Bradock era um pentelho. Ao contrário do que sugeria o nome, tratava-se de um pinscher minúsculo, com latido ardido. Quando as crianças caíam na piscina, ele girava em torno, como que agonizado pelas brincadeiras na água. Parecia uma formiga. Andava como se não pisasse o chão.
Mas, à boca pequena, convenhamos, Bradock era um chato.
Tinha uma tara por canelas – principalmente masculinas –, mas não manifestava a paixão logo de cara. Disfarçava, dava umas voltas, oferecia carinho e, quando a confiança era conquistada, tchuf! Grudava de forma que os donos não vissem e a visita caísse em constrangimento.
Fazia cara de piedade quando saía o churrasco. E, se algum coitado caísse no truque, era importunado à exaustão.
Se olhássemos bem, dava para perceber que Bradock tinha uma costela quebrada, formando uma ponta sob a pele. Resultado de um acidente: caiu do colo quando bebê. Mas a conseqüência maior, talvez, tenha sido neurológica. Bradock era doidinho.
A chatice era tanta que a mãe das crianças desejou-lhe secretamente a morte. E, nesse quesito, Bradock contava com as sobrevidas de um gato.
Certa vez, foi atropelado. A roda passou em cima de seu corpo esquelético e... Bradock ficou estropiado, doente, fodido. E sobreviveu. Sumiu, voltou. Apanhou de cachorro grande, foi atropelado de novo... E nada de Bradock morrer.
Até que as crianças viraram adultos e passaram a ignorar as artimanhas do cachorrinho. Bradock já não corria mais em volta da piscina, já não atacava canelas incautas, já não implorava por churrasco.
Antes que a tristeza absoluta desabasse sobre ele, foi atropelado novamente e, enfim, como um herói, aceitou a morte. A casa ficou mais triste, as brincadeiras na piscina perderam a graça e até o churrasco ficou chocho. Bradock era tão chato que, depois de morto, fazia falta.
Publicado em 26 de março de 2007 às 12:57 por preto