Houve um tempo em que se usava peruca. É só pegar qualquer vídeo da Alcione nos anos 70 que é batata: ela está de peruca. Mulher de peruca foi moda. Era evidente que estava de peruca e, mesmo assim, era cult. Uma amiga lembrou da peruca de uma tia. Quando ela (a tia) resolvia sair, a peruca ia ao cabelereiro. Passava a tarde lá e, no comecinho da noite, era levada cuidadosamente – cabelo de peruca quando desmancha deve ser brabo - até à casa da dona em um inacreditável suporte de peruca feito de isopor. Era um suporte em forma de cabeça, mas sem feições, feito para abrigar a peruca empetecada.
Devia ser um perigo transportar a peruca assim, no tempo, em uma frágil cabeça de isopor. E se chovesse? E se ventasse? Sem falar que, ao ver a peruca tinindo na esquina, o povo iniciava o diz-que-diz-que:
-Fulana vai sair.
-Ih, hoje tem!
Esse transporte dava uma bandeira danada. Permitia que o penteado fosse visto sem a cabeça para a qual foi projetado, gerando especulação. Os vizinhos de língua afiada antecipavam até a roupa que seria usada, após uma breve análise do penteado e do volume de laquê. Afinal, laquê é do tempo da peruca (Crush é do tempo da peruca). Assim, numa espiada técnica, os vizinhos podiam sentenciar:
-Está penteada para o lado, ela voltou para o canalha do Juvenal.
Peruca também tinha um efeito danado em filme que terminava em briga de mulher. Permitia-se rasgar os vestidos, borrar a maquiagem. Mas a humilhação suprema era ter a peruca arrancada da cabeça, revelando a intimidade sofrível do cabelo verdadeiro. Arrancar uma peruca era ganhar, de imediato, uma inimiga vitalícia.
Trata-se de outro daqueles ícones do passado que desapareceram, como o linotipo, o sujeito que vendia desentupidores de boca de fogão, o padeiro que entregava pão em casa, os Kikos Marinhos, o Mandiopã. Peruca lembra Gordini e Lambretta. Peruca lembra mulher fumando com piteira. Hoje, até onde minha míope cultura fashion permite apreciar, a peruca já era.
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Homem usava peruca para disfarçar a careca. E, neste caso, a peruca precisava atingir o estágio quase impossível da discrição. Na maioria das vezes, o sujeito parecia um careca de peruca, o que é pior do que ser simplesmente careca. Afinal, careca é normal. Mas careca disfarçado é engraçado. A peruca traz um inevitável acento brega. O Zacarias, dos Trapalhões, usava peruca. Silvio Santos, que posou careca para a capa de uma revista, levou fama de que usava peruca.
No perfil sobre Frank Sinatra, Truman Capote revela que o cantor também usava peruca, cuidadosamente instalada. Não sei se acredito completamente nesta história. Mas, se for verdade, Sinatrão era um mestre da peruca. Talvez o único homem a usá-la com perfeição.
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Mas não pensemos nós que a peruca está confinada ao baú dos velhos tempos. Se o sapato plataforma e a boca de sino voltaram, nada mais causará espanto. Até os cílios postiços – uma espécie de peruca dos olhos – retornaram com força total. Aliás, outro dia eu vi um colocador de cílios postiços, algo semelhante a um instrumento de tortura medieval.
Enfim, se até os cílios postiços voltaram, quem dirá as perucas. Nesse dia, então, as antigas cabelereiras, as únicas a guardar os segredos de um bom trato na peruca, reinarão absolutas, subjugando o universo dos emperucados.
P.S.: Rezo de pé junto para que a antiga gola cacharrel repouse no mais profundo abismo do esquecimento. Pode voltar o terno xadrez, o sapato dockside e a calça de elástico da OP. Mas a cacharrel não. Por favor.
Publicado em 05 de setembro de 2006 às 17:20 por preto
o vendedor de desentupidor de boca de fogão acho que ainda existe também, vi um no calçadão esses dias. já o padeiro que entregava pão em casa dizem que teve o último espécime abatido enquanto saía de fininho de uma casa na hora do almoço.