Virou a esquina e...
-É um assalto!
A arma apontada, trêmula.
-Pode levar tudo, ó, taí a carteira.
-Passa o relógio!
-Ué, essa voz eu tô conhecendo...
Olham-se.
-Siqueira!
-Mendonça!
-Como é que cê tá, rapaz?
-Mudei de ramo... E você, ainda está n’ O Vespertino Imparcial?
-Não, também saí de lá.
-Você fechava Economia, né?
-Pois é. E você Mundo.
-Quantas vezes brigamos, hein? Crise nas bolsas, eu insistia que era Mundo.
-E eu Economia. O tempo voa.
-O jornal ainda existe?
-Existe, mas houve readequação.
-Hein?
-Demitiram todo mundo, ficou só a Eulália.
-E ela fecha o quê?
-Tudo.
-Tudo?
-É, o jornal virou semestral. São os novos tempos. Nem precisa repórter.
-Ah, eu consegui sair dessa vida. Mas ainda estou me adaptando. Falando nisso, o relógio, faz favor...
-Tó. Sabe, eu também abandonei as redações.
-Ah é, virou assessor de imprensa?
-Virei assessor de um deputado aí. Deu rolo.
-Cana?
-Da braba. Mas cheguei a ganhar uma grana, lá no primeiro mandato. Se não fossem os promotores...
-Xii, promotor eu tô fora.
-Rapaz, me arruinaram. Perdi tudo e ainda devo uma grana preta na praça.
-É muito, é?
-Uns três milhões. Estou começando de novo.
-Então pega sua carteira de volta, ó, fica com os documentos.
-São falsos.
-...
-Bem que você podia me emprestar esse revólver...
-Você devolve? Dois vês, hein? Vai e volta. É o meu ganha-pão.
-Belê.
-Toma.
-É um assalto.
-Pô, Siqueira!
Publicado em 01 de setembro de 2007 às 00:17 por preto