Noites de Vigília

Derek Bailey



Enquanto a mídia em geral dedicava espaço a bandas que sequer lançaram disco, o guitarrista Derek Bailey morreu, prestes a completar 76 anos, sob silêncio de rádios, tvs e jornais.

Enquanto a mídia em geral procura novidades viciadas, um verdadeiro inovador batia as botas.

Ah, deram uma nota, minúscula, na “Folha de S.Paulo”, dizendo que Bailey tinha tocado com Pat Metheny. Na verdade, foi Metheny quem tocou com Bailey, por favor.

Pior, conheci (em áudio) Derek Bailey há apenas dois anos e, justamente quando mergulhava em sua música libertária... Pimba!

Vamos às apresentações: Derek Bailey nasceu na Inglaterra em 1930, envolveu-se no cenário jazzístico tradicional mas também tocou pop/rock.

Logo estava ao lado do baixista Dave Holland, e depois mergulhou em experimentalismos que o levaram a abandonar noções de tempo, harmonia e melodia, transformando a guitarra em um instrumento de sons inexplicáveis, uma ponte inconsciente, um desaguar de fluxos e delírios, confusos e impressionantes, livres de qualquer métrica.

Tudo isso inclui o amálgama de transformações da música no século 20: atonalismo, livre improviso, free jazz e vários tipos de técnicas e (des)afinações.

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Claro, vão dizer que é barulho, isso não é música, coisa e tal. A seguir este raciocínio, talvez ainda estivéssemos no período clássico – prezando a forma –, para onde muitos compositores se encaminharam ao negar os rompimentos de um século fenomenal.

Com raras exceções, não confio na abstração sem o respaldo das técnicas fundamentais. Primeiro aprende-se o básico, o bê-a-bá, o dó-ré-mi. Depois transforma-se como der na telha. É preciso saber escrever antes de ser poeta.

Para os céticos, nada melhor que o disco “Ballads” (2002), em que Bailey destrinchava toda sua capacidade sobre melodias e harmonias convencionais, para depois subvertê-las, destruí-las, reprocessá-las.

Um tema convencional, como “Rockin’Chair”, de Hoagy Carmichael, é apresentado de forma acessível, para ir ganhando ângulos obtusos, desconstruções, até que as referências desaparecem completamente em delírios febris, ruídos, mudanças de afinação, harmônicos, o diabo.

O disco é importante porque apresenta o processo de abstração do guitarrista e, por conseqüência, todo o conhecimento e domínio sobre o instrumento.

Derek Bailey morreu sem que o Brasil o conhecesse (em decorrência de doença neurológica, aos 75, no dia 25 de dezembro. em 29 de janeiro, completaria 76 anos).

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Mesmo com toda a liberdade que a internet oferece, ainda assim nos rendemos às fórmulas, ao convencional.

Com tanta coisa para descobrirmos na rede, vamos exatamente atrás do hype, da onda, da moda, como nos velhos tempos do vinil.

Mesmo agora que podemos nos libertar das regras da indústria fonográfica, ainda assim as seguimos, guiados por um cabresto invisível que já incorporamos à vestimenta.

E nos julgamos livres e sábios.

Publicado em 04 de janeiro de 2006 às 13:26 por preto

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