Bastou uma morena apetitosa alugar o apartamento ao lado para Nereu ter idéia. Besta, diga-se de passagem. Ainda embriagado pelo sabor da genialidade, iniciou uma conversa mole com a esposa, assumindo ar tristonho e distante.
-Benhê, eu não estou legal.
-Que que foi, Nereu?
-Sei lá, mil coisas. Sabe, eu sinto que preciso de algo, lá no íntimo... Ah, é um sufoco danado.
-Ahã.
-Sabe quando você precisa fazer algo? Você sabe que é algo que desafia as convenções sociais, mas é um ímpeto tão forte que é difícil controlar? Tem sido uma agonia.
-Desembucha.
-Eu preciso desesperadamente transar com outra mulher. É isso, falei, pronto. É quase incontrolável, parece até uma missão. Uma certeza que eu tenho lá no fundo, sabe? Claro, seria só sexo, nada mais, apenas para extravasar tanto sentimento negativo acumulado.
-Pois eu também andei pensando, Nereu.
-Ah, é?
-Pensando em dar para o primeiro que eu encontrar na esquina.
-Opalalá. Peraê...
-Dar mesmo, gostoso, de soltar gritinhos. Claro, seria só sexo, nada mais, entende? Não agüento mais essa opressão sobre o feminino.
-Nananina, calma-lá...
-Mas minha vontade, mesmo, lá no fundo, quase incontrolável, é dar e depois cobrar.
-Como é?
-Cobrar, Nereu.
Aí bateu a idéia de que a mulher, embora sua, não era de se jogar fora. E muito menos de deixar dando sopa por aí.
-Tá bom, benhê, então eu pago e a gente ferve um pouquinho.
-Ah, Nereu, seu safadinho. Mas paga quanto?
-Que tal, hum..., Dezlão?
-Nereu, se eu for para a esquina, será pelo menos por quinhentão. Cadê minha bolsa?
-Tá bom, tá bom, eu pago mil e a gente não fala mais nisso.
***
Agora os dois estão fumando na cama. “É o momento propício para discutir a relação”, pensa ela. “Será que aquela Caracu ainda tá na geladeira?”, pensa ele, logo mudando para “ah, aquela vizinha gostosa...”.
-Nereu...
-Ãh.
-Você me acha gostosa?
-Ahã.
-Você pagaria milão para me comer se eu não fosse tua mulher?
-Ahã.
-Então porque que você está pensando no rabo da vizinha?
Nereu empalideceu. Seria algum tipo de telepatia?
-Que isso, benhê. Quem é meu momozinho?
-Momozinho o escambau. Pode ir assinando o cheque.
Publicado em 13 de setembro de 2006 às 16:12 por preto