Noites de Vigília

Carnaval

Está meio tarde para falar nisso, mas tudo bem. A distância ajuda a gente a enxergar melhor as coisas.

Não sou um entusiasta do carnaval, mas acho que as coisas estão de mal a pior.

O modelo carioca, aquele dos desfiles milionários para turistas estrangeiros, espalhou-se pelo país, provocando uma perda de identidade dos carnavais locais.

O lucro industrial se sobrepôs a uma festa que deveria ser espontânea e popular - e por isso ganhar uma identidade regional, que caracterize as comunidades paticipantes. O modelo carioca passa por cima de tudo isso.

Assistir aos desfiles é um sofrimento. É de uma chatice incrível. A telinha não comporta a ostentação gigantesca dos carros alegóricos e, por mais que a festa seja feita para a TV, tudo o que há é um colorido brilhante e pululante, puxado por uma música irreconhecível, uma marcha tão acelerada que faz as passistas parecerem elétricas.

E olha que sou fã de samba. Adoro samba. Mas samba mesmo, com cuíca, com ginga, com malandragem. Não esse estresse acelerado para que cinco mil pessoas cumpram tempo de avenida. Por favor.

Só há uma coisa pior: o modelo de Salvador. Um trio elétrico, uma muvuca danada e muita música ruim. E, na TV, o negócio piora tanto que se torna impossível assistir. Você vê num único carro elétrico a Ivete Sangalo, a Preta Gil e o Netinho. Ou Ivete Sangalo, Sasha e Xuxa. Ninguém merece.

Aí descobri a TV Cultura, com especiais sobre carnavais antigos ou shows trazendo Blecaute, Zé Kéti e Clementina de Jesus, entre outros. Foi a salvação.

Publicado em 07 de março de 2006 às 16:45 por preto

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