deu as caras por aqui, mas se der, está na minha lista. A Folha de S.Paulo trouxe uma matéria, dia desses.

É claro que o jazz vem se desenvolvendo em outras paragens, e desde a década de 30 foi assim. Agora, dizer que o jazz está morto nos EUA é um exagero. Está na cara que o autor quer provocar polêmica.

Uma polêmica que deve deixar os americanos raivosos. Afinal, tem gente boa lá sim, e gente que veio depois da geração que surgiu a partir dos anos 80, esta sim um tanto conservadora. Boa, de qualidade, mas conservadora.

Para contradizer o título (não estou discutindo o conteúdo), dá para citar Bill Frisell (guitarrista bom bagarai) e Brad Mehldau (em estúdio ele é bom, ao vivo é melhor - e tem o mérito de transformar Paranoid Android num jazz consistente, muito bom).

Agora mesmo estava ouvindo o baixista Marc Johnson, num disco ao lado da esposa brasileira Eliane Elias (piano), John Scofield (guitarra), Joe Lovano (sax) e Joey Baron (bateria).

É jazz contemporâneo, novo e polpudo, com recheio e com ousadia. É jazz americano com boa saúde, sem ranços. E olha que Scofield é da geração que foi revelada nos anos 80, só que, no caso dele, estava ao lado de Miles Davis - que não se rendia a dogma algum.

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Tá, eu sei que não sou moderninho, mas não consigo engolir o grupo Cansei de Ser Sexy.

Basta assistir ao que a Lovefoxx anda tocando no programa Music Box.

Tô fora.

Publicado em 21 de março de 2006 às 16:34 por preto

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